Genes humanos mudam o som produzido por ratos

As pessoas sempre tiveram um desejo profundo em se comunicar com animais, como fica evidente na forma como tentam conversar com cachorros, adoraram mitos sobre falar com animais ou possuem uma devoção eterna em ensinar chimpanzés a falar. Um delicado, senão pequeno, passo foi dado em direção a algo real: a criação de um rato com o gene da fala humana.

The New York Times |

As pessoas sempre tiveram um desejo profundo em se comunicar com animais, como fica evidente na forma como tentam conversar com cachorros, adoram mitos sobre falar com animais ou possuem uma devoção eterna em ensinar chimpanzés a falar. Um delicado, senão pequeno, passo foi dado em direção a algo real: a criação de um rato com o gene da fala humana.

O gene, FOXP2, foi identificado em 1998 como a causa da falha sutil na fala de uma grande família de Londres, cuja metade dos membros têm dificuldades com articulação e gramática. Todas com a deficiência herdaram uma versão incompleta do gene de um dos pais. O FOXP2 rapidamente atraiu a atenção dos biólogos evolucionários, porque outros animais também possuem o gene, e a versão humana se difere, significativamente, em sua sequência de DNA das dos ratos e chimpanzés. Por isso, espera-se que esse gene formado pela seleção natural tenha um papel importante na linguagem.

Pesquisadores do Instituto de Antropologia Evolucionária Max Planck em Leipzig, na Alemanha, desenvolveu geneticamente uma descendência de rato cujo gene FOXP2 foi trocado por um gene da versão humana. Svante Paabo, em cujo laboratório o rato foi desenvolvido, prometeu há diversos anos que quando o projeto estivesse completo "falaremos com os ratos".

Ele não prometeu que o rato falaria qualquer coisa em resposta, duvidosamente porque grande parte dos genes deve ter passado por mudanças revolucionárias para então dar às pessoas a faculdade da linguagem, e o novo rato ganhou apenas um deles. Então, talvez seja surpreendente que o controle humano sobre o FOXP2, de fato, mude os sons que o rato usa para se comunicar com outro rato, assim como outros aspectos do funcionamento de seu cérebro.

Esse é o resultado do relatório do caso atual na publicação "Cell", de Wolfgang Enard, instituto também de Leipzig, uma grande equipe de pesquisadores alemães que estudaram 300 características do rato humanizado. O FOXP2, um gene cuja proteína produz trocas com outros genes, é importante durante o desenvolvimento do embrião e tem um papel importante na construção de muitos tecidos, incluindo os pulmões, o estômago e o cérebro. O gene é tão vital que o rato, no qual ambas as cópias do gene são defeituosas, morreu após poucas semanas.

Apesar de o corpo dos mamíferos depender de apenas dois genes FOXP2 para funcionar corretamente, a equipe de Enard descobriu que a versão humana do gene parecia substituir perfeitamente a versão do rato em todos os tecidos do animal, exceto no cérebro.

Em uma região do cérebro chamada núcleos da base, conhecida por ter envolvimento com a linguagem, o rato modificado desenvolveu células nervosas que tinham estruturas mais complexas. Os filhotes de rato soltaram assobios ultrasônicos quando foram tirados de suas mães.

Quanto isolados, eles soltaram assobios que eram levemente mais altos, dentre outras diferenças, disse Enard. Ele argumenta que colocar genes humanos significativos em um rato é apenas uma forma possível de explorar as diferenças essenciais entre as pessoas e os chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos.

Há cerca de 20 milhões de DNA diferentes entre os genomas humanos e dos chimpanzés, mas a maioria não tem diferenças físicas. Para entender quais mudanças no DNA são importantes, os genes devem ser colocados em outras espécies. Não há uma boa forma de desenvolver geneticamente os chimpanzés, mesmo que fosse eticamente aceitável, então o rato é a escolha para o teste, na visão de Enard.

Dr. Joseph Buxbaum, um especialista na base molecular de doenças psiquiátricas no Centro Médico do Monte Sinais, disse que a equipe de Enard tinha dado um bom passo em direção ao entendimento do papel da FOXP2 no desenvolvimento do cérebro. "A descoberta mais surpreendente, e causa de grande otimismo, foi que o gene parece ter grande efeito nos caminhos do desenvolvimento dos nervos do rato", disse.

Dr. Gary Marcus, que estuda a aquisição da linguagem na Universidade de Nova York, disse que o estudo mostrou um monte de pequenos efeitos do FOXP2 humano, que se encaixam na visão de que o gene tem um papel vital na linguagem, provavelmente com muitos outros genes a serem descobertos. "As pessoas deveriam pensar nisso como um gene da linguagem, mas uma parte de uma ampla graduação de genes", disse. "Seria realmente espetacular se eles tivessem conseguido falar com o rato".



Por NICHOLAS WADE


Leia mais sobre DNA

    Leia tudo sobre: dna

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG