Guerra contra grupos humanitários marca conflitos em todo o mundo

Cinco anos atrás, por volta das 4h30 do dia 19 de agosto de 2003, em Bagdá, um homem-bomba em um caminhão de carga aberto estacionou diante do mal protegido escritório do principal diplomata das Nações Unidas, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, e detonou uma bomba do tamanho de um homem adulto. A bomba agiu com o complemento de granadas e morteiros, além de mais de mil quilos de explosivos. Sua potência era tanta que o abalo foi sentido na Zona Verde, de controle americano, que fica a mais de quatro quilômetros dali.

The New York Times |

Ainda que muitas autoridades das Nações Unidas tenham morrido instantaneamente, Vieira de Mello resistiu. Durante mais de três horas ele esteve preso sob os escombros do prédio de três andares, enquanto questionava a situação de seus colegas e reclamava de dores nas pernas. Apesar da gestão Bush não ter equipado as forças americanas para responder imediatamente aos ataques terroristas de grande escala ou alvos civis, diversos soldados arriscaram suas vidas heroicamente para salvá-lo, entrando no local sem proteção alguma.


Sérgio Vieira de Mello, brasileiro morto em atentado no Iraque / ONU

Mas sem os equipamentos necessários, eles tiveram que usar simplesmente suas mãos e capacetes para isso, juntamente com um sistema de elevação criado com a bolsa de palha de uma mulher e a corda obtida de uma cortina de escritório. Vieira de Mello morreu, bem como 21 outras pessoas de 11 países. Entre os mortos estavam especialistas na solução de conflitos, de ajuda humanitária e desenvolvimento. Mais de 150 pessoas ficaram gravemente feridas. Os sobreviventes do ataque e colegas atingidos pelo incidente afirmam que a data é o "11 de Setembro" das Nações Unidas.

Assim como nós americanos tentamos entender nossa tragédia, as autoridades das Nações Unidas, trabalhadores não-governamentais e líderes mundiais tentaram aprender as lições do dia 19 de agosto. Mas cinco anos depois (e menos de uma semana depois do Taleban matar três educadoras e um motorista do Comitê de Resgate Internacional no Afeganistão) os indivíduos que realizam ajuda humanitária vital ou trabalhos de desenvolvimento para as Nações Unidas e organizações não-governamentais nunca estiveram em tanto risco.

O ataque de Bagdá deixou claro que as Nações Unidas e os grupos humanitários saíram dos anos 1990, onde suas bandeiras já não ofereciam proteção, para uma fase em que sua afiliação faz deles alvos para a Al-Qaeda e outros extremistas violentos.

A Al-Qaeda e outros grupos disseram que as Nações Unidas são um alvo prioritário. Em novembro de 2001, Osama Bin Laden declarou: "Sob nenhuma circunstância qualquer muçulmano deve recorrer às Nações Unidas. As Nações Unidas não são nada além de uma ferramenta de crime". No ano passado, a Al-Qaeda denunciou especificamente as agências humanitárias das Nações Unidas como "inimigos diretos que buscam mudar o tecido da sociedade muçulmana".

As autoridades das Nações Unidas receberam recentemente ameaças no Afeganistão, Argélia, Iraque, Líbano, Somália e Sudão. Em dezembro, um ataque suicida da Al-Qaeda na Argélia matou 17 trabalhadores das Nações Unidas e feriu outros 40. Os relatos pós-ataque soavam impotentes: "A ONU está sofreando ameaças extremistas. A ameaça pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento. Não há capacidade para se prever ataques à ONU".

A equipe política de Vieira de Mello chegou ao Iraque em 2003 para acelerar o final da ocupação americana, mas isso significou pouco para um homem conhecido como Abu Omar Al-Kurdi, que ajudou a Al-Qaeda a planejar o ataque. "Muitos países islâmicos passaram por injustiças e muitas ocupações de tropas estrangeiras carregando bandeiras da ONU", ele disse subseqüentemente, se referindo ao Conselho de Segurança da ONU.

Essa lógica afirma que os 140 mil funcionários civis desarmados do órgão, que realizam trabalhos humanitários, de desenvolvimento e direitos humanos são responsáveis pelas ações ou não ações do Conselho de Segurança (sobre as quais têm pouca influência).

A morte de trabalhadores humanitários no Afeganistão na semana passada mostrou como os grupos humanitários estão sendo tratados como os governos ocidentais e forças militares. Ao clamar responsabilidade pelo ataque, o Taleban publicou uma declaração na internet em que diz que culpou as três mulheres ocidentais pela morte de 50 civis numa festa de casamento como resultado de uma ação da Otan.


Sede da ONU parcialmente destruída após ataque no Iraque / ONU

Trabalho de risco

Autoridades das Nações unidas e trabalhadores humanitários que optam por trabalhar em zonas de conflito se colocam à disposição do banditismo, crime e violência. Mas os ataques, seqüestros e mortes dessas pessoas duplicou nos últimos cinco anos (precisamente quando a ajuda humanitária, de reconstrução e desenvolvimento se tornaram mais necessárias do que nunca no Afeganistão e Iraque).
Então o que os governos, as Nações Unidas e as organizações humanitárias devem fazer para ajudar essas pessoas a oferecerem assistência em circunstâncias perigosas?

Primeiro, em alguns lugares onde a autoridade local não é capaz de impedir que a Al-Qaeda e outras facções extremistas operem, as Nações Unidas e outros órgãos podem não ter outra opção além de reduzir sua presença física. A gestão Bush não buscou aprovação do Conselho de Segurança antes da guerra no Iraque, então os governos europeus e o Secretário Geral Kofi Annan quiseram enviar Vieira de Mello e a equipe "A" das Nações Unidas a Bagdá parcialmente para lembrar o mundo da relevância da organização.

Depois do ataque do dia 19 de agosto, as Nações Unidas e organizações de ajuda humanitária precisam de motivos mais tangíveis e urgentes para colocar civis desarmados em lugares perigosos do mundo. Geralmente os grupos humanitários realizam trabalhos essenciais para salvar vidas, mas eles cedem demais às pressões dos governos locais, que querem demonstrar que seus países são seguros para o investimento estrangeiro e de doadores, que por sua vez nem sempre têm causas que merecem mérito.

Como resultado disso, muitas agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais começaram a "nacionalizar" seu campo de operações no exterior e enviar os ocidentais para casa. Mais de 75% do pessoal das Nações Unidas em todo o mundo é composto por nacionais e quando do ataque da semana passada ao Comitê de Resgate Internacional, apenas 10 membros da equipe de 600 mantida pela organização no Afeganistão eram afegãos.

Ainda que essa seja uma tendência positiva, 80% dos civis das Nações Unidas mortos nos últimos 15 anos eram nacionais. Sua segurança precisa gerar o mesmo debate urgente sobre as mudanças na segurança como a de seus colegas internacionais.

Segundo, os 192 países que compõem as Nações Unidas precisam gastar mais dinheiro para garantir a segurança das missões. Antes do ataque em Bagdá há cinco anos, Estados membros resistiam muito em investir na segurança das Nações Unidas.

Alguns acreditavam que a ameaça do terrorismo não passava de uma idéia criada pelo presidente George W. Bush, enquanto outros acreditavam que ninguém ousaria alvejar as Nações Unidas. O relatório sobre o ataque da Al-Qaeda na Argélia no ano passado mostrou que muitas das limitações financeiras e problemas gerenciais que prejudicaram a missão em Bagdá há cinco anos ainda existem e isso é alarmante.

A tragédia na Argélia fez com que o secretário-geral de segurança, David Veness (especialista em contraterrorismo da Scotland Yard contratado especialmente por causa do ataque do dia 19 de agosto) renunciasse ao cargo. Mas um indivíduo não consegue fazer com que governos gastem mais dinheiro e capital político na segurança de algo que parece tão distante deles. A Assembléia Geral precisa votar para que a segurança de missões de campo seja paga através de parcelas regularmente acessadas e não por contribuições voluntárias.

Finalmente, ainda que muitas redes terroristas internacionais não possam ser detidas, seus planos de ataque podem ser impedidos quando organizações internacionais trabalham em cooperação com governos locais. Geralmente a segurança de grupos humanitários desarmados é determinada pela postura de proteção a militantes, o compartilhamento de informações ou a proteção de prédios adotada pelo país onde se encontram.

Quando um país ignora a solicitação de assistência de alto nível em relação à segurança, como a Argélia no ano passado, as Nações Unidas devem estar preparadas para suspender seu programa ou mesmo retirar sua equipe do local. Em Estados incertos, onde o governo local tem apenas controle parcial de seu território, esse país ainda tem o dever de compartilhar suas informações e deixar claro o que não sabe. Quando as forças de segurança internacionais da ONU forem enviadas, os governos mundiais precisam contribuir com tropas, equipamentos e inteligência necessários para realizar seu serviço.

Não podemos voltar a um mundo pré-19 de agosto como não podemos voltar para o que existia antes do 11/9. A bandeira azul da ONU ou a cruz vermelha já não são suficientes para garantir a segurança de grupos humanitários em uma era de terrorismo. Mas cinco anos depois do 19 de agosto nós devemos àqueles que morreram (e àqueles salvos pelos ações humanitárias) uma ação muito maior para proteger os protetores.

Por SAMANTHA POWER , professora da Escola Governamental Kennedy na Universidade Harvard e autora do livro "Chasing the Flame: Sergio Vieira de Mello and the Fight to Save the World"

Leia mais sobre Sérgio Vieira de Mello - Nações Unidas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG