Google enfrenta investigações antitruste e críticas de concorrentes

SÃO FRANCISCO ¿ O Google domina quase dois terços do mercado de busca da internet. Ele é dono do maior site de vídeo online, YouTube, que é 10 vezes mais popular do que seu rival mais próximo. E no ano passado, a empresa vendeu quase US$ 22 bilhões em publicidade, mais do que qualquer companhia de mídia no mundo.

The New York Times |

Com todas essas riquezas e mais, como o Google ainda é uma companhia relativamente pequena? Vulnerável à competição? E como sua sorte poderia mudar de uma hora para outra?

Dana Wagner fica feliz em explicar.

Wagner, que é consultor sênior de competitividade do Google, enfrenta uma tarefa difícil de convencer o mundo que seu empregador não é inatacável.

A competição está a um clique, diz Wagner. É parte de um discurso desbravado que ele tem oferecido no Vale do Silício, Nova York e Washington nos últimos meses, a repórteres, acadêmicos de direito, integrantes de equipes de congresso, grupos industriais e quem mais possa ter influência na opinião pública sobre o Google.

Estamos em uma indústria que está sujeita a distúrbios e não podemos contar com a vitória antes do tempo, acrescenta.

Nova medida

O Google começou a ter uma ofensiva área de relações públicas porque está no meio de um perigoso rito de passagem para poderosas companhias de tecnologia ¿ reguladores estão avaliando cada vez mais a empresa de perto, como já fizeram com a AT&T, IBM, Intel e Microsoft. Alguns analistas dizem que a oposição do governo, aqui e na Europa, pode ser a maior ameaça para a continuidade do sucesso da companhia.

O Departamento de Justiça sabotou uma importante parceria entre o Google e a Yahoo, em novembro, pela preocupação com que isso fortificasse o domínio do Google e reduzisse a competição.

Ele também enfrenta três novas investigações antitrustes do governo: o Departamento de Justiça está examinando práticas de demissão no Google e em outras companhias de tecnologia, e está investigando uma ação de classe de pagamento entre a empresa e grupos que representam autores e editoras. Além disso, a Comissão Federal de Comércio está procurando por ligações entre os quadros do Google e da Apple.

Nenhuma das investigações feitas se dirige ao centro de negócios de publicidade da companhia. E, diferente de qualquer gigante da tecnologia nos últimos anos, ela nunca foi acusada de táticas anticompetitivas. Mas as investigações, reclamações de concorrentes e críticas têm feito a empresa brigar para dissipar a noção de que há uma fechadura em seu mercado, mesmo com o constante aumento de participação na publicidade e busca online.

As pessoas não acreditam, especialmente quando reagem à ideia de que o Google é relativamente um participante pequeno em um mercado gigante. Eles descrevem onde estão no mercado sob uma forma de conto de fadas fantasiado que não reflete sua dominância em setores principais, disse Jeff Chester, diretor-executivo do Centro de Democracia Digital. A busca do Google é um elemento absolutamente imprescindível para todos os comerciantes no mundo.

A Microsoft se recusa a comentar sobre os esforços de seu arquirrival. Mas durante a apresentação de Wagner a jornalistas em São Francisco, neste mês, o pessoal de relações públicas da Microsoft, que aprendeu a essência da apresentação, mandava e-mails a jornalistas fornecendo incoerências nos argumentos do Google. Wagner teve de enfrentar uma barreira de questões.

Dificuldades

Manifestações de infelicidade com o poder do Google não são novas. Mas alguns especialistas dizem que a corrente contínua de manchetes sobre as investigações antitrustes podem manchar a imagem da empresa com os consumidores, que ainda veem a companhia, e sua crescente lista de serviços online inovadores e gratuitos, positivamente.

Nenhuma companhia, seja o Google, a Microsoft ou qualquer outra, quer ser vista de uma maneira negativa, disse David B. Yoffie, professor de Administração de Harvard. É absolutamente correto da parte do Google estar preocupado, preparado, paranoico e responder de acordo.

Kent Walker, consultor geral do Google, disse que a companhia já esperava que seu sucesso levasse a exames ainda mais detalhados de suas ações.

O objetivo é explicar nossos negócios, mais do que seduzir, disse. Achamos que temos uma grande história para contar.

A tarefa de contar essa história caiu, em parte, sobre as costas do jovem Wagner, de 33 anos, ex-advogado antitruste do Departamento de Justiça, que usa palavras como imbecil e bizarro junto a risadas forçadas em discussões de assuntos jurídicos e econômicos. Em contraste à Microsoft, há uma década, cujos executivos raramente escondiam o desdém por reguladores, Wagner fala de seus ex-colegas do Departamento de Justiça em tons diferenciados.

Eles definitivamente se importam em fazer o correto para os usuários e consumidores, disse. Minha companhia também se importa em fazer o certo para os usuários e consumidores.

Argumentos

O trabalho de Wagner não tem sido fácil. Os slides que ele usa em suas apresentações já circularam tempo suficiente para que o Consumer Watchdog (Cão de Guarda do Consumidor), grupo de advocacia que é um crítico do Google, postasse uma versão comentada dos slides que discute quase todas as afirmações da companhia.

Por exemplo, em um slide que cita sobre grupos de política pública elogiando o Google por suas práticas de proteção à privacidade do usuário, o grupo aponta para quatro outros grupos que fizeram críticas à empresa por coletar quantidades imensas de dados sobre os consumidores.

Obviamente, Wagner argumenta sobre a imagem do Google de ser um monopólio inabalável. A companhia alcançou sua posição de mercado ao oferecer produtos superiores e rapidamente poderia ser destronada se parasse de inovar, disse.

E, diferente de companhias que dominaram outras épocas da computação, a empresa torna fácil para seus consumidores trocá-la por produtos concorrentes.

No caso de Wagner, o argumento central é que o Google é um participante relativamente pequeno em um vasto mercado, nos quais os rivais não são apenas outras ferramentas de busca ou mesmo outros web sites. A empresa diz que está competindo por consumidores contra sites tão diversos quanto Amazon, WebMD e Wikipédia. E ele está competindo por anúncios de publicidade com a televisão, rádios, publicações impressas, bancos de ponto de ônibus e embalagens de leite.

Gregory R. Rosston, economista de Stanford, que ouviu os argumentos de Wagner, disse que outros que enfrentaram as desgraças do antitruste deram os mesmos argumentos, sem sucesso.

Quando grupos tentaram argumentar que a televisão, os jornais e outdoors são parte do mesmo mercado relevante de anúncios que o rádio, não funcionou com o Departamento de Justiça ou com os tribunais, disse Rosston. Isso mostra que a internet mudou as coisas e que esse argumento também pode surgir agora.

Novo governo

O momento para os conflitos do Google com o governo surpreendeu alguns analistas, porque a companhia e seus executivos são próximos da administração de Obama.

Eric E. Schmidt, chefe-executivo do Google, fez campanha para o presidente Barack Obama, aconselhou sobre sua equipe de transição e agora é presidente do conselho de consultores em ciência e tecnologia. Alguns ex-funcionários da empresa tomaram cargos influentes na administração.

Essas ligações não ajudaram a companhia com os reguladores, ao menos, não até agora. Mesmo assim, elas forneceram outra fonte de preocupação para os críticos do Google, que temem que a companhia ganhe influência exagerada em importantes áreas políticas como o regulamento de privacidade online.

Wagner diz que alguns concorrentes da companhia, como a Microsoft ou a AT&T, não são muito maiores do que o Google, mas também gastam muito mais do que ele com lobby.

Enquanto a indústria é volátil e competitiva, Wagner disse que fica gratificado pelo sucesso do Google.

Sabemos que há muitas pessoas fazendo buscas e ficamos orgulhosos disso, disse. Não estamos pedindo aprovação.

Por MIGUEL HELFT


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