Grafiteiro de NY ainda pinta paredes, mas deixa de ser 'fora da lei'

Antes na ilegalidade e com histórico criminal, Steve Powers ganha prestigiosa bolsa de estudos da Instituição Fullbright

The New York Times |

O amor pelo grafite deu a Steve Powers reconhecimento nas ruas, fama no mundo da arte e um longo histórico criminal, além de uma bolsa de estudos da Instituição Fulbright.

Embora a sua assinatura, ESPO, ainda possa ser vista por toda a cidade de Nova York, Powers, 40, parou de pintar ilegalmente. Ele hoje trabalha em seu estúdio em Lower Manhattan, já expôs suas obras em uma galeria no SoHo, publicou livros de arte, participou da Bienal de Veneza e teve sua primeira exposição integral no outono passado em um museu na Academia das Belas Artes da Pensilvânia.

Powers voltou esta semana para Nova York depois de passar quase seis meses na Irlanda fazendo um curso. Sua ideia era criar arte pública com a ajuda de adolescentes que moravam em conjuntos habitacionais em Dublin e Belfast.

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Público vê instalação de Steve Powers em Coney Island, Nova York (14/08/2008)

No final do complicado processo de seleção, ele foi um dos 800 premiados entre os 2 mil candidatos que ganharam bolsas Fulbright. Os prêmios normalmente são concedidos para estudiosos e profissionais que pretendem ir ao exterior para continuar seus estudos e dar aulas em áreas acadêmicas e especializadas. Trinta e sete vencedores das bolsas Fulbright também ganharam prêmios Nobel.

"Fiquei chocado", disse Powers", que falava da Irlanda em uma entrevista realizada por telefone. "Não achava que conseguiria uma bolsa, mas quando consegui admito que fiquei bastante feliz.” Apesar de um concorrente para uma bolsa Fulbright normalmente precisar ter um doutorado, Powers, que abandonou a escola de artes, foi uma exceção por causa de sua contribuição ao mundo das artes.

"A Fulbright investe em pessoas talentosas", disse Thomas A. Farrell, vice-secretário assistente do setor de programas acadêmicos do Departamento de Estado dos EUA, que administra o programa. "O trabalho é o que conta."

Depois de se mudar da Filadélfia para Nova York em 1994, Powers ficou famoso por pintar as letras de sua assinatura em plena luz do dia nas proteções de alumínio de lojas fechadas. Seu trabalho fez com que um pelotão da polícia contra o vandalismo invadisse seu apartamento em 1999. Ele recebeu seis acusações criminais em Manhattan e no Brooklyn por vandalismo, mas aceitou um acordo judicial que o obrigou a fazer cinco dias de serviço comunitário.

Durante uma entrevista em março em seu estúdio, Powers explicou sua decisão de parar de pintar ilegalmente: "Queria encontrar uma maneira de crescer criativamente fora da ilegalidade."

Suas pinturas em alumínio agora valem o cerca de US$ 20 mil e ele também já publicou vários livros, incluindo um que conta a história de grafite, chamado "The Art of Getting Over".

"Steve é um indivíduo que está sempre se reinventando", disse Jeffrey Deitch, dono da Deitch Projects, a galeria que o representa. "Ele não é o tipo de artista que espera ser convidado para fazer uma exposição. Ele faz com que as coisas aconteçam por seu próprio esforço."

Na Irlanda, que é conhecida por ter grande afinidade com as palavras e por seu humor negro, as laterais de casas abandonadas e muitos becos sombrios de estacionamentos hoje mostram imagens e frases irônicas de Powers, que ele descreve como um tipo de história de amor. Em uma das imagens, um cigarro e um isqueiro se encontram abaixo de um texto escrito em rosa choque que diz: "Apenas esperando por você."

Outras de suas obras são uma versão estilizada que diz "qualquer lugar pode ser o paraíso, desde que esteja com você" escrito em cima do desenho de dois pombos em um prédio abandonado. Outra obra, intitulada "Feliz Dia das Mães”, tem cerca de 24 metros de diâmetro e se encontra numa parede onde também se lê: "o bebê está chorando, o dinheiro do aluguel foi gasto, o carro foi rebocado, o controle remoto desapareceu, não tem água quente, a geladeira está vazia, mas eu pedi comida, por favor volte para casa."

Inspirado pelos murais com brutas mensagens políticas da Irlanda do Norte, Powers também trabalhou na região de Shankill, em Belfast, o estopim para grande parte da violência que dilacerou a Irlanda do Norte e onde as paredes servem como um memorial para combatentes mortos e pistoleiros que usavam máscaras de ski. "Tenho me inspirado nas mensagens dos murais, que são incrivelmente poderosas de uma maneira negativa, e tenho tentado utilizar o seu poder para expressar algo de maneira positiva”, disse Powers.

Com a permissão dos proprietários locais, Powers produziu murais em larga escala com a ajuda de adolescentes, alguns dos quais eram também artistas de grafite que ficaram honrados em aprender com o homem que é considerado uma lenda. "É muito positivo que eu possa servir como exemplo para eles", disse Powers.

Sean Bryan, 21, um artista de grafite de Dublin conhecido como KONK, trabalhou com Powers em diversas obras. "Não posso mais pintar ilegalmente", disse Bryan, que está enfrentando acusações judiciais por causa do grafite. "Poder presenciar pessoas de alto escalão reconhecerem o seu material, ao invés de acabar com ele, é brilhante."

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Powers estava em Dublin em um sábado recente trabalhando em um de seus últimos grafites antes de voltar para casa. Conforme as horas passavam, um fluxo constante de transeuntes parava para vê-lo pintar lentamente contornos de giz em uma parede de concreto de 45 metros de comprimento. Tinta branca, laranja e preta formavam as pernas de um homem e uma mulher que se localizavam no centro do mural, rodeados por um Titanic afundando com a seguinte legenda "não desista de nós, bebê", escrita dentro de uma nuvem acompanhada de algemas e um quebra-cabeça na forma de um coração.

"Realmente gosto dele", disse Laura Burke, 23, uma estudante de artes na Escola Nacional de Arte e Design em Dublin. "Normalmente o grafite não passa de um nome aleatório escrito em uma parede, mas quando é ESPO existe uma filosofia por trás."

Enquanto Powers se preparava para voltar para casa, ele refletia sobre o contraste de sua vida: ele iniciou sua carreira artística praticamente como um bandido e agora estava pintando na Irlanda sob os auspícios de uma organização elitista.

"Para mim é muito interessante revisitar a minha forma de expressão e fazê-la de uma maneira diferente", disse ele. "A única razão pela qual comecei a grafitar era porque queria contar histórias."

Por Niko Koppel

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