Ignorando resistência, Brasil se prepara para construir represa

Construção inicial da barragem de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo, está programada para começar no próximo ano

The New York Times |

ALTAMIRA, Brasil – Para Raimunda Gomes da Silva, a construção iminente de uma grande barragem hidroelétrica aqui na Amazônia é um doloroso déjà vu.

Há cerca de 25 anos, a inundação advinda da construção de outra represa a mais de 200 quilômetros daqui levou uma praga de cobras venenosas, insetos e onças a sua terra, ela disse, antes de submergi-la completamente.

Agora, depois que recomeçou sua vida em Altamira, o governo está dizendo que ela precisa partir novamente, desta vez para abrir caminho para a barragem de Belo Monte, que vai inundar uma grande área da cidade, deslocando milhares de pessoas.

“Esta barragem é uma ameaça para mim, porque eu já não tenho a energia de antes”, disse da Silva, 53, cuja família de 11 pessoas compartilha uma casa de três cômodos com bananeiras no quintal. “Não podemos continuar a investir e construir outra casa como esta. Para mim, isto é como jogar fora muita esperança”.

Mas ela terá pouca opção. A construção inicial da barragem de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo, está programada para começar no próximo ano.

Persistente oposição de grupos ambientais e indígenas, mesmo com a ajuda de celebridades de alto escalão, como o diretor de cinema canadense-americano James Cameron, não conseguiu parar o projeto de US$ 11 bilhões, que irá produzir eletricidade para cidades grandes como São Paulo, através da inundação de cerca de 200 quilômetros quadrados da bacia do rio Xingu.

As comunidades indígenas dizem que a barragem vai devastar suas terras e tirar cerca de 12.000 de suas casas. Eles dizem que ela irá reduzir o nível do rio, acabando com sua tradicional indústria de pesca tradicional.

Um terço da cidade de Altamira, acima da barragem, acabará debaixo d'água. Milhares de moradores serão realocados.

Na semana passada, lideranças indígenas regionais se reuniram aqui para planejar uma ocupação dramática do local de construção da barragem, mas depois de quatro dias de discussão não conseguiram chegar a um consenso e o protesto foi cancelado. Membros de grupos não-governamentais que tentam parar a barragem estão começando a soar resignados.

“Os grupos estão ainda divididos”, disse Christian Poirier, líder da campanha do grupo Amazon Watch no Brasil, que participou da reunião. “Há uma série de considerações políticas neste momento para os líderes indígenas. Alguns têm sido neutralizados por subsídios ou ameaças”.

O governo tem se esforçado bastante para garantir que a construção da barragem, planejada a décadas, irá começar antes que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixe o cargo no final deste ano. Quando algumas das mais importantes companhias de construção e empresas de engenharia civil do Brasil ficaram nervosas a respeito dos riscos financeiros no início deste ano, o governo aumentou sua participação no investimento e agora está financiando mais de três quartos do projeto.

Valter Cardeal, diretor de engenharia da Eletrobrás, empresa estatal de eletricidade, disse que o projeto não terá um impacto econômico negativo na comunidade indígena.Ele reconheceu que haverá redução do fluxo de água, mas não o suficiente, segundo ele, para afetar a pesca.

Ele disse que Belo Monte trará “melhorias e avanços” para os povos indígenas, incluindo saneamento, melhor saúde e educação, e segurança “territorial” de suas propriedades.

Quanto a Altamira, ele disse que as pessoas forçadas a se relocar serão compensadas e a maioria irá se beneficiar disso.

No bairro de baixa altitude de cerca de 700 casas onde vive Gomes da Silva, por exemplo, algumas moradias são construídas sobre palafitas, para evitar inundações sazonais.

Cardeal disse que a mudança iria tirar os moradores de tais “condições precária e subumanas”.

Ele disse que o governo irá prestar assistência aos pequenos agricultores e que as empresas de construção haviam concordado em colocar US$ 280 milhões em um plano de desenvolvimento sustentável para a região.

Tais garantias são contestadas por oponentes da barragem e por muitos moradores.

Numa reunião realizada em março, as lideranças indígenas acenaram arcos e flechas, e ameaçaram ir à guerra para impedir a construção. Mas duas tribos, os Xikrin-Kayapó e Parakanã, diminuíram sua oposição desde então, citando preocupações sobre a perda subsídios do governo, disse Poirier.

Ele e outras pessoas envolvidas nas discussões acusam a estatal Eletronorte de tentar dividir os grupos indígenas através da compra de líderes com presentes ou a ameaça de negar a suas comunidades serviços de saúde ou outros.

Cardeal e um porta-voz da Eletronorte negaram as acusações.

Os moradores de Altamira estão divididos. Alguns estão esperançosos de que a barragem trará empregos e dinheiro a este município pouco populoso.

Durante a construção, a barragem irá abrir estimados 20 mil postos de trabalho, ainda que inicialmente muitos dos trabalhadores venham de outros lugares, disse Elcirene de Souza, chefe do gabinete federal de empregos de Altamira. Ela disse que 90% da força de trabalho de Altamira não tem a qualificação necessária para realizar os trabalhos necessários no projeto.

Ela disse temer que o afluxo de trabalhadores poderia trazer gangues, drogas e crime para a região, como aconteceu na construção de outras barragens. Os oficiais do governo, no entanto, disseram aos moradores que esperam evitar tais problemas ao não criar uma vila separada para os trabalhadores, como fizeram no passado, mas incorporá-los na cidade.

Os currículos de candidatos já começaram a chegar, cerca de 8.200 nos primeiros quatro meses do ano, de pelo menos cinco Estados brasileiros, segundo de Souza.

Moradores como Gomes da Silva, céticos em relação a promessas do governo de subsídios e pacotes de mudança, estão mais preocupados sobre onde vão morar. Ela disse que o governo pagou pouco por sua última casa, cobrindo apenas o custo dos materiais de construção e não o preço de mercado. Ela teme que o mesmo irá acontecer novamente.

“Quando eles chegam, eles vêm com uma tabela de preços, mostrando o que vão oferecer pela nossa casa e nós aceitar esse preço ou eles não oferecem nada”, disse ela. “Eles me dizem o quanto vale a minha casa e não vão me enviar a qualquer outro lugar”.

Ela teme por seu marido, pescador. “Ele só precisa trabalhar mais dois anos para conseguir sua aposentadoria, mas não temos certeza se ele será capaz de pescar por mais dois anos”, disse ela. “Você acha que os peixes vão ficar por aqui? Os peixes sabem para onde fugir, mas nós temos que ir para onde nos mandam”.

* Por Alexei Barrionuevo

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