Hidrelétrica na Caxemira cria disputa entre Índia e Paquistão

Paquistaneses temem que projeto indiano impeça chegada de água de geleiras aos campos secos de Punjab, coração agrícola do país

The New York Times |

Neste vale alto do Himalaia chamado Bandipore, no lado indiano da Caxemira, a mais recente linha de batalha entre a Índia e o Paquistão foi desenhada.

Desta vez não é o chão debaixo dos pés, que tem sido contestado desde a sangrenta divisão da Índia britânica em 1947, mas a água das geleiras das montanhas que desce para campos secos dos agricultores do coração agrícola do Paquistão.

Trabalhadores indianos estão competindo para construir uma cara barragem hidrelétrica em um vale remoto na região, uma das várias barragens que a Índia planeja construir nos próximos dez anos para alimentar sua economia em rápido crescimento, mas com grande escassez de energia.

No Paquistão, o projeto cria temores de que a Índia, país vizinho e rival, tenha o poder de manipular a água que flui à sua indústria agrícola - um quarto de sua economia e setor responsável por empregar metade da sua população.

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Homens trabalham na construção da hidrelétrica em parte indiana da Caxemira

Em maio, o país entrou com um processo junto ao tribunal de arbitragem internacional para impedir isso. Com as suas populações em rápida expansão, a água é fundamental para ambas as nações.

O Paquistão tem o maior sistema de irrigação contíguo do mundo, segundo os peritos. O país também se tornou um terreno cada vez mais fértil para o recrutamento para grupos insurgentes que aproveitam a falta de oportunidade e o sentimento de oposição à Índia.

Os rios que atravessam Punjab, província mais populosa do Paquistão e coração de sua indústria agrícola, são vitais para o país e a disputa sobre a sua utilização está no centro de seus medos a respeito do país vizinho, maior e mais forte.

Para a Índia, os projetos de hidroeletricidade são vitais para o aproveitamento da água do Himalaia para suprir a grave falta de energia que prejudica sua economia. Cerca de 40% da população da Índia vive sem energia e a falta de eletricidade tem prejudicado a indústria do país.

O projeto Kishenganga é uma parte fundamental dos planos da Índia para diminuir essa lacuna.

O projeto indiano ficou na prancheta por décadas e faz parte de um tratado de 50 anos que divide o rio Indo e seus afluentes entre os dois países.

"O tratado funcionou bem no passado, principalmente porque os indianos não estavam construindo nada", disse John Briscoe, especialista em questões sobre a água do sul da Ásia na Universidade de Harvard. "Este é um jogo completamente diferente. Agora há uma série de projetos hidrelétricos".

Se a Índia optar por encher as barragens em um momento crucial para o Paquistão, tem o potencial de arruinar a colheita do país vizinho.

Briscoe estima que se a Índia construir todos os projetos previstos poderá ter a capacidade de armazenar até cerca de um mês do fluxo do rio durante a época da seca no Paquistão, o suficiente para destruir uma colheita inteira.

Por Lydia Polgreen e Sabrina Tavernise

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