Guerra do narcotráfico chega a regiões antes seguras do México

Violenta batalha entre duas principais organizações criminosas mexicanas se espalha para interior e sul do país

The New York Times |

A guerra do narcotráfico do México, mais comumente definida pela violência ao longo da fronteira norte do país, está piorando também na região interior e sul, onde o problema não existia até pouco tempo atrás. A ampliação do conflito pegou as autoridades de surpresa e desanimou a população, de acordo com analistas e novos dados do governo.

Na semana passada, dois corpos decapitados foram encontrados em uma minivan perto da entrada de um dos maiores e mais caros shoppings da Cidade do México, geralmente considerada um refúgio contra as atrocidades que têm tomado conta de outras cidades do país.

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AP
Policiais observam corpos na cidade de Medellín, perto de Veracruz, no México (11/01)

Duas outras cidades consideradas seguras há apenas seis meses - Guadalajara e Veracruz – tiveram de lidar com sua cota de brutalidade. No ano passado, 26 corpos foram despejados no centro de Guadalajara, na véspera da feira do livro mais famosa da América Latina. No mês passado praticamente um batalhão policial inteiro foi demitido em Veracruz, depois de oficiais do Estado determinarem que todos ali eram muito corruptos para patrulhar uma cidade na qual 35 corpos foram despejados em uma rua em setembro.

A violência que está se espalhando, supostamente um reflexo da guerra travada entre duas das maiores organizações criminosas do país, tem implicações em ambos os lados da fronteira, pressionando cada vez mais líderes políticos e agentes da lei que já estão tendo diversos problemas em mostrar que suas estratégias funcionam.

"É uma situação cada vez mais complicada e complexa", disse Ricardo Ravelo, jornalista mexicano que escreveu vários livros sobre as organizações criminosas do país.

Autoridades americanas no país reconhecem que o caos é imprevisível, mas afirmam ter uma maneira de ajudar a combatê-lo: espalhando o rumor de que o US$ 1,6 bilhão em investimento da Iniciativa Merida, o principal programa antidrogas de Washington, vai intensificar o treinamento e a assessoria para a polícia e para as instituições judiciais mexicanas, ao invés de enfatizar a compra de helicópteros e outros equipamentos.

Em um ano em que o partido do presidente Felipe Calderón, que está no poder desde 2000, pode enfrentar dificuldades em continuar no poder depois das eleições de julho, o crescimento da violência no México está dando vantagens às campanhas de seus rivais políticos - todos prometem um país mais seguro e pacífico.

O ato de discernir padrões de violência na guerra do narcotráfico pode ser perigoso, pois muitas vezes ela é como um furacão que passa devastando certa área, mas deixando intacta a área ao lado.

Estatísticas divulgadas pelo governo na semana passada mostraram um aumento nas mortes supostamente relacionadas com o tráfico de drogas ou com o crime organizado no Estado do México, que rodeia a capital e é o mais populoso do país, nos primeiros nove meses do ano passado. Os dados do governo mostraram também que a violência agora já atinge 831 comunidades em todo o país, um aumento de 7%.

Embora os números apresentados pelo governo tenham sido questionados, muitos analistas concordam que a violência está aumentando. "Houve certamente uma mudança da violência da fronteira para dentro dos Estados rurais", disse David A. Shirk, diretor do Instituto Transfronteiriço da Universidade de San Diego, que acompanha de perto os crimes relacionados ao tráfico de drogas.

De certa maneira, segundo ele, a mudança é uma reversão gritante da tendência de seis anos atrás, quando a violência explodiu em mais Estados do sul e depois migrou para o norte ao longo das rotas de tráfico de drogas, acelerando uma guerra que já deixou mais de 47 mil mortos, de acordo com números divulgados pelo governo.

Como resposta, o governo mexicano alocou suas forças armadas e a polícia federal, que prendeu e matou mais de duas dezenas de líderes de cartéis e causou a fragmentação ou até mesmo o total desmantelamento de grupos criminosos. Sua tática tem sido apoiada pelos americanos na forma de helicópteros, aviões não tripulados e no maior envolvimento dos agentes americanos de combate às drogas nas investigações e operações.

A violência diminuiu em muitas áreas ao longo da fronteira, inclusive em Ciudad Juárez , que antes registrava o pior índice de mortes e tem observado um declínio nos assassinatos. Autoridades mexicanas afirmam que a diminuição é prova de que elas estão fazendo progressos, mas, segundo analistas, pode se tratar simplesmente da derrota de um grupo criminoso.

Quanto à violência em outras áreas - Acapulco, no sul, agora é a segunda cidade mais violenta do país -, isso também parece refletir o deslocamento das brigas entre os grupos criminosos do país.

A guerra do narcotráfico, conforme Shirk e outros analistas explicam, está cada vez mais se resumindo a uma luta até a morte entre o cartel de Sinaloa, considerada uma das mais tradicionais e poderosas organizações de tráfico de drogas do país, e Los Zetas, fundado por ex-soldados e considerado um grupo mais violento, uma vez que também realiza sequestros, extorsões e outras operações criminosas em regiões distantes da rota das drogas. Uma terceira organização, o Cartel do Golfo, é bem armado e também se envolve em ataques de vez em quando.

Muitos dos confrontos aconteceram em áreas centrais ou mais ao sul do país, onde os dois principais rivais ainda não tinham lutado uns contra os outros com tanta violência, explicam analistas. George W. Grayson, um pesquisador de longa data da violência do México e co-autor de um livro que fala sobre a organização Los Zetas, disse que o grupo se espalhou para 17 Estados, contra os 14 que ocupava um ano atrás.

Autoridades mexicanas continuam a afirmar que vão vencer. Em uma visita a Washington na semana passada, o secretário da segurança pública do México, Genaro Garcia Luna, advertiu que a violência provavelmente não diminuirá significativamente nos próximos cinco anos. Mas ele insistiu que esforços estão sendo feitos e que o número de homicídios relacionados ao crime organizado estão mostrando sinais de diminuição. "Você tem que dar mais tempo ao processo para medir a sua eficiência", disse ele.

No shopping na Cidade do México, no distrito de luxo de Santa Fé, conhecido por seus edifícios financeiros e condomínios, os consumidores disseram estar preocupados, mas cada vez mais acostumados à violência.

"Estamos vivendo uma situação terrível", disse Jasia Grinberg, 65, que administra um salão de cabeleireiro no shopping. “Enquanto isso, vamos nos acostumando."

Por Randal C. Archibold

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