Grafite toma muros de pequenas e grandes cidades dos EUA

Além de cidades da Califórnia como Los Angeles, onda recente está florescendo em regiões distintas, como Alabama e Novo México

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Manchas frescas de grafite decoram placas de sinalização perto do mar. Tags têm aparecido nas grades ao longo das trilhas de terra perto do Parque Griffith, do outro lado de Santa Monica, na Califórnia.

Quase diariamente, há retoques frescos nas paredes do Vale de San Fernando, em prédios do centro de Los Angeles e em outdoors ao longo das rodovias.

E Los Angeles parece não estar sozinha ao lidar com uma recente onda de grafite, que tem transformado alguns lugares improváveis. A nova safra de rabiscos está florescendo em muitas comunidades de tamanho modesto de todo o país - em locais como Florence, no Alabama; Reserve, no Novo México; Taylors, na Carolina do Sul, e em grandes cidades como Nashville, no Tennessee, e Portland, em Oregon - enquanto grandes cidades como Chicago, Denver, Nova York e Seattle dizem que campanhas de vigilância antigrafite têm poupado seus muros.

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Muro é coberto por grafites em Los Angeles, na Califórnia
"Tudo isso apareceu, de repente, nos últimos seis meses", disse Tim Sandrell, proprietário do Safari Adventures in Hair, de Florence. "Eu tenho o salão aqui há 10 anos e estou realmente desapontado que nós estamos vendo esse tipo de atividade agora. Temos uma bela cidade histórica, e é muito perturbador para mim ver isso acontecendo".

A onda de grafite gerou preocupação entre as autoridades da cidade e reabriu um debate sobre a glorificação da prática - seja em peças de museu, tatuagens ou anúncios de televisão - ter contribuído para o retorno do que consideram uma praga urbana e um sinal de decadência econômica. Mas ela também gerou um debate sobre o que tem causando esse aumento recente e se ele pode ser um indicador precoce de que a ansiedade e a alienação estão crescendo em algumas áreas urbanas lutando por causa do desemprego teimoso e persistente trazido pela recessão.

Estatísticas

As últimas estatísticas de Los Angeles, onde a taxa de desemprego era de 11%, atestam um problema crescente: a cidade teve removidos 3.288 metros quadrados de grafite no ano fiscal que terminou 30 de junho, um aumento de 8,2% em relação ao ano passado, segundo as autoridades. "Nós vimos a quantidade de pichações subir anualmente", disse Paul Racs, diretor do Escritório de Embelezamento da Comunidade.

Tim Francis, supervisor da Blue Ridge Parkway na Carolina do Norte, disse que houve um grande aumento na marcação de placas sinalizadores nos parques, passagens subterrâneas e avenidas. A polícia florestal criou um grupo de vigilância, mas o comprimento da rodovia - que se estende de Boone a Cherokee - e a furtividade dos grafiteiros torna sua captura muito difícil.

"Estamos vendo a marcação em qualquer lugar e em todos os lugares", disse ele. "É verão e os jovens estão fora da escola. Mãos ociosas”.

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Placas também são alvo de grafiteiros em cidades como Los Angeles
No condado de Bernalillo, Novo México, que inclui Albuquerque, queixas por causa do grafite subiram de 84 em abril para 300 em junho. "E continua a subir, pouco a pouco", disse Bobby Velasco, supervisor do condado. "Até agora, nós cobrimos mais este ano do que fizemos no ano passado”.

Um centro de reciclagem de metais é o alvo favorito, ele disse. "Nós o limpamos todas as semanas, e toda semana eles sempre voltam e escrevem ‘Bem-vindos a LA’", disse ele.

Em Portland, as autoridades afirmaram que os pichadores de outras comunidades têm desfigurado a sua propriedade. "Estamos prendendo mais pessoas de fora da cidade", disse Marcia Dennis, coordenadora do projeto de redução de grafite da cidade. "Para cada um que limpamos, outro toma o seu lugar. Para cada dois que prendemos, outros três tomam o seu lugar”.

Orçamento

O aumento acontece no momento em que comunidades como Los Angeles, que lutam com cortes no orçamento, cortaram programas de combate ao grafite. O orçamento de US$ 7,1 milhões para a erradicação de grafite no ano passado foi cortado em 6,5% no orçamento que entrou em vigor no dia 1º de julho. Mas cidades como Santa Monica não sofreram cortes e ainda tiveram um aumento, sugerindo que outros fatores estão em jogo.

Alguns oficiais dizem que é um sintoma de recesso de verão, uma economia resistente que tem deixado muitos adolescentes desempregados e com uma sensação geral de ansiedade e mal-estar. "As pessoas sabem que os policiais não estão por perto ou que estão trabalhando em outras coisas", disse Bobby Shriver, membro do Conselho da Cidade de Santa Monica.

Os líderes de bairro e agentes da lei também culpou o que eles descrevem como uma glamorização do grafite, refletida em uma exposição no Hotel Sunset Marquis, em West Hollywood que abriu esta semana.

"É por causa da cultura pop", disse Ramona Findley, detetive da polícia de Los Angeles que comanda a força tarefa contra grafite do departamento. "É muito interessante ver que com a queda no crime violento, o crime leve aumenta. O mundo da arte aceitou isso. As pessoas fazem dinheiro com pichações em camisetas. Eu estava no Walmart na Páscoa e vi ovos de Páscoa com grafite”.

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Muros de Los Angeles são tomados por grafiteiros na Califórnia
O aumento gerou novos esforços para combatê-lo, incluindo uma sofisticada base de dados de reconhecimento de grafite em Los Angeles e uma reinstituição de patrulhas a pé no bairro de Brooklyn, em Portland.

"Teremos quatro ou cinco pessoas uma vez por semana andando pelo bairro com um kit de limpeza de grafite", disse Michael O'Connor, chefe do Corpo de Ação do Brooklyn. "Nós vimos alguns de pichadores novos na vizinhança. Seria bom pegá-los no ato”.

O aumento gerou preocupação entre autoridades públicas que já temiam que os cortes orçamentários ameaçariam os esforços de erradicação. "As cidades já não têm os orçamentos que tinham para a limpeza", disse William J. Bratton, que serviu como comissário de polícia em Nova York e Los Angeles. "As forças policiais não têm os recursos que tinham”.

*Por Adam Nagourney

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