Girafa leva esperança a cidade golpeada pelo medo no México

Marcada por violência e crimes, Ciudad Juarez mantém alegria de crianças com animal símbolo em zoológico

The New York Times |

Alheia ao crime, do topo de seus 20 metros de altura, e resistente o suficiente para suportar grandes variações de temperatura, a girafa Modesto se tornou mais do que apenas outra esquisitice na região de shoppings e assassinatos de Ciudad Juarez. Ela se tornou uma grande atração para pessoas que tentam escapar do medo e da vida difícil causada pela violência.

"Precisamos de lugares pacíficos", disse Eduardo Ponce, 44 anos, professora primária cujo filho de 2 anos de idade estava extasiado por Modesto em uma tarde recente. "Eu tento pensar positivo".

Isso parece um pouco mais comum atualmente. Vários parques em Ciudad Juarez têm voltado a atrair multidões, dizem os moradores, por causa de um desejo que muitas vezes surge após vários anos de guerra ou crime, de sair e abandonar as trincheiras acreditando que as coisas estão melhores.

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Crianças vão ao Parque Central de Ciudad Juarez para ver a girafa Modesto
Ainda não se sabe se essa esperança tem qualquer chance de ser verdade. Os assassinatos em Ciudad Juarez parecem ter diminuído em comparação com o ano passado, mas as últimas semanas têm sido particularmente sangrentas, com 21 pessoas mortas em um único dia neste mês. Ninguém aqui parece pensar que a luta contra a violência dos cartéis de drogas da cidade acabou. Muitos estão apenas cansados de deixá-la governar suas vidas.

Ponce, por exemplo, disse que muitas vezes trouxe seus filhos e seu sobrinho de El Paso para ver Modesto no Parque Central de Ciudad Juarez porque os seus sorrisos e risos oferecem um contraste com os rostos das crianças que ele ensina. Muitos deles viram seus pais serem mortos. "Elas têm medo o tempo todo", disse Ponce. "Quando há um barulho alto, mesmo que não seja nada, elas entram em pânico”.

Reduzir o trauma, é claro, não foi inicialmente a missão de Modesto. Ela veio para a cidade ainda filhote, em 2001, comprada do Novo México por oficiais da cidade, que esperavam ampliar o zoológico público.

"Eles queriam um animal que seria um símbolo da cidade e por alguma razão escolheram uma girafa", disse Mario DeLeon, o veterinário que cuidou de Modesto desde a chegada. "É um animal exótico e esse é um lugar onde você pode ter uma experiência exotica”.

Logo no início, o jardim zoológico teve dois leões também. Mas um deles morreu de uma doença neurológica, enquanto o outro morreu depois de prender sua cabeça entre galhos de uma árvore. Agora os únicos companheiros de Modesto são alguns avestruzes que correm ao longo da cerca quando os visitantes passam ao seu lado. DeLeon disse que por anos teve a esperança de encontrar uma companheira para a girafa. Ele inicialmente queria uma fêmea, mas como elas são mais caras ele decidiu comprar um macho, que custa entre US$ 60 mil e US$ 100 mil. Mas mesmo isso parecia demais. "A cidade tem outras prioridades", disse DeLeon.

Investimento

Oficiais do governo têm investido em outros lugares na cidade. O Villas del Salvarcar, um bairro que foi palco de um massacre de adolescentes locais no ano passado, tem agora um novo campus atlético, com quadras de futebol e basquete. Como parte de um ambicioso esforço de obras públicas apresentado neste mês, US$ 10,8 milhões em financiamento federal, estadual e municipal irá para a construção de um novo campo de beisebol.

Existem também planos para um grande evento em outubro para reformular a imagem de Ciudad Juarez, com concertos e seminários, juntamente com atividades para crianças no museu – recém-construído, mas ainda não inaugurado – a apenas algumas centenas de metros de Modesto. Autoridades locais e estaduais dizem que esperam efetivamente reapresentar a cidade, talvez mais conhecida como a mais violenta do México, de maneira mais positiva.

Para muitos moradores, no entanto, as mudanças mais visíveis podem ser sentidas nos parques já abertos, agora mais lotados e mais protegidos pela polícia e guardas de segurança. Pessoas como José Gomez, um treinador de boxe conhecido como Chato, que abriu uma academia para mulheres em março em um parque perto da fronteira, disse que sente um pouco mais de confiança na cidade. Ele disse ter mais de 100 alunas, de todas as idades, e que o número continua crescendo.

"Estamos tentando tirar as pessoas de casa", disse Gomez. "Minha esperança é produzir uma campeã do mundo."

Lá fora na grama, a alguns metros de distância, uma jovem esperava a sua vez de subir em um pneu velho e dar socos. Seu pai a deixou na academia e foi caminhar nas proximidades. Era quase noite, mas ele tinha como companhia dezenas de moradores da cidade. Vendedores de pipoca e doces ainda trabalhavam no parque. Adolescentes flertavam nas arquibancadas. Com exceção dos seguranças e policiais perto das entradas – ou talvez por causa deles – o parque parecia pertencer à cidade de Dallas.

No entanto, conforto e calma verdadeiros vão demorar um pouco mais de tempo. Foi preciso vontade, em vez de confiança, para tirar Max Ruelas-Rivera, 38 anos, de casa. Ele se sentou na beira da pista de corrida enquanto sua filha caminhava. Foi a primeira vez que ele se aventurou com ela em um longo tempo e ele ainda estava nervoso.

"Não está realmente mudando", Ruelas-Rivera disse. "A violência é a mesma de sempre”. O que mudou, segundo ele, foi sua filha, que precisava sair.

*Por Damien Cave

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