Haiti: Cicatrizes encontram conforto em reconstrução em catedral

Pintados nos anos 50, murais da Catedral Episcopal da Trindade sobreviveram ao terremoto de 2010, mas precisam de reparos

The New York Times |

Coloridos e tristes, belos ainda que rachados, os três murais restantes da Catedral Episcopal da Trindade foram tocados pelo sol suave da tarde após o terremoto do ano passado, mas apenas porque o resto da igreja havia desabado.

Os haitianos que passavam diante deles pareciam desolados. Todos os 14 murais eram internacionalmente apreciados. Pintados durante os anos 50, um período de renascimento artístico no país, eles representavam cenas bíblicas de um ponto de vista local e orgulhoso: Jesus carregando uma bandeira do Haiti enquanto ascendia ao céu, e uma última ceia que ao contrário de algumas representações famosas, não retrata Judas com a pele mais escura que a dos outros discípulos.

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Stephanie Hornbeck, do Instituto Smithsonian, mostra mural histórico da catedral
"Tudo isso foi pintado a partir de uma perspectiva haitiana", disse o reverendo David Cesar, o principal sacerdote da igreja e diretor de sua escola de música. Ele observava maravilhado a imagem milagrosamente ainda de pé: Judas, com a barba branca e cabelos brancos ondulados, detalhes frequentemente atribuídos ao próprio Deus.

Esse sempre foi seu mural favorito, disse, e agora será resgatado. Em uma parceria entre a Igreja Episcopal e o Smithsonian, todos os três murais sobreviventes estão sendo cuidadosamente estabilizados e levados para um armazém climatizado no Haiti, onde serão protegidos até que possam ser recolocados em um novo lar.

O trabalho meticuloso de 18 meses de duração teve início no último outono (no Hemisfério Norte), com os conservadores analisando a relação entre as pinturas e as paredes (argamassa fraca) e os materiais usados (têmpera de ovo).

Ficou claro que eles eram frágeis. Uma parte de uma das pinturas, perto do altar, foi quase completamente desbotada pela chuva.

Murais

Os murais que desabaram parecem ter desaparecido. Talvez parcelas tenham sido pulverizadas pelo terremoto. Talvez alguns tenham sido roubados. Mas quando os conservadores e estudantes de arte haitianos separaram os fragmentos dos destroços, encontraram apenas pequenos pedaços, geralmente do tamanho de uma mão ou menores, que não poderiam ser remontados.

"Nós temos apenas cerca de 10% dos 11 murais que caíram", disse Stephanie Hornbeck, conservador-chefe da Smithsonian, cujo mestrado teve a arte do Haiti como foco. "Quando se tem pouco assim, não há nada que possa fazer”.

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Murais foram pintados durante os anos 50, um período de renascimento artístico no Haiti
Para os murais ainda de pé, ela disse que os especialistas têm grandes esperanças e planos. Nas últimas semanas, trabalhadores haitianos armaram andaimes no que era a igreja. Uma rede de vigas de madeira segura uma armação de vinil que protege a pintura e os trabalhadores que tentam cuidadosamente repará-la.

Basta ouvir martelos e ver andaimes para ver sorrisos nos rostos que habitam uma cidade na qual a reconstrução é praticamente inexistente. O som é calmante como música – o alto gemido dos trompetes, a força suave dos violinos – que muitas vezes é tocada atrás da igreja, onde Cesar ensina música. Ele é um dos muitos que aprenderam seus primeiros compassos musicais na escola de música da igreja.

"Minha identidade está toda aqui", disse ele, e nesse sentido, pelo menos, a reconstrução é mais do que arquitetura: toda uma vida artística também está sendo reconstruída”.

*Por Damien Cave

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