Haitianos são forçados a deixar barracos para casas precárias

Sobreviventes do terremoto de janeiro de 2010 lutam para retomar rotina em meio à miséria do país mais pobre das Américas

The New York Times |

Na opinião de Robert Darvin, ele é um dos sortudos. Depois de ser retirado de uma barraca há alguns meses, ele, sua esposa e três filhos foram amontoados em uma casa reconstruída do tamanho de um pequeno trailer. Mas, pelo menos, eles têm um telhado para proteger suas cabeças, ainda que seja tão fraco que permite a passagem da chuva.

"A casa é feita de cimento barato", disse Darvin, apontando para as rachaduras nas paredes novas. Ele parecia ao mesmo tempo aliviado por ter encontrado um lugar para morar e assustado que um outro terremoto ou um furacão possa destruir a estrutura. "Se você pensa muito sobre isso, enlouquece”.

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Sobreviventes do terremoto de janeiro de 2010 em acampamento onde vivem desde então
Mais da metade dos haitianos levados a viver em acampamentos improvisados por causa do terremoto de 2010 já saíram deles, baixando o número oficial de pessoas deslocadas de 1,5 milhões para 680 mil, com base em informações da Organização Internacional para as Migrações.

Mas o que pode parecer um sinal claro de progresso, segundo as autoridades, é também motivo de preocupação. Poucas pessoas que deixaram os acampamentos – apenas 4,7%, segundo uma estimativa do grupo – fizeram isso porque suas casas foram reconstruídas ou reformadas. Pelo contrário, a grande maioria foi aparentemente forçada a partir por expulsões em massa por parte dos donos das terras ou deixaram os acampamentos por conta própria para escapar da alta taxa de criminalidade e das condições debilitantes existentes ali.

Agora, a maioria dos ex-moradores dos acampamentos está amontoada em casas de amigos ou parentes, espalhada aleatoriamente em barracas e alojamentos improvisados, ou vive em "casas" que estão em ruínas, danificadas ou parcialmente destruídas, relata a organização. Em alguns casos, blocos de concreto derrubados pelo terremoto estão sendo reutilizados para construir paredes ainda mais desiguais e menos seguras do que antes.

Apenas 37% dos mais de US$5 bilhões prometidos no ano passado por governos estrangeiros e agências internacionais chegaram ao governo do Haiti, ao fundo de reconstrução do Haiti, organizações não governamentais ou outras entidades, de acordo com a Organização das Nações Unidas.

Os diplomatas se queixaram de obstáculos burocráticos no Haiti e da incerteza do resultado das eleições presidenciais caóticas do ano, nas quais o popular cantor Michel Martelly prevaleceu após um segundo turno em março. Ele irá assumir a presidência em maio e se comprometeu a acelerar as coisas.

Por sua vez, o governo do Haiti disse que cerca de 10 mil organizações não-governamentais não conseguiram coordenar suas ações com as autoridades, atrasando a aprovação de projetos.

Sem teto

Conforme os atrasos continuam, grupos cada vez maiores de pessoas deixaram os acampamentos, muitas vezes sem ter para onde ir. Em uma pesquisa com 1.033 moradores de 22 acampamentos desmontados, o grupo de imigração descobriu que as expulsões foram responsáveis pela maior parte das partidas, cerca de 34%. No entanto, a elevada taxa de criminalidade (13,6%), mau estado (13,9%) e a ameaça de chuva ou furacões (16,4%) também foram fatores que pesaram.

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Em Carrefour, na capital Porton Príncipe, haitianos tentam reconstruir moradias pós-terremoto
Centenas de campos desapareceram. Dos cerca de 1.555 registrados em julho do ano passado, existem atualmente 1.061. Um dos mais notórios – uma mistura de mais de 300 barracas e galpões mal-armados ao longo de uma avenida de seis pistas – foi desmantelado em janeiro depois que oficiais do governo encontraram espaço nas proximidades em abrigos provisórios para 180 famílias.

Abrigos feitos de madeira prensada e pintados em tons pastéis, localizados em uma área industrial, devem ser temporários, com duração de três a cinco anos. Mais de 100.000 desses abrigos transitórios seriam construídos no Haiti, mas menos da metade deles foram concluídos, com o processo de construção atrasado em grande parte pelo ritmo lento de remoção dos escombros que continuam empilhados em muitas das ruas e pela dificuldade de encontrar terrenos e financiamento.

Mas mesmo nessa situação um pouco melhor do que em uma barraca, os moradores não descansam em paz. "Sim, nós fomos transferidos, mas a situação é a mesma", disse Michellange Bordeau, 38. "No meio da rua, onde estávamos, as pessoas podiam nos ver. Agora ninguém pode ver nada e ninguém vem para nos ajudar. Nós fomos esquecidos”.

Grupos humanitários que ajudaram e forneceram comida e água também temiam que tais serviços pudessem contribuir para transformar os acampamentos em assentamentos mais permanentes. De fato, vários acampamentos já têm barbearias, clubes noturnos e mercados.

De qualquer forma, os acampamentos são muitas vezes inadequados. Na semana passada, 53 membros do Congresso americano pediram ao governo do presidente americano, Barack Obama, que forneça ajuda, argumentando que 38% dos acampamentos não têm abastecimento regular de água. Quase um terço não têm banheiros, disseram. Onde os banheiros são fornecidos, cada um é compartilhado em média por 273 pessoas.

Além disso, é cada vez mais difícil permanecer nos acampamentos, seja porque as pessoas são forçadas a sair das terras onde eles foram armados ou porque querem sua própria casa. Ou ambos.

Quando Marie Nicoles Meus e seus quatro filhos foram despejados de um acampamento em janeiro, eles se mudaram para uma cabana com paredes de barro que seu irmão havia construído para sua própria família.

O casebre fica em uma estrada cheia de lixo, mas mesmo com nuvens de mosquitos, enchentes, salas sufocantes e e um quarto superlotado compartilhado com uma amiga e seu bebê, Meus diz ter o conforto da proximidade de parentes. "Estou preocupada", disse ela, referindo-se à chegada da estação chuvosa de tempestades. "No entanto, tenho fé em Deus".

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Marie Nicoles Meus com sua filha de quatro meses, Jousely Pierre
*Por Randal C. Archibold

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