¿Hospital¿: livro retrata ambiente administrativo de hospital de Nova York

Que lugar deplorável é o hospital moderno. Até mesmo aqueles de nós que trabalhamos em um e nos acostumamos ao ambiente geral ficamos constantemente surpresos com novos exemplos de crueldade, idiotice, desordem e ganância onde, em teoria, somente a amável gentileza altruísta deveria habitar.

The New York Times |

Mesmo assim, claro, coisas boas também acontecem em hospitais ¿ às vezes coisas realmente incríveis, miraculosas, pequenos diamantes do comportamento humano que justificam todos os adjetivos das pomposas declarações da missão do hospital.

Não é à toa que essas contradições chocantes fazem com que os jornalistas sejam invariavelmente atraídos para hospitais, em busca das melhores histórias escondidas lá dentro, ou para oferecer a experiência do eu estava lá.

Todos esses relatos de testemunhas são imperfeitos em alguns aspectos. O dinâmico Hospital, de Julie Salamon, não é exceção. Mas seu objetivo é mais ambicioso que o da maioria, e até mesmo os problemas do livro acabam dizendo ao leitor muita coisa sobre essas instituições modernas problemáticas.

Em 2005, Salamon, jornalista veterana e ex-repórter de cultura do The New York Times, recebeu permissão para vagar pelos corredores do Maimonides Hospital do Brooklyn, Nova York, por um ano, sem supervisão, como ela enfatiza. O Maimonides, hospital público de médio porte, estava atravessando um período de rápido crescimento e estava disposto a fazer uma propaganda extra.

Com um novo centro de câncer sendo aberto, o hospital estava desesperado para convencer os pacientes do Brooklyn que não era necessário buscar assistência nos grandes centros acadêmicos afastados, do outro lado de Manhattan.

Portando um crachá de identificação do hospital onde se lia Escritora, Salamon mergulhou a fundo na vida hospitalar. Sua única limitação era o compromisso da administração do hospital de proteger a privacidade e confidencialidade dos pacientes.

Talvez sua consciência desses limites a afastou dessa vigilância e a levou em direção às salas de reunião. Talvez tenha sido o simples instinto de estar em um lugar onde pudesse contar sua história sem a necessidade daquele supervisor, porque sem nenhum background em medicina, muitos detalhes médicos estavam além da sua compreensão.

De qualquer forma, ela escreveu um livro que traz uma luz sobre o negócio da medicina, sobre todos os milhares de encontros diários entre médicos, enfermeiros e pacientes, os dolorosos dilemas do diagnóstico e do tratamento, as histórias do dia-a-dia sobre doença e recuperação que são a alma de qualquer hospital e a essência da maioria das narrativas como esta.

Em vez disso, ela freqüentou várias reuniões e aprendeu muito sobre a luta administrativa de gerenciar um hospital e não deixá-lo no vermelho. Alguns desses detalhes são fascinantes. O Maimonides foi fundado em 1922 para atender às necessidades de uma comunidade judaica isolada e hoje ferve em um caldeirão de diferentes culturas e etnias e procura atender a todas elas.

Mas muitas das histórias de Salamon parecem ter saído da Business Week. Administradores brigam um com o outro. Bernie disse que Steve não telefonou, e Steve disse que Bernie não retornou meu telefonema, afirma Mark. Pam me odeia, diz Bill a Sandra.

Pam afirma ter dito a Mark que Douglas está tendo um ataque de fúria. Ann Marie tem a fama de ter excelente capacidade de liderança, mas no fim das contas não consegue aplicá-las.

Essas pessoas de terno poderiam estar comandando qualquer empresa em dificuldades, lutando para obter os resultados em mesas de reunião com café e biscoitos. Apesar de Salamon fazer o possível para humanizá-los com detalhes abundantes da vida pessoal deles e de seus problemas médicos, eles continuam sendo apenas pessoas de terno.

E por todas as suas agonias, uma história de hospital não deveria ser primariamente sobre eles. Deveria pertencer a pessoas em vestimentas cirúrgicas (aqueles sobre os quais Salamon não podia falar livremente) e as pessoas de uniformes (aqueles que não falam sobre o trabalho, mas que na verdade o realizam). Suas rotinas podem ser bem monótonas, também ¿ segurar mãos, dar remédio, descobrir quando e como alguém pode ir para casa. Mas esses momentos dourados, de parar o coração, ocorrem em seus domínios, não na sala da diretoria.

Não que Salamon ignore totalmente o lado clínico. Ouvimos as histórias trágicas de alguns jovens pacientes com câncer, conhecemos algumas pessoas das mais diversas culturas se acotovelando na emergência do hospital, vemos alguns médicos enfrentando heroicamente o caos usual, amplificado no Maimonides por tensões religiosas.

Conhecemos bem um médico da emergência, um surfista. Ele nunca entende o conceito de Brooklyn, escreve e-mails com títulos como Novo Relatório de Merda e no fim do ano corre para a Califórnia, que é o seu lugar.

Mas as vozes do sofrimento humano e os cuidados redentores que deveriam ressoar em um livro como esse estão estranhamente mudas.

Talvez seja assim mesmo nesses tristes dias, quando nosso sistema de saúde decadente força a todos a focarem nos resultados. Talvez os administradores realmente necessitem os holofotes do momento.

Ou talvez o problema seja o fato de que ninguém usando um crachá de Escritora consiga escrever corretamente a música que toca no hospital. Não é culpa de Salamon, mas sua presença sem dúvida transformou o mundo que ela viu. Testemunhe a história da noite quente de junho com o sistema de ar condicionado do hospital falhando e o presidente do distrito do Brooklyn, Marty Markowitz, suando em uma cama da UTI. O diretor do hospital parou para uma visita de pedido de desculpas, acompanhado de Salamon.

Para Markowitz, o fato de uma escritora anotar tudo o que se passava teve um efeito de adrenalina, observou Salamon. Ele imediatamente sentou-se na cama e começou um discurso político, homenageou o hospital, sua missão e seu distrito. Até ficou mais corado.

Suspeita-se que a presença dela surtiu um efeito salutar semelhante em muitos dos auto-promotores do hospital, enquanto os poucos santos encontrados quietinhos em todos os hospitais do mundo mantinham distância dela e tratavam de fazer seu trabalho.

Notas de publicação: 'HOSPITAL: Man, Woman, Birth, Death, Infinity, Plus Red Tape, Bad Behavior, Money, God and Diversity on Steroids.' Por Julie Salamon. Penguin Press. 363 páginas. US$25.95.

Por Abigail Zuger, M.D.

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