Herchcovitch encontra esperança em tempos caóticos

NOVA YORK - Alguns buscam inspiração na decadência delicada de personagens como a Marquesa Casati. Outros relembram a memória das festas do Mudd Club na antiga e sempre popular década de 1980. Para o designer brasileiro Alexandre Herchcovitch é o tumulto das cidades grandes que serve de inspiração, principalmente de São Paulo, a metrópole evoluída aleatoriamente que ele chama de casa.

The New York Times |

"Eu não gosto desta coisa que os designers fazem de colocar as imagens em uma placa", disse Herchcovitch na quarta-feira antes de seu desfile em Bryant Park. Ele se referia à prática da indústria de reunir "placas de humor" nas quais são colocadas amostras, cartões postais, pedaços de tecido e qualquer coisa que se enquadre no tema ou ofereça algum impulso criativo.

"Você chega no estúdio todos os dias e lá está a placa, e o que você faz?", ele questionou. "Você copia a placa". Sua postura na criação de uma coleção é mais improvisada. "Eu nunca gosto de planejar demais", ele disse. "Eu prefiro olhar para fora da minha janela na minha cidade, este lugar que cresceu de forma tão caótica".

Da janela de seu estúdio, ele disse poder ver "10 tipos de prédios diferentes (dos anos 1950, 1970, do século 19). E eu gosto de usar esta ideia para criar uma mistura de silhuetas diferentes nas roupas". Assim uma jaqueta que é alinhada e modelada de um lado do outro é uma série de placas sobrepostas.

A postura é mais ou menos como desenhar não através da composição de um rascunho e depois a conclusão, mas movendo um lápis diretamente da direita para a esquerda. Os resultados, ainda que coerentes, são sugestivos do tumulto urbano que o energiza. "Eu gosto de ser aberto, à cidade, à minha equipe", ele disse. "As minhas ideias não são as únicas".

Apesar de tudo que ouviu sobre a economia americana ("A crise ainda é um rumor no Brasil", ele disse) Herchcovitch manteve sua decisão de mostrar sua coleção em Nova York, e ele é um dos poucos designers estrangeiros a fazer isso. Ainda que possa parecer uma escolha estranha, uma vez que suas roupas são vendidas na cidade apenas na Cerimônia de Abertura, há, para ele, apenas uma semana de moda que interessa realmente para os mercados globais: Nova York.

"Desfilar aqui é mostrar seu trabalho para todo o mundo", disse Herchcovitch, cujas roupas (as silhuetas em camadas de sua coleção, as cores fortes mas não tropicais e as lantejoulas posicionadas como as ondas das calçadas cariocas, são típicas dele) têm uma legião de seguidores fanáticos em seu país e no Japão.

Apesar dos acordos que o designer conseguiu ultimamente com fornecedores, produtores e agências de modelos (seu orçamento para modelos há duas temporadas foi de US$ 90 mil; neste ano ele pagou pouco menos da metade deste valor), ainda custa muito um desfile durante a Semana de Moda. Grande parte do orçamento de US$ 170 mil para o desfile de Herchcovitch foi pago pelo governo brasileiro. ("Aprovado pelo presidente", ele disse com orgulho, se referindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.) Ainda que US$ 100 mil ainda soe muito dinheiro para um designer independente, o investimento paga por si mesmo cem vezes em publicidade, ele disse.

A cidade de Nova York no momento pode não ser o centro do design ou da produção de roupas, mas continua a ser o centro da fama e da mídia. Em que outro lugar, questionou o designer, poderia alguém de relativo pouco nome esperar atrair a imprensa crítica ao seu desfile, e lotar sua primeira fila com celebridades como Kanye West e Natasha Bedingfield.

"Eu estou muito otimista", disse Herchcovitch, como qualquer brasileiro pode estar, dados os índices de crescimento de seu país em 2008.

"Nós não temos este problema agora, fico feliz em dizer", ele afirmou, se referindo à recessão local. "Mas tivemos no passado. As coisas foram muito difíceis em um tempo, e minha experiência diz que, eventualmente, as pessoas voltarão a consumir. Elas irão querer comprar roupas. Elas irão querer voltar à sua vida normal".

- GUY TREBAY

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