Inglaterra teme revolução dos EUA no futebol

Criadores do esporte, ingleses veem campeonato americano com indiferença, mas se preparam para enfrentar EUA na Copa

The New York Times |

Quando a Inglaterra pegou os Estados Unidos, Eslovênia e Argélia no seu grupo da Copa do Mundo, o tablóide "The Sun" estampou uma manchete que dizia "FÁCIL", e acrescentou, "melhor grupo inglês desde os Beatles".

Depois, o ator britânico Hugh Grant apareceu no programa "The Daily Show" em Nova York e disse ao apresentador, Jon Stewart: "Eu fico surpreso de saber que vocês têm um time masculino de futebol. Aqui o jogo é para mulheres".

Como inventores do esporte, os britânicos podem ser condescendentes e pouco informados sobre o jogo nos Estados Unidos, vendo o futebol dos americanos como estes veem o beisebol dos ingleses.

Mas nem todos fazem pouco caso. Na verdade, a opinião sobre o futebol dos americanos é complicada e cheia de nuances.

Existe uma certa valorização dos americanos que jogam no Campeonato Inglês, um certo respeito pela seleção nacional, grande indiferença em relação ao campeonato Major League Soccer(dos EUA), temor em relação aos homens de negócio americanos que são donos de grandes times ingleses e a descrença de que o futebol de segunda linha dos Estados Unidos possa se tornar uma potência mundial em breve.

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Torcedores do Liverpool protestam contra americanos que são donos do time (foto: 28/03)

"Antes 30% respeitavam a seleção nacional e o futebol dos Estados Unidos e 70% o ignoravam completamente. Hoje acho que 60% respeitam", disse John Harkes, que em 1990 se tornou um dos primeiros americanos a jogar profissionalmente na Inglaterra.

Jonathan Spector, americano que joga pelo West Ham United, sente que todos os times têm respeito pela seleção dos Estados Unidos "menos com a Inglaterra". Ele acrescentou: "Não faz muito sentido. Agora que vamos jogar contra a Inglaterra, isso deveria ser mais fácil para eles".

Isso pode vir do orgulho nacional, disse Spector, dada a posição econômica, cultural e política dos Estados Unidos como potência mundial. O futebol "é a única coisa na qual eles ainda podem ser melhores", disse Spector.

Se os Estados Unidos vencerem a Inglaterra no dia 12 de junho na Copa do Mundo da África do Sul, um sentimento de "apreensão" certamente tomará conta da Grã-Bretanha, disse Spector. Por causa da forte crença de que a Inglaterra pode vencer a Copa do Mundo, uma derrota para os americanos "basicamente acabaria com as chances da Inglaterra diante do público e da mídia, ainda que realisticamente este não seja o caso".

Jay DeMerit, americano que joga pelo Watford, disse que a pressão e expectativa resultariam em tamanha crítica caso a Inglaterra perdesse para os Estados Unidos que a seleção "não gostaria de voltar para casa".

Os Estados Unidos derrotaram a Inglaterra por 1 a 0 na Copa do Mundo de 1950. A partida ainda é uma das mais amargas memórias do campeonato para os ingleses. Mas isso aconteceu há 60 anos. Mais impressionante para os britânicos é a vitória americana sobre a Espanha, na época o melhor time do mundo, e uma derrotada apertada para o Brasil na Copa das Confederações em junho do ano passado.

"Eu acho que todos perceberam que se há uma diferença" entre as seleções dos Estados Unidos e da Inglaterra, "ela é bem pequena", disse Oliver Kay, principal correspondente de futebol do "The Times" de Londres.

Barry Glendenning, humorista do "The Guardian", brincou com o entusiasmo americano colocando um ponto de exclamação depois de E.U.A.! e chamando a Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos de uma "pelada de verão". Segundo ele, isso não passou de uma piada.

"Em relação à seleção, ninguém trata o time como uma piada", disse Glendenning sobre os americanos. "Eu acho que muitas pessoas preferiam não ter que jogar contra eles".

Quando Harkes chegou à Inglaterra para jogar pelo Sheffield, ele foi zombado por alguns fãs, que gritavam: "Volta para casa ianque. Vai jogar futebol americano". Mas a atitude mudou.

Goleiros americanos de Kasey Keller a Brad Friedel, Tim Howard e Marcus Hahnemann se deram bem na Inglaterra, e uma das teorias para isso é que eles cresceram jogando esportes que usam as mãos.

E agora o sucesso de Clint Dempsey no Fulham e Landon Donovan em sua breve passagem pelo Everton diminuíram a convicção de que os americanos não têm a força física e mental necessárias para jogar na Inglaterra, disse Kay. "A suposição é que há mais [jogadores] de onde eles vieram", ele disse.

DeMerit afirmou que a ética de trabalho dos jogadores americanos é bem-vinda. "Eles nunca dizem 'Eu não posso'", disse DeMerit, citando um amigo que é técnico de jogadores juvenis em Londres. "Eles dizem, 'Por que eu não posso?'"

O campeonato Major League Soccer (ou MLS), por outro lado, não recebe o mesmo respeito. Geralmente é ignorado. Depois que David Beckham foi para o Los Angeles Galaxy em 2007, David Hirshey, editor executivo da HarperCollins, que publicou a autobiografia de Beckham, se encontrou com o venerado escritor de futebol Brian Glanville em um jogo do Arsenal.

"Uma vez que seu jogo caiu tanto ao longo dos anos, ele deveria ter se tornado um dos melhores jogadores do asilo precoce que é o MLS", Hirshey diz ter ouvido de Glanville na ocasião.

Tampouco foi colocado um tapete vermelho para a família Glazer no Manchester United, ou para Tom Hicks e George Gillett no Liverpool, proprietários que endividaram os clubes e atraíram a raiva dos fãs. Esses americanos desconsideram a opinião inglesa de que um time de futebol deve ser gerenciado como um fundo público, não como uma máquina de dinheiro, disse Tom Cannon, especialista em finanças de futebol e professor da Universidade de Liverpool. "Os fãs de futebol ingleses não gostam deste ponto de vista", disse Cannon.

Eles também podem não estar confortáveis com a ideia postulada no livro "Soccernomics" de que os Estados Unidos, que chegaram às quartas de final da Copa do Mundo em 2002, vão se tornar uma potência do futebol mundial por causa de sua riqueza, população e sistema amplo e jovem.

Se os Estados Unidos derrotarem a Inglaterra, "eu não acho que seria um marco", disse Simon Kuper, um dos autores do livro. "Seria apenas mais uma etapa de um caminho que os Estados Unidos já tomaram e que parece levá-los lentamente para cima".

Por Jeré Longman

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