Grupos trabalhistas procuram um acordo sobre imigração

As duas maiores federações trabalhistas do país concordaram pela primeira vez em unir forças para buscar uma revisão geral do sistema de imigração, disseram líderes de ambas as organizações nesta segunda-feira.

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John Sweeney apresentará a posição acordada pelos grupos trabalhistas

O acordo poderia fornecer ao presidente Barack Obama um apoio significativo dos sindicatos em um momento em que ele revisa o assunto em plena recessão.

John Sweeney, presidente da AFL-CIO, e Joe T. Hansen, líder da federação rival Change to Win (Mudar para vencer, em tradução livre), irão apresentar um esboço da nova posição dos grupos nesta terça-feira, em Washington. Em 2007, na última vez em que o Congresso considerou uma legislação de imigração mais abrangente, os dois grupos não conseguiram concordar sobre uma abordagem em comum. A legislação foi um fracasso.

O acordo endossa a legalização do status de imigrantes ilegais que já estão nos Estados Unidos e se opõe a qualquer novo grande programa para empregadores trazerem trabalhadores imigrantes temporários, disseram oficiais de ambas as federações.

O movimento trabalhista trabalhará unido para garantir que a Casa Branca, assim como o Congresso, entenda que nós falamos sobre a reforma da imigração em uma só voz, disse Sweeney em uma declaração ao The New York Times.

Divergências

Mas enquanto o acordo repara uma fissura na coalizão que favorece uma legislação mais ampla da imigração, ela também parece abrir outro problema. Um oficial da Câmara do Comércio dos Estados Unidos disse nesta segunda-feira que a comunidade empresarial permanece comprometida a um programa significativo de trabalhadores estrangeiros.

Se os sindicatos pensam que vão conseguir impulsionar o projeto sem o apoio da comunidade empresarial, eles estão loucos, disse Randel Johnson, vice-presidente de trabalho, imigração e benefícios dos funcionários da Câmara. Será apenas um tiro na reforma da imigração. Como parte do acordo para a legalização, precisamos expandir o programa de trabalhadores temporários.

A posição trabalhista dos grupos também não é razoável para convencer os oponentes de que a revisão da imigração não iria prejudicar trabalhadores americanos.

Oficiais da administração de Obama disseram na semana passada que o presidente pretende, ainda neste ano, pressionar o Congresso para promover um acordo sobre a imigração, que incluiria uma forma para legalizar o status dos imigrantes ilegais do país, estimados em 12 milhões. Os oponentes criticaram a abordagem dizendo ser uma anistia para infratores da lei.

Na nossa crise econômica atual, os americanos não podem se permitir perder mais empregos para trabalhadores ilegais, disse o deputado Steve King, republicano de Iowa, que preside o subcomitê de imigração da Câmara Judiciária. Trabalhadores americanos dependem do presidente Obama para proteger seus empregos daqueles que estão ilegalmente no país.

Desacordos do passado

As duas federações trabalhistas concordaram no passado em propostas que dariam status legal aos imigrantes ilegais. Mas em 2007, a AFL-CIO se separou do serviço de trabalhadores e diversas outros sindicatos, quando não apoiou a legislação desenvolvida pela administração Bush, porque continha provisões para um programa de expansão para trabalhadores estrangeiros.

No novo acordo, a AFL-CIO e a Change to Win pediram um controle dos trabalhadores imigrantes futuros, por meio de uma comissão nacional. Esta iria determinar como muitos trabalhadores estrangeiros permanentes e temporários seriam admitidos a cada ano, com base na demanda do mercado de trabalho americano. Oficiais da sindicato estão confiantes de que o resultado seria reduzir o número de trabalhadores imigrantes durante épocas de alto índice de desemprego como no momento atual.

Hansen, presidente do Sindicato de Trabalhadores de Comércio e Alimentos, disse em uma entrevista que a proposta em comum foi a construção de um bloco para seguir adiante com uma reforma de imigração na agenda do Congresso, ainda neste ano.

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Joe Hansen busca uma reforma na situação dos trabalhadores imigrantes

Oposição

Centenas de trabalhadores rurais imigrantes e outros operários com baixo salário vêm para os Estados Unidos por meio de programas sazonais de trabalhadores estrangeiros. Eles são submetidos a limites numéricos em seu visto e são chamados pelos empregadores de limitados e ineficientes.

Muitos sindicatos se opõem aos programas porque os imigrantes estão presos a um empregador e não podem mudar de emprego, não importa o quão abusivas sejam suas condições, por isso oficiais do sindicato dizem que as medidas reduzem as condições dos trabalhadores americanos. Engenheiros de tecnologia estrangeiros altamente qualificados e especialistas médicos também entram no país com vistos temporários.

Advogados dos imigrantes disseram que um movimento trabalhista unificado poderia reforçar substancialmente sua posição para impulsionar a reestruturação do problemático sistema de imigração.

Isso mostra o quão importante o tema é para os representantes dos trabalhadores americanos, disse Frank Sharry, diretor executivo do Americas Voice, um grupo de advocacia.

Proteção aos trabalhadores

Oficiais da AFL-CIO disseram que concordam com os líderes do Change to Win de que legalizar o status dos sete milhões de imigrantes não autorizados que trabalham por todo o país seria a forma mais eficiente de proteger os padrões de trabalho de todos os trabalhadores.

Nós desenvolvemos uma estratégia de união com a abordagem construída a partir dos direitos dos trabalhadores, disse Ana Avendano, advogada geral associada da AFL-CIO.

Líderes trabalhistas disseram que conversariam com outros grupos nas próximas semanas para fechar os detalhes de uma posição comum, e que, então, iriam trabalhar com o Congresso e com a administração de Obama para tentar garantir que a proposta seja parte de qualquer projeto a ser discutido.

Propostas

Eliseo Medina, vice-presidente executivo do Sindicato Internacional de Trabalhadores de Serviços, um braço da Change to Win que tem centenas de membros que são imigrantes, também apoia o acordo. A federação Change to Win foi formada em 2005 com sete sindicatos após se desligar da AFL-CIO.

O plano da comissão trabalhista de monitorar e controlar o nível de trabalhadores imigrantes foi desenvolvido com a ajuda de Ray Marshall, que foi secretário trabalhista sob a presidência de Jimmy Carter. Durante o ano passado, Marshall, a pedido da AFL-CIO, fez consultas com as duas federações, com uma variedade de organizações hispânicas e grupos de advogados para imigrantes.

Todos esses grupos entendem que uma das principais razões por terem tido perdas anteriormente, foi por não estarem unidos, disse Marshall.

De acordo com uma lista de princípios que os líderes trabalhistas apresentarão nesta terça-feira, eles irão propor uma comissão despolitizada e independente que poderá estimar as necessidades do mercado de trabalho em uma base avançada e ¿ baseada em uma metodologia a ser aprovada pelo Congresso ¿ determinar o número de trabalhadores estrangeiros a serem admitidos por propósitos de trabalho.

Dúvidas e esperanças

Johnson, oficial da Câmara do Comércio, disse que a comissão não nos leva a isso.

Tamar Jacoby, presidente da ImmigrationWorks USA, grupo que organiza negócios para apoiar uma legislação de imigração mais abrangente, concordou que os trabalhadores teriam muitas dúvidas sobre a abordagem.

 A questão é: será que a comissão funcionará?, disse Jacoby. Será que ela estará adequadamente sintonizada e será ativada pelo mercado de trabalho?, acrescentou.

Um sistema que pode ¿ ou não ¿ suprir os trabalhadores que as empresas precisarão no futuro após a recessão será a causa da grande preocupação dos empregadores, declarou Jacoby.

Por JULIA PRESTON e STEVEN GREENHOUSE

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