Imigrantes realizam sonho americano sem inglês fluente

Com ajuda da tecnologia, comerciantes driblam dificuldade com a língua e criam negócios bem-sucedidos nos EUA

The New York Times |

Mais de 40 anos depois de chegar em Nova York, sem nenhuma educação ou dinheiro, Felix Sanchez de la Vega Guzman, do México, ainda mal consegue falar inglês. Faça uma pergunta e ele vai responder com algumas frases soltas e um sorriso de desculpas antes de voltar para o conforto do seu espanhol natal.

No entanto, Sanchez viveu a grande história de sucesso americana. Ele transformou um negócio de venda de tortillas na rua em um império de US$ 19 milhões, que atende a diáspora mexicana de costa a costa nos EUA e já atua no próprio México.

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Felix Sanchez de la Vega Guzman posa em galpão da Puebla Foods em Passaic, Nova Jersey (12/10)

Sanchez faz parte de uma pequena classe de novatos que chegaram aos Estados Unidos sem nada e, apesar de falar pouco ou nenhum inglês, se tornaram notavelmente prósperos. E embora gerações de imigrantes tenham prosperado apesar das barreiras da língua, atualmente a tecnologia tem ajudado os empresários a enriquecer.

Muitos firmaram as raízes de seus negócios nas grandes cidades com populações de imigrantes grandes o suficiente para isolá-los de situações cotidianas que exigem o inglês. Depois de ganhar espaço em suas próprias comunidades, eles usam ferramentas modernas de comunicação, transporte e comércio para explorar mercados em enclaves semelhantes em todo o país e no mundo.

"Meu mercado inteiro é hispânico", disse Sanchez sobre o seu negócio. "Você não precisa do inglês."

Um acordo, segundo ele, está a apenas uma ligação de longa distância ou a algumas teclas no computador. "Tudo em espanhol", acrescentou.

Sanchez, 66, disse que sempre quis aprender inglês, mas que não teve tempo para fazer aulas. "Não conseguia me concentrar", disse ele em entrevista em espanhol. "Além disso, todas as pessoas ao meu redor falavam espanhol também."

Em Nova York, empresários bem sucedidos que não falam inglês, como Sanchez, surgiram das maiores populações de imigrantes, incluindo os da China, Coreia do Sul e países de língua espanhola.

Zhang Yulong, 39, que emigrou da China em 1994, preside agora um negócio de acessórios para celular em Nova York que conta com 45 funcionários e lucra cerca de US $ 30 milhões ao ano. Ki Chol-Kim, 59, que chegou nos Estados Unidos da Coreia do Sul em 1981, abriu uma loja de roupas e acessórios no Brooklyn e se tornou um revendedor de sucesso, um investidor imobiliário e líder da diáspora coreana da região.

Nos Estados Unidos, em 2010, chefes de família responsáveis por um total de US$ 4,5 milhões em renda falavam inglês "não muito bem" ou "nada", segundo o Censo. Desses, cerca de 35,5 mil tinham renda familiar de mais de US$ 200 mil por ano.

Nancy Foner, professora de sociologia na Universidade da Cidade de Nova York, que escreveu extensamente sobre a imigração, disse que está claro que a tecnologia moderna tem feito uma grande diferença na capacidade dos empresários imigrantes com pouco ou nenhum conhecimento de inglês em expandir as suas empresas a nível nacional e mundial.

"Não era impossível – mas muito, muito mais difícil - para os imigrantes operar negócios em todo o mundo anos atrás, quando não havia aviões a jato, sem falar de celulares e computadores", disse Foner.

Defensores do movimento conhecido como Inglês Oficial há muito pressionam por leis que obriguem a definição do inglês como o idioma oficial do governo, argumentando que uma linguagem comum é essencial para a coesão do país e para a assimilação e o sucesso dos imigrantes.

Mas histórias como a de Sanchez, apesar de raras, parecem sugerir que um empreendedor pode conseguir muito sem o inglês – especialmente com a ajuda da tecnologia moderna, além da sua determinação e criatividade.

Para Sanchez, que se tornou um cidadão americano em 1985, houve uma grande ansiedade quando ele teve que prestar o teste da naturalização. A lei exige que os candidatos sejam capazes de ler, escrever e falar inglês em nível básico.

Mas Sanchez e outros empresários disseram que o teste – pelo menos na época em que o fizeram – é bastante rudimentar e que eles passaram com facilidade.

Sanchez imigrou para os Estados Unidos em 1970 do Estado mexicano de Puebla, tendo estudado apenas até a quinta série. Ele teve uma série de empregos mal remunerados em Nova York, incluindo lavar pratos em um restaurante. A população mexicana na região era pequena na época, mas logo começou a crescer, assim como a demanda por produtos mexicanos autênticos.

Em 1978, Sanchez e sua esposa, Carmen, usaram uma poupança de US$ 12 mil para comprar uma prensa de tortilla e uma batedeira industrial em Los Angeles e trouxeram os equipamentos para a Costa Leste, onde instalaram tudo em um armazém em Passaic, Nova Jersey. Sanchez passava os dias dirigindo uma empilhadeira em uma fábrica de equipamentos elétricos e as noites fazendo tortillas para vendê-las de porta em porta nos bairros latinos em torno da cidade de Nova York.

Sua empresa, a Puebla Foods, cresceu com a população mexicana, e logo ele estava distribuindo suas tortillas e outros produtos mexicanos, como pimentas secas, a restaurantes em todo o país. Ele usa uma equipe bilíngue, que em determinados momentos incluiu seus três filhos, que nasceram e cresceram em Nova Jersey.

Zhang, o empresário de acessórios para celulares, disse que sua falta de inglês não o atrapalhou. "O único obstáculo que tenho é quando eu fico muito cansado", disse ele, que também é dono de uma empresa de promoção imobiliária e de uma empresa de varejo online.

Em 2001, Zhang montou um negócio de venda de atacado de acessórios para celular, em Manhattan. Ele então arrecadou dinheiro de parentes e investidores da China para abrir uma fábrica no país para fazer capas de couro para celular para exportação.

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Zhang Yulong posa para foto em galpão de sua empresa de acessórios para celular em Nova York (11/10)

Seu negócio prosperou e ele abriu armazéns em Los Angeles, Nova York e Washington, controlando sua produção internacional, abastecimento e cadeia de varejo.

Zhang agora vive em uma grande casa no Queens com a mulher, três filhas e seus pais, e dirige um Lexus. Ele não pediu a cidadania americana, preferindo continuar a ser um residente legal permanente e manter sua cidadania chinesa, o que lhe poupa o incômodo de precisar de um visto chinês quando ele vai para a China a negócios.

Embora fale um pouco de inglês – ele avalia sua compreensão em menos 30% - ele conduz quase toda a sua vida em chinês. Seus funcionários falam as línguas dos parceiros comerciais: inglês, espanhol, coreano e francês, isso sem mencionar vários dialetos chineses.

Ao longo de uma longa entrevista, Zhang corajosamente tentou em várias ocasiões conversar em inglês, mas cada vez que ele se deparava com obstáculos balançava os ombros e voltava a falar em mandarim com a ajuda de um tradutor.

Ki, o varejista coreano e investidor imobiliário, lembrou que quando abriu sua primeira loja no Brooklyn, quase toda a sua clientela era afrocaribenha e afroAmericanA, e seus clientes não falavam coreano. "Você não precisa manter uma conversa longa", lembrou. "Você pode fazer gestos."

Enquanto seus negócios cresciam, ele também formou ou liderou associações e organizações com foco na força da população coreana nos Estados Unidos. Como no mundo dos negócios, a comunicação moderna tornou muito mais fácil para ele conquistar credibilidade em meio à diáspora coreana que vai além de Nova York.

"O sucesso da minha vida não é apenas o fato de eu ganhar muito dinheiro", disse ele, "mas, sim, o fato de eu melhorar a vida do povo coreano."

Mesmo assim, ele admitiu estar envergonhado por sua inabilidade em falar o inglês. Ele chegou a comprar programas de computador de ensino de inglês, mas eles apenas juntaram poeira.

Por Kirk Semple

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