Gelo Livre

A camada de gelo da Groenlândia representa uma das mais perturbadoras ameaças do aquecimento global. As vastas extensões das geleiras ¿ concentradas, em média, a 2,5 quilômetros de profundidade -- contém água o suficiente para elevar os níveis por todo o mundo em até 7 metros. Caso elas derretam ou, de outra forma, deslizem para dentro do oceano, inundariam capitais costeiras, submergiriam ilhas tropicais e, em geral, redesenhariam o atlas mundial. A introdução de água fresca poderia retardar ou paralisar as correntes dos oceanos, mergulhando a Europa num amargo inverno.

The New York Times |

Ainda assim, para os moradores da ilha congelada, os estágios iniciais da mudança do clima prometem mais bem, pelo menos num sentido importante, que mal. Um protetorado dinamarquês desde 1721, a Groenlândia há muito almeja cortar os laços com seu colonizador. Mas enquanto defensores da independência completa enfrentam pouca oposição em casa, ou em Copenhagen, eles não têm sido capazes de superar um cálculo crucial: o país depende da assistência da Dinamarca para mais de 40 por cento de seu produto interno bruto.  "O desejo de independência sempre esteve lá", diz Aleqa Hammond, ministro das finanças e dos negócios externos da Groenlândia. "A razão pela qual nós nunca a concretizamos é a economia".

A mudança climática tem o poder de alterar fronteiras e sacudir a geopolítica, normalmente para pior. Em junho, a pequena nação de Kiribati do Pacífico Sul anunciou que o aumento do nível do mar estava tornando suas terras inabitáveis e pediram ajuda para evacuar sua população. Bangladesh, ao nível do mar, abarrotada e desesperadamente empobrecida, está também observando as ondas; um aumento de um metro inundaria 1/7 de seu território. Mas enquanto a maioria do mundo apenas vê o risco nas ilhas, com as águas do degelo, o movimento de independência da Groenlândia tem explicitamente ligado a sua sorte ao aquecimento global.

A cobertura de gelo da ilha já começou a desaparecer.  "As mudanças no oceano comem a camada de gelo por baixo" diz Sarah Das especialista em geleiras do Instituto Oceanográfico de Massachusetts Woods Hole. "Água mais quente faz as geleiras se partirem e derreterem mais depressa". Caçadores que usavam a superfície congelada do inverno oceânico para caçar e viajar encontraram-se ociosos quando a formação do gelo enfraqueceu. As baleias, focas e pássaros que eles caçavam começaram a mudar seus padrões migratórios.  "A cultura tradicional será duramente atingida" diz Jesper Madsen, diretor do departamento do meio ambiente Ártico da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. "Mas a partir de uma perspectiva abrangente, isso terá um efeito positivo." Os pescadores da Groenlândia estão aplaudindo o retorno do bacalhau de água quente. Lojas na capital da ilha de repente começaram a oferecer batatas e brócolis produzidos localmente ¿ culturas inimagináveis alguns anos antes.

Mas a promessa real repousa no que pode ser encontrado sob o gelo. Próximo da cidade de Uummannaq, mais ou menos a meio caminho acima da costa da Groenlândia, a retração de geleiras descobriu bolsas de chumbo e zinco.  Exploradores de ouro e diamante tem inundado o sul da ilha. A Alcoa está se preparando para construir uma grande fundição de alumínio. Os minerais da ilha estão se tornando mais acessíveis mesmo com os preços globais das commodities aumentando. E com mais de 80 por cento da terra normalmente coberta de gelo, a esperança é que a ilha apenas tenha começado a revelar suas riquezas.

Além da costa, onde o Oceano Ártico está rapidamente degelando, as expectativas são ainda maiores. A Geological Survey dos Estados Unidos estima que as águas do norte da Groenlândia poderiam conter 31 bilhões de barris de petróleo e gás não descobertos. No outro lado da ilha, as águas, separando-a do Canadá, poderiam produzir mais bilhões de barris. E enquanto a Groenlândia ainda é considerada uma fronteira de exploração de petróleo, Exxon Mobil, Chevron, Canada's Husky Energy e Cairn Energy e Sweden's PA Resources já estão aumentando a exploração.

Em novembro, o povo da Groenlândia votará num referendo que alavancaria o aquecimento global em um caminho para a independência. Os 56 mil residentes da ilha, predominantemente Inuit, têm desfrutado de governo local limitado desde 1978. Espera-se que o plano proposto de autogoverno, traçado em parceria com Copenhagen, seja esmagadoramente aprovado. Isso concederia a renda dos primeiros US$ 16 milhões de óleo e mineral ao governo local, com mais receitas a serem divididas equitativamente até a Dinamarca alcançar aproximadamente os US$ 680 milhões por ano que o povo da Groenlândia regularmente recebe da Dinamarca. Então não haveria obstáculos à soberania. "Quando nós alcançarmos o ponto onde não mais necessitaremos de subvenção, nós seremos capazes de dizer que somos economicamente independentes", Hammond diz. "Nada mais nos prenderá".

* Stephan Faris é autor de "Previsão: As conseqüências das alterações climáticas, desde o Amazonas ao Ártico, De Darfur para Napa Valley", a ser publicado em janeiro de 2009

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