Globalizada, capital do Catar sofre por falta de identidade

Doha abriga arranha-céus ambiciosos e atrações mundiais, mas habitantes não se sentem confortáveis ao andar por suas ruas

The New York Times |

Ao longo de um horizonte que parece tão ambicioso quanto efêmero, há um edifício batizado por sua concepção: o Tornado. O renomado arquiteto I. M. Pei construiu um museu em Doha, no Catar, em busca de capturar a essência da arquitetura islâmica. Outra torre, construída por outro famoso arquiteto, é revestida por um exoesqueleto e sugere um capacete saraceno.

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Homem caminha pela rua Al Corniche em Doha, Catar

"É uma imitação de uma cidade que poderia ter sido construída em qualquer lugar," afirma Issa al-Mohannadi, um engenheiro que foi convidado a criar algo diferente, pouco impressionado ao olhar pela janela. "O que você está vendo não deve ser o nosso futuro."

Doha é muitas coisas: um antigo remanso do Golfo Pérsico, que em determinado momento tinha um barco de pesca de pérolas para cada 350 habitantes, a capital de um país com gás natural suficiente para fazer desses mesmos habitantes os mais ricos do mundo hoje e a sede de um emir determinado a colocar seu país no mapa com uma política externa ousada e o poder da Al-Jazeera, o canal de televisão por satélite. Ela é também uma cidade em busca de uma identidade, que ainda se sente como as disformes dunas de areia intercaladas entre arranha-céus de cúpulas de geometrias improváveis.

O debate, claro, não é novo. Todas as cidades do Golfo Pérsico têm em graus variados enfrentado a inevitável disputa entre tradição e modernidade à medida que petróleo e gás criaram o que um oficial local chamou de "a Terra em Marte". Mas em nenhum lugar o debate é tão acentuado, impulsionado por tantos bilhões de dólares, confuso com tantas visões e pontuado por tantas críticas quanto em Doha, uma cidade de certa forma acidental.

Aqui está o que ela oferece: um festival de cinema, a Copa do Mundo de 2022, um novo aeroporto, um sistema de metrô e um café Beanery com menu em inglês, árabe, coreano e japonês. Aqui está o que falta: um tecido urbano, em um lugar onde os cidadãos são uma pequena minoria e legiões de trabalhadores estrangeiros trabalham em condições sombrias. No crescente debate local, que envolve a todos, da esposa do emir até um comediante solitário, a pergunta mais frequentemente feita é se essa sensação cosmopolita pode refletir a linha do horizonte e transcender o globalismo e mercantilismo sem raízes que por tanto tempo manteve-se como a compreensão do Golfo Pérsico sobre a modernidade.

Dubai, brilhante como uma miragem, nunca teve o dinheiro. A Arábia Saudita, com um conservadorismo nascido de um sentimento beduíno sobre os caprichos da vida, nunca teve a ambição. Doha agora tem os dois, e a determinação de fazer nascer em si uma capital do mundo. "Não há profundidade à essa visão", disse Salman Shaikh, diretor do Brookings Doha Center.

Abdul Aziz al-Mahmoud é uma raridade no Catar - um escritor cujo livro se tornou um best-seller, pelos padrões locais, desde que foi publicado no mês passado. Ambientado no século 19, o romance mergulha na luta entre as tribos do litoral britânico e do Golfo Pérsico. O livro levou três anos para ser escrito e, segundo ele, preenche uma lacuna nas percepções locais.

"A região não apareceu do nada por causa do petróleo", disse em entrevista. "Pessoas já viviam aqui, elas tinham seus problemas e suas felicidades. Nós não éramos apenas petróleo. O petróleo veio para mudar nossas vidas, mas as pessoas sempre estiveram aqui."

Testemunhos dessa história parecem um oásis em uma cidade de mais de 1 milhão de habitantes, que há apenas um século atrás não chegavam a 12 mil.

Suq Waqif é um deles. Antes um mercado labiríntico à beira-mar onde os locais comercializavam peixes e caprinos, foi abandonado e desmoronou. Cinco anos atrás, o mercado foi reconstruído com fidelidade de detalhes. Coberturas de madeira exposta e paredes caiadas parecem desgastadas e antigas, mesmo que não sejam. Vendendo de tudo, desde sandálias do Bob Esponja até espadas cerimoniais sírias, as lojas são como o país: de propriedade dos locais, mas gerido por sul-asiáticos.

Mahmoud disse que costuma levar amigos do exterior ao mercado para ver uma representação da essência de uma cultura passada, mas ele normalmente não visita o suq. "Estamos falando sobre um sentido de pertencimento", disse Mahmoud. "Nós vamos lá esporadicamente. Ali não é onde socializamos e interagimos, não."

A cidade tem cerca de 225 mil habitantes locais dentre uma população de 1,8 milhão, e a interação entre eles e o resto parece tão morta quanto as milhares de gramados de plástico que enfeitam as avenidas na Cidade Educação. Mahmoud descreve a relação como uma "inimizade escondida", na qual os locais não se sentem confortáveis no Museu Islâmico ou na mais recente obra de Jean Nouvel, mas sim em um majlis, um dos tradicionais bares segregados que funcionam como um dispositivo elétrico da vida social.

"São como comunidades fragmentadas e divididas", disse ele. "Eles não falam uns com os outros. De alguma forma temos que projetar um caldeirão para fazer com que todos se sintam em casa".

Mohammed Kamal tem lidado com dificuldade com essa questão de uma cidade sofisticada. Imbuído de uma seriedade que desmente sua autodeclarada definição como o comediante solitário do Catar, ele acredita que o humor pode criar "abertura e confiança" na cultura local. Confiança, ele sugere, é o fundamento do cosmopolitismo.

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Casal observa horizonte de Doha, no Catar

"Eu quero que na nossa cultura, rir de si mesmo seja algo possível", disse: "É melhor rir de nós mesmos do que esperar que alguém de fora faça as piadas e ria da gente."

Sua tarefa não é fácil. A polícia disse a ele que sexo, religião e política estão fora dos limites. "E do que se trata a stand-up comedy?", ele questionou. Uma mulher local ameaçou atirar seu sapato contra ele quando ele mencionou uma mulher mimada do Catar trabalhando como comissária de bordo. Às vezes, sua ousadia vai longe demais, como quando ele repreendeu os homens do Catar por ameaçarem revogar os vistos dos estrangeiros sempre que existe uma discordância. Mas ele conseguiu realizar um show de comédia em fevereiro e chamou 1,2 mil de pessoas - catarianos na frente, estrangeiros atrás.

Nem mesmo Dubai, uma cidade construída sobre o sucesso do marketing de uma imagem, é tão auto-consciente quanto Doha. Cartazes dizem: "Redescubra a essência da nossa comunidade", perto de uma aldeia cultural chamada Katara, com escritórios escassamente povoados pela Sociedade de Belas Artes do Catar, pela Sociedade Fotográfica do Catar, pela Academia de Música do Catar e pelo Instituto de Cinema de Doha. Os ônibus têm anúncios que dizem: "Do Catar para um mundo mais verde" - isso em uma cidade construída sobre a exploração de um dos maiores campos de gás do mundo. Museus competem com qualquer outro no mundo e sua Cidade Educação atraiu filiais de seis universidades dos Estados Unidos.

"Acho que eles estão esperando que com o tempo tudo isso seja um grande componente dos locais ou da vida nacional", disse Seif Salmawy, diretor executivo da Bloomsbury, no Qatar, que pretende tornar o país uma força de publicações em inglês e árabe no Oriente Médio. "Do jeito que está, eu acho que tem pouco a ver com suas vidas reais."

Seu colega Andy Smart acrescentou: "É preciso centro da cidade para uma vida urbana."

Por Anthony Shadid

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