Imigrantes iraquianos lutam para se adaptar à vida nos EUA

Não muito depois do início da Guerra do Iraque, em 2003, Uday al-Ghanimi foi abordado por diversos homens do lado de fora de uma base militar americana no país onde gerenciava uma loja de conveniência. Eles o acusaram de ser cúmplice dos americanos e um deles atirou em sua cabeça com uma arma.

The New York Times |

Agora, após 24 operações, Ghamini teve o rosto reconstruído e também asilo político nos EUA. Em 4 de julho, sua mulher e seus três filhos mais novos se juntaram a ele em Nova York, depois de três anos separados.

Mas a euforia do encontro rapidamente se dissipou quando a família começou a pensar na realidade ainda mais difícil daquela nova vida. Ghanimi, 50, que não pode trabalhar por causa da dor permanente, está sustentando sua família com um cheque mensal de US$ 761, recebido por debilidade, com o Programa Food Stamp (que dá vale- refeição a famílias carentes) e doações de amigos.

Eles estão apertados em uma sala alugada, em um apartamento de dois quartos na parte Upper West de Manhattan, em uma cidade cuja pequena população iraquiana fica espalhada. Além disso, a mulher e os filhos de Ghanimi não falam inglês, aumentando a sensação de exclusão.

Eles dizem, vamos voltar, disse Ghanimi com tristeza. Não é como eles pensam. Eu disse a eles para serem pacientes.

Anos após os EUA terem invadido o Iraque, centenas de iraquianos pediram permissão para entrar no país americano e encontraram as portas fechadas ¿ até que em 2007, o governo reagiu às amplas críticas tornando mais fácil a entrada de várias pessoas, com um visto especial ou como refugiados.

Mas agora os iraquianos estão chegando em grande quantidade e muitos estão descobrindo que a vida nos EUA é bem mais difícil do que esperavam.

Um relatório divulgado em junho pelo Comitê de Resgate Internacional, organização de restabelecimento para refugiados em Nova York,  mostrou que muitos imigrantes iraquianos não conseguem encontrar emprego, estão esgotando os benefícios do governo, além de mergulharem na pobreza e não terem moradia.

Advogados de imigrantes em Nova York e outros locais dizem que os iraquianos têm mais dificuldade em se adaptar do que a maioria dos outros imigrantes. Muitos são bem educados e chegam com expectativas sonhadoras em relação à vida que os esperam. Apesar de a maioria receber assistência do governo ou de agências privadas, um grande número imigrou para o país em tempo de recessão.

Muitos também precisam de ajuda para lidar com as feridas físicas e emocionais da guerra. Eu nunca vi uma população na qual o trauma fosse tão universal, disse Robert Carrey, vice-presidente de políticas de restabelecimento e migração para o Comitê de Resgate Internacional.

Desde a invasão de 2003, mais de 30 mil iraquianos foram restabelecidos nos EUA como refugiados ou com vistos especiais por trabalharem próximo ao governo americano. Ao menos mais 1.500 receberam asilo, disseram oficiais federais.

A vasta maioria chegou nos últimos dois anos, em várias partes do país, com grandes concentrações em São Diego, Phoenix, Houston e Dearborn, em Michigan. Mais de 1.100 foram para a região de Nova York, ficando ao menos 100 na cidade de Nova York.

No Iraque, muitos trabalhavam como médicos, professores, cientistas e intérpretes ¿ muitas vezes para americanos, o que criava uma esperança de que seriam recompensados com uma vida confortável nos EUA. Mas assim como imigrantes de outros países, a maioria descobriu que credenciais no exterior nem sempre servem para o mercado americano, deixando-os para competir por empregos mais simples.

Nour al-Khal, 35, que chegou em Nova York como refugiado em 2007, tem monitorado diversas famílias iraquianas. De acordo com ela, uma das dificuldades de adaptação é aceitar a probabilidade de que não conseguirão uma profissão melhor.

Lutamos por isso, disse Khal, que levou um tiro em Basra, no Iraque, em 2005, enquanto trabalhava como intérprete para Steven Vincent, jornalista americano morto no ataque. Ela era gerente sênior de uma empreiteira americana. Em Nova York, o melhor emprego que conseguiu inicialmente foi como recepcionista em uma empresa de bens imobiliários. Eu tive que aceitar isso, disse Khal, que agora trabalha como tradutora. Foi tão difícil.

A região de Nova York oferece oportunidades notáveis para forasteiros. O transporte público é bom, as agências de serviço social têm uma rica experiência com imigrantes recentes. Mas o custo de vida é alto, e a população iraquiana ¿ diferente de outros grupos imigrantes que colonizaram vizinhanças e formaram associações ¿ se reduziu a pedaços, dando lugar a uma alienação que é agravada pelo ritmo cruel da cidade.

Minha vida é miserável, disse Dunya al-Juboori, 29, ex-proprietária de um salão de beleza em Bagdá, que veio como refugiada em 2007 e agora vive em Medford, Nova Jersey. Ela está trabalhando por um salário mínimo em um salão pelas manhãs e frequentando a escola de cosmética no resto do dia, sem ter tempo ou dinheiro para uma vida social. Ela não vê sua família desde 2006, quando deixou o Iraque para buscar tratamento para um linfoma avançado na Jordânia.

Eu choro todos os dias, disse ela, acrescentando rapidamente, não pela manhã, porque estou muito ocupada.

Ehab, 34, que trabalhava em uma empreiteira em Bagdá e partiu após receber ameaças, disse que imigrantes iraquianos recentes realmente precisam de instruções (ele falou na condição de que seu sobrenome não fosse publicado, dizendo temer que insurgentes no Iraque atacassem sua família).

Um iraquiano que está mudando de um país em guerra precisa de muito cuidado, disse Ehab, que chegou a Nova York como refugiado em 2007 e trabalha como coordenador de projetos na Proskauer Rose, empresa de advocacia de Manhattan que ajudou centenas de refugiados e pessoas procurando asilo.

O gerente de uma loja onde houve um tiroteio está profundamente agradecido pelo plano de saúde gratuito, pela assistência legal e a moradia que recebeu enquanto seu rosto era reconstruído e os pedidos de asilo para sua família estavam em andamento.

Mas as tarefas ainda necessárias são impressionantes, disse ele ¿ desde encontrar um novo apartamento até conseguir um tratamento para várias dores físicas e emocionais de sua mulher.

De acordo com ele, seu trabalho mais importante é convencê-los de que estão melhores nos EUA do que em Bagdá ¿ ou, ao menos, pensar que suas vidas não estão em risco.

Eu lhes disse que tudo aqui é bonito, disse ele. Tem eletricidade 24 horas por dia, o clima é bom, diferente do Iraque. E há muitas coisas que você não poderia conseguir naquele país. Então eles vêm e dizem, 'é, mas você não consegue aqui também'".

Poucos dias depois, ele levou a família à Times Square para ver o pôr-do-sol e sentir completamente o efeito das luzes. Eles estavam de olhos abertos, fascinados com a experiência. Talvez leve tempo para colocar as coisas no lugar, disse Ghanimi. Mas sinto que tudo ficará bem.


Por KIRK SEMPLE


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