Hamas destrói casas erguidas após invasão de Israel

Residências inicialmente vistas como exemplo de resistência antissionista são demolidas por "construção ilegal em terreno público"

The New York Times |

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Família palestina se abriga sob tenda perto de escombros de casas destruídas pelo Hamas em Rafah, no sul da Faixa de Gaza
Nidal Eid foi elogiado por oficiais do grupo islâmico Hamas como um exemplo de resistência antissionista quando conseguiu construir uma casa na cidade de Rafah no ano passado, apesar de um bloqueio israelense que proibia a entrada de materiais de construção na Faixa de Gaza. Mas, no começo desta semana, sua casa foi a primeira a ser demolida pelo governo do Hamas, que afirmou que a casa havia sido construída ilegalmente em terreno público. 

Escavadeiras, acompanhadas por forças do Hamas e policiais que batiam nos moradores com cacetetes, demoliram pelo menos 25 casas, incluindo algumas estruturas de concreto em Rafah, a cidade mais ao sul de Gaza. "Uma escavadeira colocou sua pá na casa e a polícia disse que nós tínhamos dez minutos para sair", disse Eid, de anos 30, pai de nove crianças, cujo filho mais novo tinha 15 dias quando a casa foi destruída.

Numa cena que lembrava 16 meses atrás, após a invasão israelense de Gaza, pessoas eram vistas sobre as ruínas de suas casas ou em tendas, algumas mulheres com as mãos sobre os rostos. Multidões se reuniram para oferecer conforto a parentes ou apenas para testemunhar as demolições.

Issa Al-Nashar, prefeito de Rafah, disse que a construção em terrenos do governo "exige a aprovação da autoridade além de uma licença do município". Ambos documentos são controlados pelo Hamas, o grupo radical islâmico que chegou ao poder do enclave costeiro em 2007, após expulsar as forças do partido laico Fatah.

A campanha do Hamas para eliminar o que chama de "agressões às propriedades públicas" coincide com o 62º aniversário da criação de Israel, conhecida pelos palestinos como o Nakba, ou catástrofe. Mais de 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas aldeias e cidades para a Cisjordânia, Gaza e Estados vizinhos.

"Esta é a Nakba de 2010", disse Subhia Al-Ghazawi, de 52 anos, que se mudou para Rafah da Cidade de Gaza depois que sua casa foi danificada na invasão israelense que durou três semanas entre o fim de 2008 e o início do ano passado. Israel justificou a ofensiva dizendo que a lançou para impedir ataques com foguetes a partir de Gaza contra o sul do país. A guerra destruiu ou danificou milhares de casas e deixou milhares de desabrigadas.

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Palestinos dorme nos escombros de casa demolida pelo Hamas em Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Desde que chegou ao poder, o Hamas tem geralmente elogiado a construção de habitações como desafio às sanções que foram impostas na tentativa de isolar e derrotar o novo governo de Gaza. Após a guerra, o Hamas incentivou os desabrigados a usar tijolos de lama para construir abrigos e Eid disse que ensinou "o Hamas a construir casas de barro".

A ideia de que o Hamas está agora destruindo algumas dessas poucas casas chocou as pessoas da região. "Perdemos todos os nossos pertences quando a casa que alugávamos foi destruída na guerra, por isso decidimos nos estabelecer aqui", disse Ghazawi, sentada em uma tenda montada perto do que sobrou de sua casa de três cômodos.

Mukhaimar Abu Sada, professor de ciências políticas da Universidade Al-Azhar do Cairo, disse que a demolição de casas é "inaceitável" e isso reflete as dificuldades que o Hamas tem em deixar de ser um movimento de resistência e passar a ser o governo. "Caso o Hamas tivesse pensado melhor, não teria tomado essa atitude", disse. "Ainda que evitar a invasão de terras do governo seja algo necessário, o momento não é propício."

Mimi Al-Huwari, de anos 60, é uma egípcia que viveu durante dois anos em ''uma casa de quarto, cozinha e banheiro construída com a ajuda da pessoas boas", depois que seu marido palestino se divorciou dela. Agora que sua casa foi destruída, disse, "minha família está no Egito e não tenho ninguém aqui. Tenho um filho cuja casa é pequena demais para sua própria família de seis filhos."

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Palestina coleta seus pertences de escombros de casa destruída em Rafah, no sul da Faixa de Gaza
Até o momento, autoridades do Hamas não recuaram em sua posição ou reconheceram qualquer erro. Nashar, o prefeito, disse ''Nakba é uma coisa e a lei é outra coisa". Segundo ele, a terra será usada para a construção de uma escola religiosa que foi destruída em um ataque aéreo israelense durante a guerra. Ele afirmou que o Ministério do Esporte também tem planos para o local.

Na semana passada, por coincidência, o Hamas começou um projeto de construção de 1 mil pequenas casas que podem facilmente ser expandidas quando cimento e materiais de construção se tornarem disponíveis para a construção em larga escala.

Mas os desabrigados não serão facilmente convencidos e questionam por que o governo não agiu no ano passado quando eles compraram as terras de um clã local. Nashar disse que foi um equívoco, que o município havia concedido mais de oito hectares para o clã, ''mas algumas pessoas da família venderam os terrenos da região que pertenciam ao governo".

* Por Fares Akram

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