Geórgia quer adotar inglês como obrigatório no lugar do russo

Na luta pelo fim da dominação cultural russa, governo georgiano adota iniciativas para expandir ensino da língua inglesa

The New York Times |

A nova professora que chegou recentemente à Escola 161 mal conseguia falar uma palavra do idioma georgiano, sabia pouco sobre os costumes locais e se perdia facilmente pelas pequenas ruas da capital montanhosa de Tbilisi. Mas ela estava na vanguarda de uma das iniciativas mais notáveis de ensino – se não de experiência social – que está sendo implementada na antiga União Soviética.

Quando a professora, Deborah Cruz, entrou na sala de aula cheia de adolescentes, eles ficaram extasiados. Diante deles estava uma estranha que os ajudaria a entrar em contato com o resto do mundo, um verbo irregular por vez.

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Estudante participante de aula de inglês em escola de Tbilisi, na Geórgia
Cruz, de Seattle, faz parte de uma brigada de nativos da língua inglesa recrutados pelo governo da Geórgia para promover uma revolução linguística. O objetivo é fazer com que a Geórgia se torne um país onde o inglês é tão comum quanto na Suécia – e no processo suplante o russo como a segunda língua do país.

"O que estamos fazendo é algo realmente inovador", disse Cruz, 58 anos, depois de liderar sua classe em um exercício de preencher lacunas em frases escritas na lousa. Um de seus alunos, Tekla Iordanishvili, 15 anos, acrescentou: "O inglês é a língua internacional e nós precisamos dele”.

O governo já atraiu 1 mil nativos da língua inglesa para a Geórgia e, em setembro, espera ter mais 500 na ativa para que cada escola do país tenha pelo menos um. No programa, que lembra tanto o Corpo da Paz quanto o projeto Ensine a América, os professores moram com famílias georgianas sem pagar aluguel e recebem um salário de cerca de US$ 275 por mês.

Inclinação

A iniciativa de incorporar esses estrangeiros na Geórgia reflete as ambições de seu presidente, de inclinação ocidental, Mikheil Saakashvili, que fala Inglês e estudou Direito na Universidade de Columbia. Desde que assumiu o cargo, após uma rebelião em 2003, Saakashvili trabalhou para tirar a Geórgia da órbita de Moscou e mover o país para mais perto dos Estados Unidos – um esforço tão determinado que foi importante na guerra de 2008 entre a Geórgia e a Rússia.

Durante a era soviética, os comunistas usaram a língua russa para conectar as regiões distantes do país, exigindo-a como a segunda ou mesmo primeira língua da Estônia ao Uzbequistão. Mas desde o colapso da União Soviética, há duas décadas, muitas das antigas repúblicas soviéticas têm recuperado suas próprias línguas e marginalizado o russo, a fim de reforçar a sua independência e identidade nacional.

O Kremlin é altamente sensível à situação do russo, encarando-a como uma espécie de barômetro da sua influência. A reviravolta é gritante na Geórgia, cujos laços culturais com a Rússia remontam a séculos. Muitos georgianos de mais de 40 anos falam russo, enquanto os jovens que cresceram sob a influência de Saakashvili são mais interessados no inglês. O governo tem a intenção de acelerar essa tendência.

Dimitri Shashkini, ministro da Educação e Ciência, disse em uma entrevista que a Geórgia, que tem 4,6 milhões de habitantes, poderia prosperar economicamente apenas através de uma melhoria significativa do seu sistema de educação. Garantir que toda criança saiba inglês é uma parte importante desse objetivo, disse ele. "A Geórgia não tem gás natural ou petróleo", disse Shashkini. "O recurso que temos é o nosso potencial intelectual humano. Então, precisamos usar esse potencial tanto quanto possível”.

Shashkini disse que o governo não irá acabar com as aulas de russo, mas sim torná-las opcionais, como o francês ou o alemão. Em geral, o inglês agora é obrigatório. Ele ressaltou que os professores dos Estados Unidos, Canadá e outros países de língua inglesa também atuam como embaixadores culturais em uma sociedade que ainda é muitas vezes confrontada com os costumes da era soviética. Os professores não apenas instruem os alunos e auxiliam professores de inglês, mas também iniciam clubes de inglês e interagem com os pais.

Iniciativas

O governo da Geórgia estudou iniciativas em prol do idioma inglês em outros lugares, inclusive na Coreia do Sul, e está trabalhando com uma empresa, a Footprints Recruitings, de Vancouver, British Columbia, que se especializa em encontrar nativos para esses programas ao redor do mundo.

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Deborah Cruz ensina inglês a estudantes nem Tbilisi, capital da Geórgia
Ainda assim, a iniciativa da Geórgia gerou reclamações entre aqueles que falam russo no país, principalmente os da velha guarda, que afirmam que qualquer que seja a orientação política do país, ele não pode escapar da sua geografia ou história.

Ainda assim, muitos dos professores de inglês disseram se alegrar com a resposta inicial aos seus esforços. "Dizer que as crianças estavam muito animadas em me conhecer é uma subestimação simplista", Meg Bell, 23 anos, de Dallas, escreveu em um email. "Outros professores colegas meus tiveram experiências semelhantes ao entrar pela primeira vez em suas escolas. Uma atmosfera de histeria tomou conta da escola por cerca de uma semana. As crianças queriam que eu autografasse seus braços".

Mas alguns expressaram frustração com o sistema educacional da Geórgia, que continua a ser um país relativamente pobre. Como em grande parte do mundo em desenvolvimento, os professores de inglês locais algumas vezes não falam inglês competentemente. As crianças são instruídas a memorizar listas de palavras e participam de pouca ou nenhuma conversa. Os adolescentes que estudaram inglês por muitos anos não conseguem proferir uma sentença.

Alguns dos novos professores, posicionados em escolas em aldeias, com salas de aula decrépitas e poucos livros didáticos, questionam a ênfase do governo georgiano no inglês. "É como comprar uma máquina de café, antes de construir uma cozinha", disse James Norton, 23 anos, de Boulder, Colorado

Obstáculos

"Existem tantos obstáculos que impedem esse grupo de professores estrangeiros de fazer o seu trabalho de forma eficaz", disse Norton por email. "Muitas vezes me pergunto se o governo não deveria se concentrar primeiro em mudanças básicas – a compra de livros para todos os alunos, a formação de professores em técnicas modernas (ao contrário da doutrina de tradução e memorização, que é atualmente desenfreada), melhorar o salário dos professores da Geórgia, melhores as métricas de responsabilidade, etc". Ele ressaltou que, apesar de suas dúvidas, estava satisfeito com o seu tempo na Geórgia, que não se arrepende, e que acredita que está enriquecendo seus alunos. Outros concordaram.

Cruz, que trabalhou no outono em uma escola em Batumi, no Mar Negro, lembrou que quando começou, as crianças pareciam entediadas. Seus professores de inglês anteriores nunca haviam conversado com os alunos. "No momento em que eu saí, eles estavam falando inglês em sala de aula e os professores pareciam animados porque viram uma transformação", disse Cruz ."Por isso, acredito que o meu trabalho irá continuar quando eu não estiver mais aqui. Para mim, isso é mais importante do que qualquer coisa. Não é algo temporário".

*Por Clifford J. Levy

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