Guerrilheira holandesa deixa rastro enigmático na Colômbia

Livro e documentário contam história de Tanja Nijmeijer, integrante das Farc cujos diários foram encontrados em 2007

The New York Times |

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Imagem de vídeo de 2005 mostra Tanja Nijmeijer
O arquivo compilado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) sobre a Guerrilheira No.608372 parece inicialmente comum.

Ele diz que ela nasceu no dia 13 fevereiro de 1978, ensinou línguas em Pereira e Manizales e, em 2002, se juntou à célula urbana Antonio Narino em Bogotá, na qual recebeu treinamento sobre explosivos. Uma fotografia mostra uma mulher jovem e atraente vestindo uma boina. Nom de guerre: Alexandra.

Mas, como os documentos capturados pelas forças de segurança colombianas em um reduto do grupo em 2009 confirmam, essa não é uma rebelde comum. O arquivo é um novo pedaço do quebra-cabeça em torno desta mulher, cujo nome verdadeiro é Tanja Nijmeijer, e que está atraindo a atenção de sua terra adotiva, a Colômbia, e de seu país natal, a Holanda.

"Ela é uma das figuras mais fascinantes da nossa longa guerra e esteve presente em muitos dos seus momentos críticos ao longo da última década", disse Leon Valencia, um ex-guerrilheiro local e um dos autores de um livro recém-publicado sobre Nijmeijer.

O livro e um documentário independente, que foi ao ar neste mês na televisão holandesa, chamam a atenção para a complexa história de Nijmeijer, alegando que a guerrilheira nascida na Holanda não apenas está viva, mas chegou ao círculo íntimo da liderança do grupo rebelde como assistente pessoal de Victor Suarez, um comandante mais conhecido como Mono Jojoy.

Criada na vila de Denekamp no norte da Holanda, Nijmeijer se envolveu em política radical quando era estudante de espanhol em Groningen, uma cidade universitária, onde entrou para a comunidade de posseiros. De lá ela partiu para a Colômbia em busca de aventura uma década atrás, no auge de uma guerra que continua até hoje em nível menor de intensidade.

Depois de pouco tempo, ela escolheu um lado: entrou para as Farc em 2003 e desapareceu nas selvas da Colômbia.

O mundo poderia nunca ter ouvido falar de Nijmeijer, agora com 32 anos. Mas soldados da Colômbia encontraram seus diários, escritos à mão em holandês, por acaso em um acampamento das Farc invadido em 2007. Os textos ofereceram um vislumbre da vida diária dentro do grupo rebelde.

Em algumas páginas, ela descreveu o tédio dos guerrilheiros, que vivem no interior, longe das cidades. Em outros, detalhou a saudade que sente da família na Holanda. Em outro ainda descreveu suas aventuras sexuais com companheiros rebeldes, embora criticando a dominação das recrutas do sexo feminino por seus comandantes do sexo masculino.

Ao longo de seus escritos, ela tocou repetidamente em um tema que parece perturbar os próprios rebeldes: se eles ainda defendem algo, depois que evoluíram de suas origens idealistas e se transformaram em uma força que se financia confortavelmente através do tráfico de drogas e sobrevive fazendo uso de sequestros, extorsões e od recrutamento forçado de crianças como combatentes.

"Como será quando tomarmos o poder?", questiona Nijmeijer em seu diário. "As esposas dos comandantes em Ferraris Testa Rossas com implantes de silicone nos seios comendo caviar?"

Nijmeijer, que então tinha adotado o nome de guerra "Eillen", lamentou que guerrilheiros rasos como ela tivessem de se contentar com ocasionais regalias como um saco de batatas fritas e uma garrafa de refrigerante. Ela reclama: "Às vezes eu quero parar de seguir ordens de um bando de machistas que tentam matar pássaros com metralhadoras".

Não se soube muito de Nijmeijer após a divulgação de seus escritos, além de um vídeo de 2005 apreendido por agentes colombianos e transmitido na TV local. As imagens mostram Nijmeijer em uniforme militar, sorrindo e pedindo a seus pais que a perdoem por desaparecer na guerra desse país.

Histórias semelhantes de aventureiros de países ricos que se deslocam para a América Latina para apoiar movimentos revolucionários armados raramente terminam bem.

Lori Berenson de Nova York, por exemplo, saiu recentemente da prisão peruana onde passou os últimos 14 anos por sua participação em um plano do grupo rebelde Tupac Amaru. Antes disso, houve William Morgan, o contrabandista de armas que nasceu em Ohio e lutou com Fidel Castro antes de ser executado como traidor quando a Revolução Cubana começou a atacar a si mesma.

A odisseia de Nijmeijer do conforto burguês holandês para acampamentos remotos na América Latina desconcertam muitas pessoas, incluindo sua própria família. "Ela é membro de uma organização que faz reféns e tráfico de drogas, não há como negar isso", sua tia, Mariette Olde Dubbelink, disse por telefone de Denekamp.

"Esta é uma situação muito difícil para nós", disse Dubbelink, que fala em nome da família Nijmeijer. "Nós não sabemos se ela está viva ou não. Essa é a grande questão".

Em janeiro, oficiais militares colombianos disseram a família Nijmeijer que as Farc haviam mencionado em suas comunicações de rádio uma mulher apelidada de Holanda. Essa era uma prova, ele disseram, de que Nijmeijer ainda pode estar viva. Mas o Ministério da Defesa se recusou a comentar.

Detalhes sobre Nijmeijer que surgiram a partir do livro e do documentário descrevem uma existência de intriga e ousadia. Ela chegou à Colômbia há cerca de uma década, com um trabalho como professora de inglês em Pereira, no oeste do país, e depois se aventurou com ativistas pacifistas europeus e americanos em áreas controladas pelas Farc.

Mais tarde, ela embarcou em uma vida dupla em Bogotá em 2002, quando se juntou aos rebeldes, ensinando inglês para alunos mais abastados no Instituto Wall Street de dia, enquanto treinava com a operação urbana das Farc durante a noite.

Sob a orientação de Carlos Lozada, um comandante das Farc educado na União Soviética, Nijmeijer aprendeu a fazer bombas. Mas a pressão das forças de segurança fizeram com que as Farc mudassem Nijmeijer e sua unidade de Bogotá para o interior rural, onde permaneceram durante os últimos sete anos.

As Farc fizeram uso de suas habilidades de linguagem e até 2005 ela parecia estar bem, de acordo com as imagens do vídeo transmitido. Em seguida, sua situação parece ter mudado, a julgar pelo que ela revelou em seu diário. A monotonia tomou conta. Ela estava cansada de viver em acampamentos sem privacidade e de ser humilhada na frente de seus companheiros por criticar um superior.

"Será que eu teria sido feliz como civil na Holanda?", ela escreveu. "Se tivesse noivado, casado e tido filhos?"

Mas mais tarde, na mesma passagem, ela expressou orgulho por suas experiências na Colômbia: "Eu vi tudo. Aqui eu me movo como peixe na água, a selva é minha casa. As Farc são a minha vida, minha família".

Liduine Zumpolle, um ativista de direitos humanos holandês e um dos autores do novo livro sobre Nijmeijer, acha que, no geral, ela lamenta a sua decisão. "Tanja se juntou às Farc com ideais românticos em mente e agora ela está presa", ela disse.

Os líderes das Farc têm uma opinião diferente, ao que parece, depois de terem aparentemente perdoado Nijmeijer pelas transgressões expressas em seu diário e reconhecido que a história de sua guerrilheira holandesa pode ter algum atrativo para outros idealistas interessados no grupo rebelde.

"Nem precisamos dizer que ela é linda", as Farc se vangloriavam em seu website em maio. "Ela também fala inglês, espanhol e holandês. Mas é surpreendente como ela é modesta! Isso deve ser porque ela vem de uma família que trabalhava na terra. Ela tem orgulho dessa herança".

Em uma parte do documentário "Closing in on Tanja" do cineasta Leo de Boer, Zumpolle, o ativista de direitos humanos, e a mãe de Nijmeijer, Hannie, viajam à Colômbia e tentam fazer contato com ela por um canal de rádio captado pelos guerrilheiros. Eles lhe dão instruções sobre uma rota de fuga. Apenas silêncio se segue.

"Nós não sabemos", disse a tia, Dubbelink, "se ela ouviu aquele apelo".

Por Simon Romero

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