Grafite intrigante se transforma em símbolo e vira febre nos EUA

Misteriosas cabras vermelhas se tornaram queridinhas do momento em lugares distintos, como Missouri, Michigan e Miami Beach

The New York Times |

As cabras vermelhas de Kingston apareceram do nada. Certo dia, as esquisitas cercas brancas que cercam o distrito amanheceram coloridas com 37 grafites de cabras vermelhas. Elas apareceram misteriosamente em outubro, como fantasmas de cabras vindas de outro mundo.

Depois, elas se espalharam. Graças a uma página no Facebook, as cabras se tornaram o grafite queridinho do momento em lugares distantes do Vale Hudson - no Brooklyn, Missouri, Michigan e Canadá, e até na exposição Art Basel, em Miami Beach.

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Cabra vermelha pintada com spray na ponte Williamsburg em Nova York
Não está claro o que as cabras vermelhas significam. Aliás, não está claro se elas significam alguma coisa. Mas certamente elas servem como uma lição objetiva da atual velocidade com que as imagens podem se espalhar pelo mundo digital e quão rápido elas podem significar tantas coisas diferentes mesmo que tenham surgido sem significado algum.

As cabras, feitas a partir de um estêncil de um clip art de domínio público, surgiram entre os dias 24 e 26 de outubro em 11 cercas instaladas na região metropolitana de Kingston. As cercas fazem parte de um controverso projeto de renovação de uma cidade que há décadas tenta se reinventar aproveitando de sua história, arquitetura e a originalidade de seus artistas.

A iniciativa mais recente tem sido a renovação do distrito fortificado, uma área de oito quarteirões onde originalmente se baseava a comunidade holandesa. O projeto de renovação, chamado Pike Plan, inclui a reforma de um pavilhão dilapidado e a remoção de árvores para o plantio.

Debate

Muitos moradores e empreendedores criticam o custo de US$ 1,8 milhão do projeto. Alguns consideram o novo design opressivo. Assim, quando as cabras vermelhas apareceram, os cidadãos se dividiram em duas principais reações. Uns viram arte. Outros viram vandalismo.

“Eu voto pelas cabras”, uma pessoa escreveu no site do jornal local, o The Daily Freeman. O comentário foi direcionado aos líderes da cidade. ”Desistam de sua atitude controladora. Aceitem ajuda externa, façam uma competição criativa, motivem as pessoas. Isso não é um problema, é uma oportunidade. Aproveitem! Ocupem Wall Street...com cabras.”

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Mas os políticos da cidade não ficaram nada satisfeitos. Alguns tomaram imediatamente as críticas ao Pike Plan como condenáveis, e a polícia foi enviada para investigar a aparição dos animais. “Eu gostaria de convidar as pessoas que se opõem ao Pike Plan a se expor. Grafitar é errado“, disse Alderman Thomas Hoffay na época. “Isso é zombar da comunidade dos moradores de Kingston“. Posteriormente ele comparou o grafite a gangues locais. Para ele, todos são 'farinha do mesmo saco', cabras, Bloods e Crips (gangues rivais da Califórnia).

Mas para Ed Butler, que gerencia uma loja de discos usados que já foi uma galeria de arte, a polícia está mais interessada nas cabras do que nos grafites de gangues na cidade. Outros dizem que a superfície branca das cercas eram praticamente um convite. “Quando eu vi as cercas branquinhas meu primeiro pensamento foi: 'Eles bem que poderiam colocar umas latas de tinta à disposição'”, disse Eric Francis Coppolino, artista local, jornalista e astrólogo. “Já dava para ter uma ideia do que ia acontecer.“

Prisão

Quando dois suspeitos foram presos em novembro, eles não estavam politicamente envolvidos nas críticas ao Pike Plan. Tratava-se de dois jovens artistas, Geddes Paulsen, 23 anos, tatuador, e Maggie Salesman, 26 anos. Cada um deles foi acusado de dano criminal de terceiro grau, um delito grave, e contravenção, em razão dos grafites. Somados os tempos para punição de cada delito, eles podem pegar até quatro anos de cadeia. No entanto, nenhum deles foi indiciado e penas severas são pouco prováveis.

Paulsen e Salesmen não quiseram ser entrevistados, mas pessoas ligadas a eles disseram que as cabras eram apenas arte, e não um protesto político. Assim que a chama do assunto apagou, muitas pessoas começaram a gostar das cabras como imagem e como metáfora – não asseadas, independentes, amigáveis, determinadas, um dos animais de celeiro que mais se parecem com o homem, com qualidades que pessoas dóceis se esforçariam para ter.

Na página do Facebook existem links para temas relacionados e também bem distantes - como agricultura urbana, sustentabilidade, zangões predadores e pirataria na internet.

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Tatuagem em homenagem à cabra vermelha em Rich Reeve, em Kingston
Raudiel Sanudo, artista de Bakerfield, Califórnia, que participou de uma exposição na Oo Galeria em Kingston, de propriedade de Kevin, pai de Paulsen, produziu 500 adesivos de cabras vermelhas. Para ele, as cabras significam liberdade. “As cabras escalam qualquer lugar, não importando quão difícil a situação seja para sua sobrevivência. Elas se adaptam, estão sempre em evolução“.

Em solidariedade, Monica Snell, uma gerente de propriedades de Wellington, Flórida, baixou as imagens de cabras do Facebook e fez o estêncil nas portas de sua casa. “Toda cidade tem algo sem noção. Os políticos dessa cidade são tontos“.

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É claro que em uma cidade com tanto grafite ao redor, com pessoas tendo de virar a noite para limpá-los a gastos que chegam a cinco mil dólares por limpeza, muitos não são apreciadores das cabras.

Para Diane Reeder, fundadora de uma ONG que serve sopa a sem-tetos, a Queen Gallery, quem quer que seja que tenha pintado as cabras cometeu um ato de vandalismo, algo “ilegal e errado“. Apesar disso, ela admitiu que as cabras conseguiram unir as pessoas, dizendo algo profundo sem se dar conta. “Essas pessoas conseguiram criar tanta união através de algo ilegal, por que não usar esse mesmo tipo de energia para beneficiar nossa comunidade, com coisas que são legais?”, questionou.

Isso ainda é possível. Uma comissão que considera o que fazer com o dilema das cercas brancas e cabras pintadas se encontra antes do julgamento de Paulsen e Salesman.

As cabras tornaram-se tão famosas que existe a possibilidade delas retornarem às cercas e outros lugares da cidade. Shayne Gallo, prefeito de Kingston eleito em novembro, disse que as cabras têm sido boas para a imagem da cidade e que ele está disposto a vê-las voltando às cercas ou ter outro símbolo que as substituam. Ele diz ainda que considera adequada a execução de serviços comunitários como punição aos artistas.

O Kingston Times, jornal semanal local, trouxe um editorial pedindo que a cidade abrace sua cabra interior. “A cabra vermelha é um grande símbolo: simples, notável, provocativo, fácil de ser lembrado e de ser associado com uma teimosia desafiadora. Pessoas recebem rios de dinheiro para criar algo assim e Kingston recebeu isso de graça.”

*Por Peer Applebome, com contribuição de Sari Botton

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