Hospitais de Gaza ficam cheios, principalmente de civis

GAZA ¿ Um míssil atingiu a casa do tio deles, feita de concreto e por isso, pensou a família Basal, mais segura que a casa frágil em que moravam. Fida Basal, 20, não estava lá quando o míssil caiu neste domingo, 4, no dia seguinte após Israel começar sua ofensiva por terra à Gaza. Mas sua irmã, 18, estava.

The New York Times |



Fida encontrou Hanin no Hospital Shifa. E recebeu a notícia que uma das pernas de sua irmã havia sido amputada.

Eu quero a perna dela agora! gritou Fida para sua mãe, culpando-a por tê-las feito mudar para a casa de concreto. Deus não tem piedade! Dê-me a perna dela agora!.

O tio perdeu as duas pernas. Outra mulher encontrou apenas metade do corpo de sua filha de 17 anos no necrotério de Shifa. Que Deus acabe com o Hamas! gritou ela, em uma maldição raramente ouvida durante os conflitos em que muitos palestinos glorificam o Hamas como um grupo de resistência, mas o qual Israel afirma ter colocado em perigo propositalmente a vida de muitos civis ao lutar em áreas civis e nos seus arredores.

Desespero

A cena no hospital, no domingo, reflexão singular e apavorante da violência ao redor, foi angustiante e estarrecedora. Há uma semana, quando Israel começou o ataque pelo ar, centenas de militantes do Hamas foram levadas para o hospital. Ainda no domingo, o dia em que as tropas israelenses encheram Gaza e começaram as batalhas por terra contra o Hamas, pareceu não haver nenhum.

As mortes no Shifa, neste domingo ¿ 18 mortos, de acordo com funcionários do hospital, entre os 30 relatados na região de Gaza ¿ eram mulheres, crianças e homens que estavam com crianças. Um cirurgião disse que só ele havia realizado cinco amputações.

Eu não sei qual o tipo de arma que Israel está usando, disse a enfermeira, Ziad Abd al Jawwad, 41, que trabalhou 24 horas sem parar. Há tanta amputação.

É tão difícil quando é na mulher, disse ele, acrescentando com raiva que mesmo a devastação da guerra de 1967 em Gaza acabou em seis dias.

Trabalho incessante

Por nove dias, os médicos têm lutado para manter Shifa funcionando sob as circunstâncias mais adversas. Os funcionários de saneamento constantemente limpam o sangue enquanto os oficiais de segurança do Hamas mantêm a guarda. Mas os recursos excassos estão sendo esticados para o ponto principal e há um terrível fedor no ar.

Dr. Mads Gilbert, físico norueguês que teve permissão para entrar em Gaza na semana passada para dar suporte médico de emergência, e que trabalhou em muitas zonas de conflito, disse que a situação é a pior que ele já viu.

Faltava tudo no hospital, disse ele ¿ equipamentos, anestesia, equipamento cirúrgico, aquecedores e outras máquinas. As janelas explodiram com bombardeios israelenses que ocorreram por perto e, como o resto de Gaza, a limitação rigorosa de suprimentos continuava.

Escassez

Oved Yehezkel, secretário de Gabinete israelense, disse neste domingo que pela informação da disposição de Israel, não há crise humanitária em Gaza.

Muitos na região iriam discordar disso. Com a dificuldade nas linhas de energia, grande parte de Gaza não tem eletricidade. Há uma falta terrível de gás de cozinha.

O governo israelense diz que permitiu a entrega de 10 mil toneladas de socorro humanitário essenciais à Gaza durante a semana, principalmente comida e remédio, mesmo com os disparos de mísseis feito pelo Hamas nas grandes cidades no sul israelense.

Entre as doações havia duas mil unidades de sangue da Jordânia, cinco ambulâncias da Turquia e cinco transferidas pela Sociedade Palestina Red Crescent da Margem Ocidental.

Maioria civil

Nos últimos dias, a maioria dos que chegavam a Shifa pareciam ser civis. Neste domingo, não havia traços das dúzias de militantes do Hamas que o exército de Israel disse ter atingido com suas forças por terra nas últimas horas de troca de fogo. A razão exata não ficou clara. Muitos motoristas de ambulância se negaram a ir perto do lugar de combate. Também pareceu possível que o Hamas e os soldados israelenses ainda guerreavam a distâncias menos letais. É difícil saber se os combatentes estão espalhados por outros hospitais.

Mas em Shifa, a maioria dos homens que foram feridos ou mortos pareciam ter sido atingidos junto com parentes perto de suas moradias ou em estradas. Dois primos jovens e um garoto de cinco anos de outra família foram mortos por projéteis, enquanto brincavam na cobertura plana de seus prédios.

Uma mulher que foi ao hospital com a filha, 15, ferida por um projétil, disse que soldados tomaram sua casa em Beit Lahiya, no norte, e detiveram homens que, segundo ela, eram fazendeiros. A família disse que a filha foi ferida quando as forças israelenses atiraram nos andares mais altos da casa.

O combate não ocorreu dentro da Cidade de Gaza no sábado à noite e no domingo, mas em áreas como Beit Lahiya e no leste próximo à fronteira com Israel. No entanto, ao menos cinco civis na Cidade de Gaza foram mortos na manhã do domingo, quando o bombardeio e mísseis israelenses atingiram o mercado da cidade, disse um funcionário médico palestino. Um porta-voz do exército israelense disse que as circunstâncias estavam sendo investigadas.

Israel

As forças israelenses enfatizaram repetidamente que sua operação não tem como alvo os residentes de Gaza. Mas, sensíveis à profunda oposição de muitos países pelo sofrimento dos civis, o militar repetiu em um discurso no domingo que o Hamas é uma organização terrorista que opera entre os civis, usando-os como escudos humanos.

Partes de Gaza, uma faixa estreita e costeira com uma população de 1,5 milhões, estão entre uma das regiões mais populosas do mundo. A artilharia e tanques de guerra podem facilmente causar danos colaterais. Israel fez tudo menos parar de atirar com tanques e artilharias em Gaza, em novembro de 2006, após 18 palestinos civis, a maioria de uma família, foram mortos por lançamentos israelenses que erraram o alvo e atingiram uma fila de casas em Beit Hanoun.

Em conversa por telefone, no domingo de manhã, com Itidal Mushtaha, 58, que estava em sua casa em Shajaiya, próxima à fronteira com Israel, disse que havia bombardeios por toda parte. Ela, seus quatro filhos, suas esposas e 23 netos ficaram todos unidos, aterrorizados, no chão da casa sem eletricidade e água. Os israelenses destruíram muitas casas por perto que foram identificadas como pertencentes ao Hamas, disse ela, acrescentando não sabemos onde nos esconder.

Mushtaha, que geralmente não é uma mulher política, não pode fazer nada além de glorificar o Hamas. Deus abençoe esses lutadores. Eles estão se atirando à morte para nos proteger, disse ela.

Esperança

Em Shifa, o corpo de Ahmad Abu Daf permaneceu no necrotério do hospital na Cidade de Gaza por cerca de duas horas no domingo, quando então seus parentes vieram recolhê-lo. Abu Daf, 37, foi atingido junto com um de seus filhos por um projétil israelense, quando estava do lado de fora de sua casa no distrito de Zeitoun, na Cidade de Gaza, disseram seus parentes. O garoto chegou ferido ao hospital, mas a situação de Abud Daf era muito pior.

Enquanto eles carregavam o corpo em uma maca para fora do necrotério para levá-lo para ser enterrado, de repente começaram a gritar. Sangue estava escorrendo de sua boca e sua mão parecia estar tremendo como se estivesse vivo.

Quatro médicos correram para a sala de emergência para supervisioná-lo. Um dos homens da família gritou com raiva para o médico: Como você pôde mantê-lo no refrigerador por duas horas?.

Os médicos checaram. A esperança se foi. Acredite em nós, ele não está vivo, disse um deles. Apenas reze por ele. Não há nada que você possa fazer.

Por TAGHREED EL-KHODARY

11º dia de bombardeios

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