Futebol sul-africano guarda cicatrizes do apartheid

Mesmo após 16 anos do fim da segregação racial, poucos brancos entraram para o esporte, que sempre foi popular entre os negros

The New York Times |

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Garoto controla boca durante torneio em Soweto, África do Sul (24/03/2009)
Lucas Radebe cresceu na África do Sul jogando futebol com uma bola de tênis ou de pano, feita com sacolas plásticas e uma meia velha. Sem camisetas no bairro de Diepkloof, parte de Soweto, ele e seus amigos juntavam sacos de estopa nos quais faziam buracos para passar braços e cabeça e rabiscavam números nas costas.

Naqueles dias de infância durante o apartheid, a brutal política de segregação racial do governo, Radebe nunca imaginou jogar profissionalmente na Inglaterra. Ou se tornar o capitão da seleção da África do Sul nas Copas do Mundo de 1998 e 2002. Ou que seu país seria sede do campeonato a partir de 11 de junho deste ano.

"Mesmo dias depois que escolheram a África do Sul mal conseguíamos acreditar", disse Radebe, agora com 41 anos e aposentado.

O apartheid impôs uma dura e surreal realidade improvisada aos atletas nos dois esportes mais populares para os negros na África do Sul: o futebol e a corrida de longa distância. Cicatrizes do sistema desmantelado permanecem evidentes. Revelações continuam a alarmar e até mesmo ferir.

Aaron Mokoena, atual capitão da África do Sul, joga pelo Porstmouth na Inglaterra. Ele recentemente disse aos jornalistas britânicos que certa vez sua mãe o vestiu com roupas de sua irmã para mantê-lo vivo durante os dias de chacinas do apartheid.

No dia 17 de junho de 1992, em um infame massacre incitado por políticas raciais na cidade de Boipatong, ao sul de Johanesburgo, mais de 40 pessoas foram mortas por armas de fogo, facas, cacetetes e machados.

Quando um boato foi espalhado dizendo que todos os jovens do município seriam assassinados, "minha mãe teve de me proteger como podia e decidiu me vestir como menina", disse Mokoena ao jornal britânico The Guardian.

Na época, eu estava na primeira de três viagens à África do Sul, reportando para o jornal The Philadelphia Inquirer sobre a participação do país nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Era a primeira participação da África do Sul nas Olimpíadas depois de quase três décadas de ausência forçada dos jogos.

Em Soweto, encontrei a única superfície de corrida para qualquer clima nos guetos negros da África do Sul. Mas, na bizarra situação criada pela opressão e isolamento, a pista não havia sido construída para os corredores. Em vez disso, ela existia unicamente para as corridas de deficientes em cadeiras de rodas.

Conheci jovens corredores que ficaram com bolhas nos pés por correr sobre o asfalto, competindo descalços. E pugilistas que suavam em sacos plásticos de lavanderia para fazer peso. E um corredor campeão do ensino médio que se fortaleceu erguendo um trecho de aço de uma estrada de ferro.

Fiquei sabendo de Matthews Motshwarateu, que treinou quando criança usando as pantufas de sua mãe porque não tinha dinheiro para comprar tênis de corrida, então, em 1980, ele bateu o recorde mundial nos 10 mil metros.

No tempo do apartheid, muitos corredores negros iam às minas de ouro e aço da África do Sul para trabalhar, obter uma alimentação digna e algum treinamento. Era um lugar estranho para alimentar atletas, que geralmente endureciam suas pernas após muitas competições.

Na mina de ouro President Brand em Welkom, alguns corredores trabalhavam quase 2,2 quilômetros abaixo da terra e depois subiam para treinar. Um dia, na mina Western Holdings, que ficava na mesma região, vi corredores que eram forçados a desviar de um ringue de boxe que havia sido inexplicavelmente montado no meio na pista.

Em Transkei, um dos guetos nas quais os negros eram obrigados a viver, conheci a mãe de Xolile Yawa, que chegaria em 13º nos 10 mil metros dos Jogos Olímpicos de Barcelona. "Não sei o que são esses Jogos Olímpicos", disse. "Por favor, explique-me." Ela pediu ajuda para conseguir uma televisão. Ninguém na sua vila tinha uma.

O futebol existia em um vácuo semelhante. Entre 1961 e 1992, com exceção de um breve período, a África do Sul foi proibida de participar de competições internacionais. A Copa do Mundo nem sequer era transmitida no país, disse Radebe. Existiam quatro federações separadas: para negros, brancos, indianos e os chamados "de cor", ou de raça mista.

Ainda assim, Radebe e seus jovens amigos jogavam com sua bola de plástico e pano e suas camisetas de saco de estopa e seu gol feito de paus, tijolos ou tambores. Se os campos tinham mais pedregulhos do que terra, isso não importava.

"Era isso que nos mantinha longe de problemas, era uma forma de liberdade, uma oportunidade para conhecer pessoas de áreas diferentes" em um momento no qual a movimentação dos negros era limitada, disse. "Você precisa lembrar que esse foi um período horrível, quando um carro estranho na nossa rua nos fazia correr."

Em 1991, depois que começou sua carreira profissional na África do Sul, Radebe foi atingido por um disparo nas costas enquanto fazia compras. Felizmente, ele não foi ferido gravemente. Em 1996, ajudou a África do Sul a ganhar o Campeonato das Nações Africanas. Em 1998 e 2002, liderou a seleção nacional na Copa do Mundo. Em breve o maior evento esportivo do mundo será celebrado no seu quintal.

O futebol na África do Sul permanece complicado mesmo 16 anos após o fim do apartheid. Raça ainda é uma questão delicada. Relativamente poucos brancos entraram para o esporte. Na Copa das Confederações do ano passado, um torneio preparatório para a Copa do Mundo, um grupo antirracismo irlandês reclamou que torcedores negros vaiaram Matthew Booth, o único jogador branco titular da África do Sul. Na verdade, eles estavam cantando seu nome quando ele tocava na bola: "Booooooth."

O sistema de desenvolvimento da juventude do país é fraco. E as escolas já não produzem jogadores como antigamente, disse Radebe. O progresso econômico significa que alguns campos de futebol estão desaparecente debaixo de edifícios de apartamentos e condomínios.

A federação nacional de futebol continua desorganizada. Carlos Alberto Parreira, o brasileiro que é técnico da seleção da África do Sul, queixou-se dos poucos amistosos. Salvo Mokoena, Steve Pienaar e Benni McCarthy - que jogam na Inglaterra - a equipe tem pouca experiência internacional. A África do Sul pode se tornar o primeiro país-sede a não passar da primeira rodada.

Ainda assim, uma nação aguarda ansiosa. "(A Copa) significa aonde chegamos como país e continente", disse Radebe.

*Por Jeré Longman

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