Futuro econômico da França atrapalha ano eleitoral

O recente rebaixamento da nota francesa, embora esperado, acrescenta desafios a Sarkozy em sua busca pela reeleição

The New York Times |

Hakim Benselama, 32, engenheiro industrial, quase conseguiu um novo emprego no outono de 2008, mas quando a crise econômica mundial atingiu a França, ele disse: "Eu recebi diversas ligações que diziam que os projetos para os quais eu havia sido entrevistado tinham sido cancelados." Ele está desempregado desde então.

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AP
Sarkozy concede entrevista coletiva em Pequim, na China (25/08)

Radmila Zakovic, 59, precisou reivindicar os beneficios de desemprego locais para ela e seus dois filhos, ambos desempregados. Ela tinha dito a eles que quando se formassem, iriam conseguir um emprego. "Eu sinto como se tivesse mentido para meus próprios filhos", disse.

Conforme o presidente francês, Nicolas Sarkozy contempla sua campanha para a reeleição , com o primeiro turno da votação a 100 dias de distância, ele tem que enfrentar uma economia fortemente atingida pela crise do euro e com uma taxa de crescimento quase zero.

A França acaba de perder seu índice de crédito AAA e tem que reduzir gastos do governo, em um momento em que a taxa de desemprego é de 9,9%, a mais alta em 12 anos, e continua crescendo.

A perda do índice AAA, embora esperada, abalou o status da França na Europa, fazendo com que a nação se pareça mais com um problema do que um país. O rebaixamento torna mais difícil que a França tenha o mesmo tipo de liderança que a Alemanha dentro da União Europeia, na qual a parceria franco-alemã sempre foi dominante.

Isso, por sua vez, irá tornar mais difícil para França, Itália e Espanha desafiarem a receita alemã de austeridade e pressionar para conseguir políticas mais liberais pró-crescimento do Banco Central Europeu.

O rebaixamento também foi um grande golpe político para Sarkozy e suas perspectivas na próxima eleição. As pesquisas mostram que as principais preocupações dos eleitores estão bem claras e são: o tamanho da dívida francesa, o custo de vida no país, o desemprego e a insegurança econômica em geral.

Os rivais de Sarkozy, de forma justa ou não, deixam poucas dúvidas a respeito de quem é o culpado pela situação. "É a política de Sarkozy que foi rebaixada e não a França", afirmou François Hollande, o candidato socialista que lidera segundo as pesquisas . A presidência de Sarkozy, com aumento da dívida e aumento do desemprego, tem sido um desastre, segundo Hollande, que deu poucos detalhes sobre seus próprios planos.

É difícil de enxergar como a França poderia se livrar de seu impasse econômico rapidamente. O país é a economia mais estadista da Europa e rejeita profundamente àquilo que os franceses chamam de uma economia anglo-saxã, compactuada entre o Reino Unido e os Estados Unidos, cuja abordagem laissez-faire eles consideram ser culpada pela crise financeira de 2008.

No entanto, com o mesmo atraso que outros países da Europa mediterrânea, embora em menor dimensão, a França está tendo dificuldades para competir com a maior economia da Europa, a da Alemanha, que é mais flexível, tem menos confrontos com os trabalhadores e uma base econômica mais solidamente construída sobre a indústria e as exportações.

Enquanto Sarkozy coloca a culpa dos problemas da França no choque financeiro global de 2008, o problema real, disse Nicolas Baverez, economista e historiador, "é o modelo econômico e social insustentável das últimas três décadas."

A França, como outros países europeus, se beneficiou de crédito barato que levou a uma sociedade onde quase dois terços do crescimento econômico dependeu do consumo, em parte financiado pelos benefícios públicos. Aqueles, por sua vez, foram financiados por uma dívida pública que aumentou o PIB de 20% em 1980 para 86% em 2011.

A principal crítica a Sarkozy é que embora ele tenha prometido "uma ruptura" com o passado para modernizar a economia fortemente dominada pelo Estado francês - a liberalização do sistema tributário, a elimicação da semana de trabalho de 35 horas, a redução da burocracia e a melhoria do poder de compra - ele tem feito pouca coisa contra a oposição política e sindicalista, com exceção a uma extensão da idade da aposentadoria. Os socialistas, caso ganhem, provavelmente não poderão ser muito corajosos - eles devem optar por alterar os cantos da política fiscal e social, mas não o seu núcleo.

Para Sarkozy e outros líderes europeus, a crise do euro e as dívidas pesadas foram o que levaram ele a ter criado uma espécie de prisão política. Normalmente, quando deparados com uma taxa elevada de desemprego e com a estagnação do crescimento, os líderes gastariam para estimular a economia, investindo em educação, infraestrutura e capacitação profissional. Em vez disso, pressionado pelos mercados e suas próprias promessas de limitar os déficits, Sarkozy teve de cortar os gastos do governo e aumentar os impostos no meio de um ano eleitoral.

Mas como o resto dos países da zona do euro, os esforços da França para consertar seus números foram "pouca coisa e tarde demais", disse François Heisbourg da Fundação para a Pesquisa Estratégica em Paris.

Politicamente, Sarkozy é obrigado a se apresentar como o responsável para lidar com a crise em comparação a Hollande, que ironicamente descreveu o apelo de Sarkozy aos eleitores desta maneira: "Sou um presidente que não conseguiu fazer muito coisa durante cinco anos de mandato, eu sou um cara desagradável, mas me reelejam, porque nestes tempos difíceis, eu sou o único que irá conseguir fazer o trabalho. "

Recentemente, Sarkozy sugeriu, em uma série de propostas - de criar um "VAT social", um aumento no imposto sobre o valor agregado sobre o consumo para reduzir a carga sobre as empresas de benefícios sociais, para incentivar a contratação. Ele quer permitir que as empresas tenham mais flexibilidade para negociar as horas de trabalho e de remuneração, e para consagrar uma exigência de um orçamento equilibrado na Constituição.

Mas por serem sugestões tardias, elas podem parecer mais como atos de desespero do que qualquer outra coisa, lembrando os eleitores de outras reformas que Sarkozy prometeu e nunca cumpriu.

Reuters
François Hollande, candidato do Partido Socialista, acena durante visita em Merignac, perto de Bordeaux (4/1/2012)

Mais importante, dizem os economistas, eles não lidam com os principais problemas econômicos da França, que são históricos e estruturais. Os gastos do atual governo representam cerca de 56,6% da economia francesa, em comparação com cerca de 46% na Alemanha e na Itália.

"A França é o homem doente da Europa", Baverez disse, acrescentando que o principal problema da França é a dominação do governo da economia, "a maior taxa do mundo desenvolvido." Existem cerca de 5,5 milhões de funcionários do Estado na França, 18 % mais do que em 2002, e cerca de 500 mil mais do que na Alemanha, um Estado federal com 82 milhões de habitantes, cerca de 26% maior que a França.

Enquanto Hollande, disse que os socialistas vão respeitar a austeridade, ele é considerado pouco provável de fazer muito para diminuir o Estado.

A França também está ficando para trás na concorrência global e na produção. As exportações francesas foram caindo constantemente, principalmente porque o páis tem poucas empresas de médio porte competitivas, uma grande força da Alemanha.

Há cerca de 185 empresas francesas com mais de 5 mil funcionários, e estas estão se dando muito bem, segundo Baverez. Mas o número total de empresas industriais diminuiu desde 2000, diz ele, com uma perda de 500 mil empregos. Em um país de 65 milhões de pessoas, existem apenas 4,2 mil empresas com 250 a 5 mil empregados.

Enquanto a produtividade francesa é boa, as horas de trabalho na França são menos longas do que na maioria de outros países europeus. Parte do problema é a lei da semana de trabalho de 35 horas, que foi aprovada pelos socialistas, e que Sarkozy não alterou.

De acordo com um estudo recente, os franceses trabalham, em média, seis semanas por ano menos do que os alemães, menos horas do que os gregos e 236 horas a menos por ano do que eles trabalhavam em 1998.

Outro principal problema da França está ligado ao seu setor industrial que sempre possui a taxa de desemprego elevada, particularmente entre jovens, com 24%, e os imigrantes, em 43%. A última vez que a taxa de desemprego foi de 7% foi em 1977.

Em uma das ruas mais elegantes de Paris, a poucos passos do Palácio Elysée de Sarkozy, A. Fragonard vendeu roupas de alta moda feminina durante muito tempo. Mas está tendo que fechar suas portas - outra vítima dos tempos difíceis. O lojista, um homem mais velho elegantemente vestido com um lenço, deu uma caneta para uma cliente que não funcionava. "Ah, Senhora", disse ele, com lágrimas nos olhos, "você vê, até a caneta não funciona mais".

Por Steven Erlanger

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