Gaza aguarda flexibilização do bloqueio israelense com cautela

População de enclave palestino espera para ver na prática o fim do embargo imposto por Israel

The New York Times |

A praia estava repleta de crianças e seus pais, e parecia que toda a vizinhança tinha saído para chutar uma bola, empinar pipas ou simplesmente sentar na areia, observando o pôr-do-sol sobre o mar Mediterrâneo.

© AP
Palestinos seguram velas durante protesto contra o bloqueio (21/06)

Assim, Muhammad Ali decidiu que esse era o momento perfeito para abrir um negócio próprio e tentar vender milho na praia.

Desde que o bloqueio israelense à Faixa de Gaza começou há três anos ele não foi capaz de encontrar um trabalho estável, contou. Então, na segunda-feira ele empilhou espigas de milho recém-colhidas na parte traseira de uma carroça, pegou uma panela de metal e com seu filho de oito anos de idade, Mahmoud, seguiu para a praia.

Questionado se estava mais esperançoso depois que Israel anunciou no domingo que iria aliviar o bloqueio, Ali deu de ombros e sorriu. "Estamos esperando para ver se acontece", disse.

Essa foi a resposta obtida em comunidades ao longo da região sul e central da Faixa de Gaza na segunda-feira, um dia depois que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou que Israel iria expandir significativamente o fluxo de mercadorias por via terrestre à Gaza, um pobre enclave costeiro palestino.

Depois de anos e anos de crise, ocupação, conflito interno palestino, a guerra com Israel e um bloqueio de três anos, as pessoas aqui expressaram satisfação a respeito de sua própria sabedoria e cansaço a respeito de tudo isso.

As prateleiras estavam cheias na segunda-feira em Rafah, Deir Al Balah e Cidade de Gaza, as lojas abastecidas com todos os tipos de suprimentos, fogões, geladeiras, ventiladores, geradores - a maioria contrabandeada através dos túneis escavados sob a fronteira com o Egito.

Se o bloqueio for flexibilizado, muitas pessoas disseram, e se mais mercadorias atravessarem a fronteira, sua vida ficará melhor, mas principalmente nas margens.

Já há pequenos sinais de que as coisas estão mudando.

Hommus, repolho e salada de beterraba foram importados pela fronteira e apareceram em mercearias locais. Frutas em conserva só recentemente começaram a chegar.

"Sim, sim, vai ser melhor, as mercadorias serão limpas, não como aquelas dos túneis", disse Muhammad Al Aidi, balconista de uma pequena loja de alimentos em Rafah, enquanto segurava uma lata de Coca-Cola Zero coberta de areia.

Toda lata de refrigerante e suco na sua loja estava coberta de areia.

Mas as pessoas não estão esperando pelas latas sem areia. O que elas querem, o que elas precisam e o que elas não sabem se irão receber de Israel caem em três categorias: materiais de construção para reconstruir casas destruídas durante a guerra causada pela invasão de Israel no final de 2008, em retaliação a disparos de foguetes do Hamas; liberdade de movimentação e a criação de empregos fora da Faixa de Gaza; e amplo acesso à matéria-prima, que permitiria a retomada da fabricação local e, com ela, empregos.

Por Michael Slackman

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