Imigrantes passam dificuldades enquanto a Espanha recolhe o tapete de boas-vindas

MADRI ¿ Quando Camelia Condurat não podia mais juntar os trocados para comprar pão para suas três filhas pequenas, ela encontrou farinha e fermento e preparou o pão ela mesma. ¿Se você não tiver 50 centavos para comprar uma fatia de pão, o que você pode fazer?¿ disse ela na semana passada. ¿Você se esforça até conseguir.¿

The New York Times |

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Atravessar esses momentos se tornou uma missão diária e tortuosa para a senhora Condurat, uma romena de 24 anos. Quando seu marido Costel, que veio para a Espanha em 2003, perdeu o emprego de pedreiro em outubro, ela procurou emprego pela primeira vez desde que veio para Espanha, há dois anos. Ela cozinha e limpa um restaurante local, trabalhando em turnos de até 12 horas, sete dias por semana, em troca de 700 euros, cerca de US$900 dólares ao mês.

Metade do salário paga o aluguel do pequeno apartamento de três quartos que a família dela divide com dois outros inquilinos. O que sobra não cobre as necessidades das famílias, então Camelia gasta seus raros momentos desocupada ficando nas filas para donativos no escritório de bem-estar do governo local, na Cruz Vermelha e na igreja. Costel, 39, ex-policial romeno que recebia cerca de mil euros como pedreiro, fica em casa com as crianças.


Imigrante romena Camelia: turnos de 12 horas para ajudar no sustento / NYT

É tão, tão difícil, diz ela em espanhol fluente, olhando para as mãos calejadas enquanto as meninas, de 3, 5 e 6 anos, escalam seu colo. Eu tenho vergonha de pedir ajuda. Mas eu tenho três filhas, então deixo o meu orgulho em casa.

Em um subúrbio de classe média com muitos imigrantes às margens da cidade de Madri, essas histórias se tornaram comum.

Destino cobiçado

A Espanha criou mais empregos e atraiu mais imigrantes que qualquer outro país na Europa na última década, em grande medida devido ao boom na construção civil. Com a economia balançando, empregadores estão descartando empregados em números alarmantes ¿ o desemprego subiu mais de 11% no terceiro semestre ¿ e os imigrantes em empregos que necessitam de pouco instrução são os mais afetados.

O governo espanhol antes permissivo está agora recolhendo o tapete de boas-vidas e mesmo encorajando imigrantes a voltarem para casa em troca de dinheiro. Durante o boom econômico, a Espanha simbolizava a fome da Europa por mão-de-obra barata. Mas agora, o país se tornou um laboratório para as tensões que surgem quando esses trabalhadores ficam desempregados.

A Espanha não sofreu com as explosões de xenofobia como a Itália, e os espanhóis dizem que seus próprios anos de nação de imigrantes contribuíram para isso. O casal Condurrat, por exemplo, disse que o primeiro patrão deles permitia que eles atrasassem o aluguel e quase todos os dias presenteava as meninas, que o chamavam de avô, com biscoitos e pão.


Dispara o número de imigrantes desempregados na Espanha / NYT

Mas a hospitalidade pode ter acabado. A taxa de desemprego está agora entre as mais altas da União Europeia, que era de 8% no fim de 2007. Entre os imigrantes, o desemprego é estimado em 17%. Cerca de 5 milhões de imigrantes são registrados como moradores da Espanha, um país de 46 milhões, com marroquinos, romenos e equatorianos liderando a lista.

Desespero

Entrevistas com mais de uma dúzia de imigrantes, líderes de associações de imigrantes e de caridade de Madri, revelou um retrato de desespero crescente na comunidade de trabalhadores estrangeiros na cidade e seus arredores.

Muitos estão vivendo com o auxílio-desemprego, mas milhares não recebem porque trabalham ilegalmente ou sem contrato formal, como o Costel Condurat. Muitos dizem que a vida passou a ser uma intensa busca em centros de empregos, distribuição de sopas e casas de caridade locais. Alguns estão com os aluguéis ou prestações vencidos a meses ou estão acumulando dívidas.

Para Rene Bonilla, 33, pintor e decorador da Colômbia, a crise econômica destruiu o que ele construiu ao longo de sete duros anos. Em novembro de 2007, Bonilla começou o processo de trazer a mulher, Iuli, e a filha do casal de 2 anos, Arancha, da Colômbia. Ele ganhava 1.100 euros por mês e estava confiante que poderia bancá-las.

Quando elas chegaram, em setembro, Bonilla estava sem emprego há um mês. Para trazer a família, ele gastou os 4 mil euros que tinha poupado. Agora os três passam os dias engaiolados em um apartamento em Alcorcon, um subúrbio com grande número de imigrantes latino-americanos.  A única cama da família serve de mesa, lugar para assistir TV e brincar com Arancha. Eles estão sobrevivendo com empréstimos feitos com o patrão, um espanhol idoso.

Agora, voltei para onde comecei, disse Bonilla, com os olhos inchados de insônia. Atualmente, eu estou em piores condições. Sou sete anos mais velho, e agora somo três pessoas passando fome.

Por VICTORIA BURNETT

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