Gaza é tema central em encontro da Liga Árabe sobre desenvolvimento

KUWAIT - Há dois anos e meio, um grupo de líderes árabes decidiu que o momento pedia que deixassem suas diferenças de lado e lidassem com o que as dificuldades enfrentadas por seus países: analfabetismo, desemprego, recursos sanitários insuficientes.

The New York Times |

Assim, eles marcaram uma cúpula na cidade do Kuwait para esta semana. O plano era que os 22 membros da Liga Árabe concordassem com melhorias concretas para a vida de seus 330 milhões de cidadãos. Ao invés disso, no entanto, eles discutiram como lidar com a crise em Gaza.

O conflito entre Israel e Palestina continua a ser um obstáculo para o desenvolvimento do Oriente Médio. Ele inflama emoções públicas, serve como conveniente distração para líderes incapazes ou indispostos a reformar suas nações e é uma ferramenta nas mãos daqueles que buscam promover sua posição regional, geralmente às custas dos palestinos.

"O conflito árabe-israelense reforça os puritanos, radicais, tradicionais e também os autoritários porque todos se apegam ao que têm e não há uma outra alternativa", disse Shafeeq Ghabra, professor de ciência política da Universidade do Kuwait. "Basicamente, esta é uma região que parou no tempo, no espaço, na história e em conflito".

Quando os presidentes, reis e emires chegaram ao Kuwait, eles deveriam ter discutido a cooperação regional para melhorar a educação, facilitar os negócios e as viagens, melhorar a segurança alimentar e elevar seus cidadãos de uma situação de pobreza extrema. Mas eles mal falavam uns com os outros por causa de diferenças na forma que lidaram com a ofensiva israelense em Gaza.

"Sim, a ocupação militar é um assunto sério com o qual precisamos lidar", disse Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe. "Mas o atraso em nossas sociedades também precisa de cuidados".

"O navio está afundando"

Havia uma sufocante sensação de desespero na cúpula conforme a situação em Gaza obscureceu as discussões.

"O navio árabe esta afundando", disse Moussa no primeiro dia de conferência. A necessidade de cooperação regional é perceptível nos números. O primeiro-ministro Fouad Siniora do Líbano disse que os Estados árabes precisariam criar 50 milhões de empregos nos próximos 20 anos para manter o desemprego no nível atual. Ele disse que as universidades árabes estão fechando e a pesquisa científica quase não existe.

Por qualquer medida, o mundo árabe esta cada vez mais atrás em sua capacidade de competir globalmente. Talvez o maior peso da região, que afeta ricos países do Golfo Pérsico tanto quanto países pobres como o Egito, seja a qualidade do ensino. Análises internacionais em matemática e ciências, por exemplo, entre estudantes do ensino fundamental, mostram que em matemática, entre estudantes da quarta série, os países nos últimos quatro (entre os 36 pesquisados) lugares são: Tunísia, Kuwait, Qatar e Iêmen. Em ciência, estudantes da oitava série no Qatar ficaram em penúltimo.

Desde os anos 1940, líderes árabes têm prometido a criação de uma união econômica similar à alcançada pelos europeus. Eles disseram repetidas vezes que os árabes deveriam investir em negócios primeiramente com árabes.

Eles continuaram a falar sobre isso esta semana.

No Kuwait, houveram reclamações de que a região não conseguiu coordenar o fornecimento de energia elétrica, sistema de transporte e regulamentação aduaneira. Mas a questão palestina consumiu de tal forma a reunião que não foi possível discutir tais questões.

Nós temos que ter consciência que a falta de uma solução árabe para a questão palestina significa a ausência de progresso, desenvolvimento, crescimento sustentável e acordos no mundo árabe", disse Siniora em uma conferência no Kuwait antes da cúpula.

Ainda que ninguém tenha argumentado que os Estados árabes devam deixar de lutar por um lar para os palestinos, os participantes da cúpula praticamente imploraram que os líderes deixassem suas diferenças políticas de lado para que as necessidades econômicas comuns fossem priorizadas. Muitos oradores na conferência disseram que o desenvolvimento econômico, social e humano só ajudará a posição da região em seu confronto com Israel, mas ninguém ofereceu alguma solução para suas diferenças.

A urgência na solução de questões de desenvolvimento foi ampliada pela crise econômica. Na abertura da cúpula, oficiais disseram que países árabes haviam perdido até o momento US$2,5 trilhões, e que 60% dos projetos de desenvolvimento na rica região petrolífera do golfo foram adiados ou cancelados.

Ninguém discorda que a solução da questão palestina voltaria a unir o mundo árabe. Mas enquanto isso não acontece, a questão continua a prejudicar agendas e expor hipocrisias.

"Nós escrevemos muitas vezes, 'Se o Hezbollah ama os palestinos de tal forma que quer lutar contra Israel, por que não podem lutar para dar aos palestinos direitos humanos no Líbano?'", questionou Mohammad al-Rumaihi, editor de jornal no Kuwait. Mas a pressão da questão permanece incansável.

"As massas", ele disse, "seu coração está com os palestinos"...

Por MICHAEL SLACKMAN

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