Governo saudita se apressa em reprimir movimento por direitos das mulheres

Detenção de Manal al-Sharif, que violou proibição de dirigir, reflete preocupação das autoridades perante campanhas inspiradas em levantes árabes

The New York Times |

O governo da Arábia Saudita agiu rapidamente para extinguir um movimento de protesto que nasceu entre as mulheres que reivindicam o direito de dirigir no país, uma campanha inspirada nos levantes que exigem novas liberdades em todo o mundo árabe.

Manal al-Sharif, 32 anos, uma das organizadoras da campanha, foi detida no domingo na cidade oriental de Dammam sob a acusação de perturbar a ordem pública e incitar a opinião pública ao dirigir duas vezes em uma tentativa de pressionar a sua causa, disse seu advogado Adnan al-Saleh.

Al-Sharif foi presa depois de dirigir e divulgar o fato na semana passada em campanhas no Facebook e Twitter, que ela ajudou a organizar para incentivar as mulheres na Arábia Saudita a participar de um protesto coletivo programado para o dia 17 de junho.

AP
Na Arábia Saudita, mulheres são proibidas de dirigir, votar ou trabalhar sem autorização do marido (foto de arquivo)
As campanhas, que atraíram milhares de adeptos – mais de 12 mil pessoas na página do Facebook – foram bloqueadas no reino. A prisão de Al-Sharif foi muito provavelmente destinada a fazer com que as outras mulheres pensem duas vezes antes de participar de protestos em um país onde a reputação pública de uma mulher, incluindo sua capacidade de se casar, pode ser danificada por uma prisão.

"Normalmente, eles apenas fazem você assinar um papel dizendo que não fará aquilo novamente", disse Wajiha Howeidar, que gravou Al-Sharif enquanto ela dirigia na quinta-feira. "Eles não querem que ninguém pense que pode fazer isso e não sofrer consequências. É uma mensagem clara de que não podemos organizar nada no Facebook. É por isso que ela está na prisão".

A revolta que derrubou o presidente egípcio, Hosni Mubarak, e outros esforços semelhantes no Oriente Médio ganharam impulso crucial na internet.

Regras

A Arábia Saudita é o único país que proíbe as mulheres de dirigir. Mas o tema continua sendo um assunto altamente controverso no reino, onde as mulheres também não são autorizados a votar, ou mesmo a trabalhar sem a autorização de seus maridos ou pais. Para os puritanos religiosos, a proibição das mulheres dirigirem é um sinal de que o governo permanece firme em face a ataques dos ocidentais contra as tradições da Arábia Saudita. Uma charge política aqui chegou a retratar chaves de um carro ligadas a uma granada de mão.

Mesmo antes da prisão, o debate online, na televisão e nas ruas estava envolto em ataques entre partidários e opositores. Um argumento favorável à mudança é que as mulheres conduziam burros na época no Alcorão, com um clérigo de televisão observando nos últimos dias que conduzir um burro é realmente mais difícil do que conduzir um veículo. Os defensores acreditam que as mudanças radicais no mundo árabe fazem deste o momento certo para as mulheres tomarem a iniciativa.

Uma petição online dirigida ao rei Abdullah, pedindo-lhe para libertar Al-Sharif e conceder às mulheres o direito de conduzir reuniu assinaturas de mais de 600 homens e mulheres depois de ter sido organizada por Walid Abu al-Khair, um advogado saudita e defensor dos direitos humanos. Os sauditas são muito relutantes em fornecer seus nomes a ações políticas.

Oposição

Muitos adversários são puritanos religiosos que se opõem à ideia das mulheres serem expostas a desconhecidos fora de suas casas ao dirigir. A proibição está mais enraizada nas fatwas religiosas, decretos não vinculantes emitidos pelos clérigos.

No novo campo de batalha online, clérigos conservadores têm criado suas próprias contas no Twitter para pedir que a polícia religiosa se mantenha vigilante contra a perspectiva de mulheres motoristas.

Algumas mulheres também se opõem, porque disseram que a condução é uma conquista difícil e chamar atenção para ela provavelmente causará um retrocesso nos esforços para ganhar liberdades mais fundamentais como o voto ou acabar com a tutela legal que permite que os homens sauditas controlem praticamente todos os aspectos da vida das mulheres.

Mas Al-Sharif e outras mulheres decidiram sair às ruas em maio, para encorajar uma maior participação no protesto nacional. Os jornais sauditas foram tomados por artigos sobre o assunto nos últimos dias, detalhando uma onda de mulheres que dirigiram pelas ruas – publicando confissões de mulheres que levaram seus filhos à escola, um pai ao aeroporto ou a si próprias para fazer tarefas domésticas.

Um dos argumentos para permitir que as mulheres dirijam é o custo econômico. Há cerca de 800 mil motoristas estrangeiros no reino e o salário de cerca de US$ 350 mensais necessário é considerado um problema econômico para a classe média.

Perfil

Al-Sharif, uma especialista em tecnologia da informação na estatal petrolífera Aramco, tem a reputação de fazer cenas para destacar a falta de direitos das mulheres. Nos últimos anos, ela teria montado um burro em uma rua central de Riad, por exemplo, gerando tal tumulto que a polícia religiosa pediu que ela desmontasse.

Ela dirigiu no sábado, com seu irmão Mohamed al-Sharif, que foi detido inicialmente com ela pela polícia religiosa e, em seguida, liberado. A polícia voltou a sua casa após a meia noite para prendê-la novamente.

"Isso tudo é um erro", disse Al-Saleh, seu advogado, em entrevista por telefone de Dammam. "Não é nada considerado um grande crime na Arábia Saudita – não se trata de tráfico de drogas, homicídio ou estupro – é apenas uma mulher dirigindo um carro”.

*Por Neil Macfarquhar

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