Greves e protestos nem sempre são bem recebidos na índia

No país que conquistou independência com resistência pacífica, greve com fechamento de empresas e perturbações é mal vista

The New York Times |

Calcutá, a cidade caleidoscópica de 15 milhões de habitantes parou na terça-feira da semana passada. Vôos foram cancelados no aeroporto. As ruas, normalmente pulsantes com tráfego e gente, estavam quase vazias. E milhares de lojistas, como Wazeed Khan, fecharam seus estabelecimentos em cumprimento de um ritual familiar: a greve geral.

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Paralisação contra aumento de preços gerou caos no transporte de todo o país, no dia 7/9
A greve foi convocada pelos sindicatos para protestar contra a inflação e as privatizações, mas esse tipo de paralização se tornou tão frequente que as especificidades pouco importavam para Khan, que como muitos indianos passou a considerá-las como pouco mais do que um caro incômodo. "As greves nunca ajudam as pessoas", disse Khan. "Nunca. Estamos perdendo negócios. E isso acontece frequentemente. Em poucos meses acontece várias vezes".

Poucos direitos democráticos são mais queridos na Índia ou considerados mais essenciais, como uma válvula de alívio para as pressões sociais, do que o direito de protestar. A Índia conquistou sua independência da Grã-Bretanha sobre a força de campanhas de desobediência civil lideradas por Mahatma Gandhi e o país tem grande orgulho por este movimento de libertação pacífica ter criado a maior democracia do mundo.

Mas conforme a política da Índia se fragmenta, com uma grande proliferação de partidos políticos, a greve geral, conhecida como bandh, se tornou objeto de escárnio público e desilusão. Os partidos políticos, competindo em um campo politico lotado, muitas vezes usam bandhs para flexionar seus músculos ou esculpir terrenos, provando que podem parar uma cidade ou até mesmo todo o país.

Nenhum canto do país é poupado das greves. Grandes e pequenas, elas são realizadas ao longo de todo o espectro social da Índia, de rebeldes maoístas a pulverizadores de insetos em Nova Délhi. Em uma das mais prestigiadas universidades de Nova Délhi, os professores interrompem suas aulas durante semanas para protestar contra os planos de mudança do sistema.

Este mês, no Estado de Rajasthan, os médicos de hospitais públicos, irritados com um episódio com a polícia local, interromperam o tratamento de pacientes. Eles cancelaram a greve na semana passada depois de críticas nacionais e das mortes de alguns pacientes.

Mas são os partidos políticos que podem paralisar uma grande cidade, ou mesmo toda a nação. A Suprema Corte da Índia emitiu sentenças contra as bandhs e, em certos casos, multou alguns partidos políticos por sua realização. No entanto, as bandhs vão continuar. Os críticos não questionam que a Índia precisa conter os protestos e que tal passo parece improvável, dada a posição central da liberdade de expressão e de oposição na democracia da Índia.

A Índia tem o seu próprio glossário das greves: há a greve sentada (às vezes, uma greve de fome), conhecida como dharna; a marcha de protesto, ou pradarshan virodh; o bloqueio de um gabinete de governo ou escritório político, conhecido como gherao; e muitas outras. Mas as bandhs, que exigem o fechamento de empresas, escritórios governamentais e o boicote público ao trabalho, causam mais perturbações e parecem ter perdido o apoio da maioria do público.

*Por Jim Yardley

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