Incapacitado durante tumulto de 68, policial ainda sente a dor

NOVA YORK - Do dia 1º de maio de 1968, Frank Gucciardi, oficial a paisana de 34 anos, apareceu para trabalhar e recebeu ordens para colocar o uniforme. No dia anterior, 1000 policiais de capacetes expulsaram os estudantes do campus da Universidade de Columbia que haviam ocupado, mas um novo turno seria necessário para manter a ordem no local, que passava por tumultos desde a semana anterior.

The New York Times |

Assim que ele e nove outros agentes atravessaram o portão de Columbia - em seu caso, sem lanternas, sob às ordens do capitão - eles viram "jovens correndo em nossa direção", ele se lembra. "Eles tinham galhos de árvores nas mãos e nos batiam com eles". Das janelas, os estudantes atiravam latas de lixo, potes de cola e, como se trata de Columbia, livros. Um estudante arrancou seu capacete e outros o jogaram de um lado para outro antes de abandoná-lo ao lado de um dos prédios do campus.

Quando Gucciardi abaixou para pegá-lo, um estudante - nunca identificado - pulou pela janela do segundo andar e aterrissou nas suas costas. O estudante fugiu correndo; Gucciardi, que passou por três difíceis operações na espinha, nunca mais correu.

No domingo ao meio-dia, como parte das comemorações dos eventos históricos daquela semana 40 anos atrás, outros veteranos dos protestos em Columbia terão a oportunidade de subir ao palanque do ponto de encontro do campus e "falar de suas vidas desde então e as lições que aprenderam", de acordo com a programação do evento.

Com o pavio já curto por causa da Guerra do Vietnã e da seca, os estudantes do campus protestavam, entre outras coisas, contra os planos e construção de um ginásio com entrada diferenciada para a comunidade, que era em sua maioria composta por negros.

Para muitos estudantes que participaram, ou apenas testemunharam, os protestos em Columbia, oito dias de ativismo, confronto e violência policial mudou suas vidas. Mas para todas as pessoas que saíram dessa experiência com sua consciência ampliada, ou sua vida acadêmica arruinada, ou sua devoção à causas justas fortificada, provavelmente poucas viram suas vidas mudar tanto quanto Gucciardi.

Ele ainda sente a dor daquele dia - nas pernas e nas costas diariamente - e não pode andar mais de 100 metros sem parar para descansar. Criado em Ozone Park, no condado de Queens, ele vive na Flórida agora, para onde se mudou em 1977 para escapar do frio de Nova York que piora suas dores.

Se Guggiardi estivesse no campus no dia anterior ele poderia ter memórias como as de muitos dos estudantes: policiais batendo indiscriminadamente em observadores, ou perseguindo estudantes e atacando-os. Mas na verdade, 15 minutos depois que chegou ele foi removido em uma maca, com estudantes gritando obscenidades a ele mesmo assim.

"Eles nos chamavam de porcos e diziam que deveríamos morrer", relembra Gucciardi, pai de três crianças pequenas à época. Ele não relembra isso com raiva, mas surpresa. "Eu só achava que eles eram muito burros", ele diz, "jovens que são tão inteligentes agirem dessa maneira".

Apesar do seu ferimento ser geralmente tratado como um dos sinais da brutalidade do que alguns historiadores menos simpáticos chamam de revolta de Columbia, Gucciardi não se vê como parte daquele momento histórico, um símbolo da repulsão dos jovens pelas autoridades. "Quem pode dizer o que passava na cabeça dele?" ele diz a respeito do estudante que quebrou sua coluna. "Talvez estivesse chapado".

Aquele estudante era um dos poucos, em sua opinião, que deram um mau nome à universidade toda. "Eu nunca guardei rancor deles pois sei que faziam o que achavam certo na época", ele disse. "Eu não acho que eles estavam lá para machucar ninguém, mas infelizmente aconteceu".

Quando ele se recuperou o suficiente para funcionar "7 numa escala de 1 a 10", Gucciardi trabalhou com seguros por um tempo, mas o esforço do trabalho o colocou num hospital por sete meses. Ele acabou vendendo jóias de casa para se manter ocupado. Ele nunca processou a Universidade Columbia e se aposentou com pensão de incapacidade pela força policial.

Antes de deixar a polícia, no entanto, ele recebeu a promoção de sargento que tentava conquistar antes do acidente - algo significativo naquela época. "Há alguns anos, se você ficava doente não conseguia uma promoção", ele disse. "Se você está fazendo o seu trabalho não há por que negar sua promoção e eu disse isso ao Comissário Leary. Ele disse que mudaria aquilo imediatamente."

Isso é rotineiro hoje em dia. Dizem que a história pertence àqueles que a escrevem, e essas pessoas costumam ser policiais. Mas no livro que Gucciardi escreveria é assim que ele mudou vidas para sempre.

    Leia tudo sobre: eua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG