Indiana faz greve de fome há 11 anos em protesto contra violência militar

Jejum de ativista Anna Hazare chama atenção para luta de mulher presa, internada em hospital e alimentada à força

The New York Times |

Ela chegou em uma ambulância, magra e pálida como um fantasma, com um tubo de respiração colocado em seu nariz. Cercada por policiais, foi conduzida à sala do juiz em Imphal, na Índia, para um ritual quinzenal que já repetiu centenas de vezes. E veio a pergunta: Ela estava pronta para acabar com seu jejum?

Irom Chanu Sharmila, uma poetisa e ativista de 39 anos, deu a resposta de costume: não. E assim, foi levada de volta para o seu quarto de hospital onde passa os dias isolada, sendo alimentada à força com uma mistura de nutrientes pelo tubo colocado em seu nariz. Esta tem sido sua rotina há 11 anos.

NYT
Irom Chanu Sharmila, que está em greve de fome há 11 anos, é vista em Implhal, na Índia (30/08)

Recentemente, uma greve de fome de 12 dias do ativista social Anna Hazare paralisou o sistema político da Índia, chamou a atenção da imprensa local e inspirou centenas de milhares de pessoas em todo o país a participar de sua jornada contra a corrupção.

Mas na Índia, onde a greve de fome serve como uma ferramenta comum de protesto - desempenhando um papel de destaque até mesmo na criação de um Estado moderno -, nem todos os protestos chamam a atenção do público da mesma maneira. Ao longo do tempo, a luta solitária de Sharmila caiu no esquecimento. Sua causa: eliminar as leis que protegem as forças de segurança de repressão neste remoto canto do nordeste da Índia.

Ela passa o dia isolada de seus partidários, de sua família e da mídia. As autoridades controlam com rigor o acesso a ela. Ainda assim, sua determinação é inabalável. "Sou forte", garantiu Sharmila, com olhos fundos, em uma breve entrevista na sala do juiz. "Estou apenas à espera de Deus e de seu julgamento infalível."

As imensas fronteiras da Índia englobam uma diversidade impressionante de terreno, cultura, religião e etnia, enquanto o país luta para permanecer fiel a seus ideais democráticos. Manipur fica no canto nordeste da Índia, um dos sete Estados do nordeste que se encontram do outro lado da estreita faixa de território que faz fronteira com o norte de Bangladesh.

Na sua aparência e cultura, as pessoas desta região têm mais traços em comum com o Oriente da Ásia do que com a da distante capital, Nova Délhi. Várias facções lutaram pela independência e autonomia desta fragmentada região e o governo respondeu com dura repressão militar.

No local, os soldados são muito mais livres porque estão protegidos de serem acusados judicialmente por uma lei conhecida como o Ato dos Poderes Especiais das Forças Armadas, de 1958. Segundo a lei, os militares podem prender sem mandado, atirar para matar em caso de suspeita e usar força letal para acabar com encontros de cinco ou mais pessoas. Eles não podem ser processados sem permissão explícita do governo central, algo que acontece raramente.

Com isso, a lei levou a décadas de abusos dos direitos humanos. Milhares foram mortos, feridos, detidos e torturados com impunidade, dizem os ativistas de direitos humanos da região.

O episódio que levou Sharmila a iniciar sua greve de fome ocorreu em uma tarde do dia 2 de novembro de 2000, em uma vila chamada Malom e localizada à beira do povoado de Imphal. Uma misteriosa explosão ao longo da estrada principal que conduz à vila fez com que soldados fossem enviados para tomar conta da vila. Eles mataram 10 pessoas, incluindo adolescentes e uma avó de 62 anos. Sete dos mortos foram baleados à queima-roupa enquanto formavam filas em um ponto de ônibus - os outros três foram mortos a tiros em outras partes da aldeia.

Os soldados alegaram que tinham respondido a tiros disparado pelas vítimas, mas uma investigação não encontrou nenhuma evidência sobre o caso.

"Os disparos da equipe do Assam Rifles resultou na morte de até 10 (dez) pessoas inocentes ", diz o relatório do inquérito, que foi concluído no ano passado, quase uma década depois dos assassinatos.

Entre os mortos estava Chandramani Singh, um estudante de 17 anos d que tinha ganhado um prêmio nacional de bravura por salvar seu irmão mais novo de se afogar em um lago quando ele tinha 4 anos. Ele viajou a Nova Délhi para receber uma medalha em forma de trevo do então premiê Rajiv Gandhi. Seu irmão mais velho, Robin, também foi morto.

"A família foi completamente destruída", disse Singh Manichandra, o irmão que Chandramani salvou e que agora é um médico de 25 anos. "Meus dois irmãos que viviam comigo de repente foram mortos a sangue frio."

Dois dias após o massacre, Sharmila sentou em um tapete tecido à mão embaixo de um telhado de metal ao longo da estrada principal e pendurou uma placa que dizia "Greve de Fome", disse Babloo Loitangbam, um ativista dos direitos humanos e conselheiro de Sharmila. Seu objetivo era fazer com que o governo central revogasse a lei dos Poderes Especiais das Forças Armadas para que os homens que realizaram os ataques à Malom pudessem ser processados.

"Pensamos que pudesse demorar algumas semanas", disse Loitangbam. "Um mês no máximo."

Quase imediatamente ela foi presa sob uma cláusula do código penal da Índia que faz da tentativa de suicídio um crime. Ela foi hospitalizada e alimentada à força, uma prática que a Associação Médica Mundial considera "uma forma de tratamento desumano e degradante ".

Desde então ela tem sido levada de hospitais a tribunais, fazendo uma aparição a cada 15 dias para reafirmar seu desejo de morrer de fome. Uma vez por ano o tribunal é obrigado a liberá-la - a pena máxima para o crime é de um ano. Sharmila geralmente é presa no dia seguinte após sua libertação.

Quando foi liberada em 2006, seus aliados ajudaram a levá-la para Nova Délhi, onde ela fez brevemente uma greve de fome em Jantar Mantar, um popular local de protestos da capital. Mas ela foi presa novamente, hospitalizada e alimentada à força, e em seguida, enviada de volta para Manipur, que não deixou desde então.

Sharmila passa seus dias em solidão quase completa. Criminosos condenados podem receber duas visitas por semana, mas ela é mantida em isolamento em seu quarto de hospital. Ela faz quatro horas de yôga por dia e lê muitos livros - seu quarto é repleto de biografias de Nelson Mandela, Martin Luther King Jr. e Mahatma Gandhi, heróis de lutas não-violentas como a dela.

Mas ela não é avessa a textos mais leves. Quando questionada sobre o que está lendo recentemente, seus olhos se arregalaram. "Stieg Larsson!", respondeu, com uma risadinha. "Muito impressionante."

Ela disse que tinha ouvido falar de Hazare e admirava sua dedicação à sua causa. "Me sinto bem ao pensar na sua coragem", disse. Hazare e seus aliados haviam escrito uma carta convidando-a para juntar-se à luta contra a corrupção.

"Não tenho a vantagem de realizar meu protesto não-violento em busca de justiça como uma cidadã democrática de um país democrático", escreveu ela em resposta. "Quando estiver livre, como vocês, poderei participar da sua cruzada incrível para erradicar a corrupção - que é a raiz de todos os males. Ou você pode vir até Manipur, uma das regiões mais afetadas pela corrupção em todo o mundo", acrescentou.

Ativistas como Sharmila têm atuado para conseguir o fim da lei da segurança há muitos anos, com pouco efeito. Debates sobre Manipur e seus problemas com os direitos humanos são mais propensos a serem ouvidos em fóruns internacionais, como a Organização das Nações Unidas ou o Parlamento Europeu, do que em Nova Délhi.

A greve de fome de Hazare chamou a atenção para a luta de Sharmila. Loitangbam tem sido procurado pela mídia indiana e até um ministro do governo, Salman Kursheed, telefonou, perguntando como a greve de fome poderia ser encerrada. Hazare manifestou interesse em visitar Sharmila em Manipur. Mas muitos se preocupam com alguns dos elementos nacionalistas que se uniram à causa.

"Por um lado Hazare está nos dando visibilidade", disse Loitangbam. "Mas não queremos ser completamente absorvidos por isso."

Sharmila disse que não tem intenção de desistir da sua greve até que encontre a justiça que procura.

"Até que a minha exigência seja cumprida, irei passar a minha vida assim", disse. "Não há outra maneira."

Por Lydia Polgreen

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