Homens trocam indústrias por enfermagem nos EUA

Demissões no setor manufatureiro aumentam número de homens enfermeiros, profissão em alta em Estados como Michigan

The New York Times |

Em 2007, Kurt Edwards imaginou que iria empilhar e estocar caixas e mais caixas no armazém do supermercado onde trabalhava para o resto de sua vida. E ele estava feliz com isso. Mas em junho, após nove anos no cargo, foi demitido. A cadeia de supermercados Farmer Jack fechou as portas e Edwards ficou desempregado.

Hoje ele ainda carrega peso, mas de pessoas e não de caixas. Edwards entrou para o grupo dos muitos ex-trabalhadores de armazéns, fábricas e de indústrias de automóveis que trocaram seus macacões por uniformes de enfermeiros.

NYT
Kurt Edwards trabalha como enfermeiro em clínica de reabilitação em Detroit, Michigan (18/03)

Aos 49 anos, divorciado e sem filhos, ele agora cuida de pacientes no Centro de Reabilitação e Enfermagem de Sheffield Manor, um prédio de dois andares em um bairro em ruínas na região oeste de Detroit. Quando entrevistado no mês passado, ele disse que estava ganhando US$ 70 mil dólares anualmente, cerca de US$ 20 mil a mais do que ele ganhava no supermercado.

A história dessa transição é a mesma que muitos homens como ele parecem contar com cada vez mais frequência: a demanda por este tipo de serviço é o que está definindo seus caminhos.

Não existem dados concretos, mas o Departamento de Energia, Trablho e Crescimento Econômico de Michigan estima uma carência por cerca de 18 mil enfermeiros no Estado até 2015 - e por isso a força de trabalho está se adaptando. A Universidade de Oakland, que fica perto de Rochester, estabeleceu um programa especificamente para treinar trabalhadores da indústria automobilística em enfermagem – formando uma média de cerca de 50 pessoas por ano desde 2009. E a Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Wayne, em Detroit, está matriculando pessoas que resolveram mudar para carreiras de saúde, incluindo trabalhadores no setor manufatureiro, disse Barbara Redman, a reitora. "Eles trazem idade, experiência e disciplina para a nova profissão", disse ela.

David Pomerville traz alguns anos a mais do que Edwards. Estudante de enfermagem aos 57 anos de idade, ele passou a maior parte de sua carreira como engenheiro de automóveis, incluindo quase 10 anos na General Motors. Sua carta de demissão chegou em abril de 2009.

Na época, Pomerville ganhava quase US$ 110 mil por ano no Campo de Testes Milford da General Motors, em Milford, Michigan. Mas após ter presenciado uma outra leva de demissões de funcionários da GM três anos antes, ele já havia decidido ter a carreira de enfermagem como o seu plano B.

"Pensei: 'Bom, trabalhei com carros por todo esse tempo, agora vou trabalhar com pessoas por algum tempo", disse ele.

Mas eles ainda são considerados uma raridade. Apenas 7 % dos enfermeiros são homens, de acordo com uma pesquisa feito pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos em 2008. Esta pesquisa não considerou auxiliares de enfermagem. Ainda assim, o percentual de pessoas certificadas, principalmente homens, subiu de 6,2 % para 9,6% desde 2000, de acordo com o departamento.

Embora essas histórias de sucesso apontem para o fato de que novas oportunidades de emprego estão sendo criadas, a taxa de desemprego no Michigan ainda é de 9%. E Nelson Lichtenstein, diretor do Centro para o Estudo do Emprego, Trabalho e Democracia na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, disse que a história pode ser muito cruel quando se trata de indústrias que estão passando por dificuldades.

"Quando uma indústria entra em declínio e outra acaba crescendo, não quer dizer que teremos uma relação de oportunidades de emprego de um para um", disse ele. "É preciso uma década, duas décadas para que tudo possa se ajustar. Entretanto, algumas pessoas acham que suas carreiras simplesmente chegaram ao fim e que elas nunca mais irão se recuperar. "

Para estes novos enfermeiros, a vantagem é a demanda por sua profissão no Michigan. Edwards sabe que teve muita sorte.

"Acordo todos os dias e me sinto muito orgulhoso de mim mesmo", disse. "Quando me olho no espelho, vejo que sou uma pessoa feliz e que tenho orgulho do que estou fazendo.”

Por Tess Vigeland

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