Hamas recruta exército de maridos para viúvas da guerra

CIDADE DE GAZA, Faixa de Gaza - Os noivos estavam resplandecentes em camisas brancas enquanto as noivas vestiam preto da cabeça aos pés. Milhares de palestinos (300 casais recém-casados e seus familiares) se reuniram numa noite recente neste estádio esportivo para a celebração de um casamento coletivo, o décimo do ano realizado como cortesia do Hamas.

New York Times |

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O Hamas, grupo militante islâmico que controla Gaza, observa uma trégua com Israel desde junho, permitindo que seus combatentes voltem à vida normal que não oferece muito o que fazer. Ao mesmo tempo, centenas de mulheres do grupo ficaram viúvas recentemente, com seus maridos mortos em confrontos com Israel ou no ano passado em batalhas com seu rival secular, o Fatah.

Aproveitando a pausa na violência, os líderes do Hamas adotaram a prática casamenteira, unindo combatentes solteiros e viúvas, além de pagarem por dotes e festas de casamento para os que não têm dinheiro para os procedimentos.

"O casamento é como uma jihad", ou guerra santa, disse Muhammad Yousef, integrante da brigada Qassam, grupo de resistência do Hamas que se casou recentemente. "Com o casamento criamos uma nova geração de fieis que acreditam na nossa resistência".

Cerca de 300 integrantes da Qassam, a maioria na faixa dos 20 anos, participaram da última celebração em um estádio esportivo no distrito de Tuffah, leste da Cidade de Gaza. Mesquitas locais divulgam o evento e oferecem ajuda para encontrar mulheres para homens solteiros cujas famílias ainda não conseguiram o acordo com uma parceira.

Como incentivo, os casais receberam a promessa de dinheiro no lugar de dotes, com que poucas famílias podem arcar. Mas o embargo econômico a Gaza, liderado pelos israelenses que, como os Estados Unidos e a União Europeia, classificam o Hamas como uma organização terrorista, prejudicou de certa forma as comemorações. Enquanto muitos casais mais pobres receberam presentes equivalentes a US$2,000, muitos outros em situações melhores conseguiram apenas US$200.

"Este é o custo de um estrado para o quarto do casal", disse a desapontada noiva Ola Dalo, 21, inclinando em direção a seu novo marido, Ali Msabah, 24.

Wael al-Zard, líder do Al Taysir, uma associação afiliada ao Hamas que tenta oferecer aos combatentes tudo que precisam para se casar, disse que muitos muçulmanos que costumavam contribuir com dinheiro de Estados do Golfo Pérsico pararam de transferir fundos "por medo".

Para cobrir a falta de recursos, Ismail Haniya, líder do governo do Hamas em Gaza, fez uma contribuição pessoal de US$30,000 ao grupo que se casou em Tuffah, enquanto outro líder sênior do grupo, Mahmoud Zahar, contribuiu com US$10,000.

"Seu dinheiro não irá para cassinos", declarou Zard durante o evento.
Ele quis deixar claro que doações serão dedicadas apenas à perpetuação da agenda islâmica e que não acabarão nos bolsos dos oficiais de alto escalão, uma acusação amplamente disseminada pelo Fatah. "Nós teremos mais casamentos e ninguém ficará sozinho".

Os 300 noivos usavam calças pretas, camisas brancas e gravatas coloridas mas nenhum terno, por causa dos cortes no orçamento. As noivas, sentadas separadamente entre as mulheres, usavam lenços sobre a cabeça e túnicas pretas sobre vestidos de festa mas eram facilmente identificadas pela quantidade de maquiagem. Os casais assinaram contratos de casamento antes do evento.

Os noivos dançaram no palco enquanto um cantor exaltava as virtudes da vida de casado. Ehab Adas, 25, um dos noivos, disse que sente falta da luta mas que se manterá ocupado como secretário no Ministério do Interior. Ele apontou para sua noiva na multidão e orgulhosamente mostrou a última mensagem de texto que ela enviou a seu celular. "Hoje é meu verdadeiro casamento", dizia. "Ele respondeu simplesmente: "Eu te amo".

Apesar do Hamas organizar casamentos há muito tempo, agora o grupo colocou ênfase na prática para conseguir companheiros para as viúvas de suas guerras. Uma delas, Amani Saed, 24, participou do casamento coletivo com seus dois filhos do primeiro casamento, Rami, 5, e Muhammad, 3. Seu pai, Khaled Saed, foi morto aos 28 anos nos confrontos entre Hamas e Fatah em agosto de 2007.

Cerca de oito meses depois da morte de Khaled, o pai dele a mão de Amani para seu filho mais novo, Muhammad, 22, que também trabalha no Ministério do Interior. Amani disse que concordou com uma certa relutância. "Muhammad é mais novo. Isso será difícil, mas vai ser bom para as crianças", ela disse.

Muhammad Yousef, o noivo que comparou o casamento à jihad, veio comemorar e recebeu US$200 apesar de sua família ter um bom status financeiro. Em julho de 2006, um tanque israelense atirou contra sua equipe e eles responderam atirando mísseis em Israel. Ele ficou gravemente ferido no peito e em ambas as pernas e seus amigos acharam que tivesse morrido e celebraram seu "martírio" a caminho do necrotério do hospital.

Mas ele sobreviveu e por causa de seus ferimentos físicos foi removido das missões de campo e passou a trabalhar na fabricação de mísseis.
Yousef disse que compartilhou todos os detalhes de seu passado com sua mulher antes da união e que ela aceitou sua forma de vida de coração aberto. Na noite anterior à celebração coletiva, segundo ele, sua mulher lhe fez um último pedido: que realizem um ataque suicida conjunto contra Israel...

- TAGHREED EL-KHODARY

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