Furor e mortes não trazem arrependimento a pastor da Flórida

Terry Jones, que organizou julgamento simulado que terminou com a queima de uma cópia do Alcorão, conta ter buscado causar comoção

The New York Times |

A sua igreja perdeu fiéis e agora está reduzida a poucos membros. Ele está basicamente falido. Alguns de seus vizinhos lhe desejam mal. E a sua cabeça vale uma enorme recompensa. No entanto, Terry Jones, o pastor que organizou um julgamento simulado que terminou com a queima de uma cópia do Alcorão e levou à violência no Afeganistão disse no sábado que não se arrepende. Ele disse estar "triste" e "comovido" com as mortes, mas que, dada a oportunidade, faria tudo novamente.

"Eu queria causar comoção. Se não balançamos o barco, todo mundo permanece complacente", disse Jones em uma entrevista em seu escritório na Dove World Outreach Center. "Emocionalmente, não é fácil. As pessoas tentaram nos responsabilizar por aqueles que morreram. Isso é injusto e prejudicial”.

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Terry Jones em seu escritório, onde mantém um pôster do filme Coração Valente, em Gainesville, Flórida
Protestos violentos contra a queima do Alcorão continuaram no sábado em Kandahar, no Afeganistão, onde nove pessoas foram mortas e 81 ficaram feridas. No dia anterior, 12 pessoas foram mortas quando uma multidão invadiu um prédio da ONU em Mazar-i-Sharif , embora no sábado autoridades da ONU no Afeganistão tenham culpado agentes do Taleban infiltrados pelas mortes. Eles disseram que as vítimas haviam sido deliberadamente assassinadas em vez de mortas por uma multidão fora de controle.

"Será que nossa ação os provocou?" perguntou o pastor. "Claro que sim. É uma provocação que pode ser justificada? É uma provocação que deve levar à morte? Quando advogados me provocam, quando bancos me provocam, quando repórteres me provocam eu não posso matá-los. Isso não funciona assim”.

Jones, 59 anos, com seu grande bigode branco, rosto envelhecido e voz profunda, parece ser um homem de um tempo diferente. Na mesa de seu escritório quase sem adornos, ele mantém uma Bíblia em uma capa de couro marrom desgastado e, na parede, um pôster do filme Coração Valente. Ambos, segundo ele, fornecem alimento espiritual para a sua missão: disseminar a mensagem que o islã e o Alcorão são instrumentos de "violência, morte e terrorismo".

Recompensa

Nas últimas semanas, Jones disse que recebeu 300 ameaças de morte, principalmente via email e telefone, e foi informado pelo FBI que existe uma recompensa de US$ 2,4 milhões por sua vida. Para proteção, seus seguidores – os cerca de 20 a 30 que permaneceram – portam armas abertamente (eles têm licenças, segundo ele) e se tornaram mais rigorosos ao revistar carros e bolsas de visitantes. A igreja está fechada. Proteção policial é necessária quando os fiéis viajam, disse Jones.

A rústica igreja fica em meio a 20 acres de terra, no final de um caminho longo que é cercado de pinheiros australianos. Havia uma pequena piscina e três carros de polícia ociosos no local no sábado. "Eu não me sinto pessoalmente com medo agora", disse ele. "Mas estamos armados".

Jones disse que a decisão de realizar o julgamento simulado do Alcorão no dia 20 de março não foi um ato fácil. "Estávamos preocupados", disse. "Sabíamos que era possível que eles pudessem agir com violência”.

Houve previsões semelhantes no ano passado, quando Jones ameaçou queimar o livro sagrado do islã no dia 11 de setembro de 2010. Enquanto a questão era debatida, uma multidão de repórteres chegou à igreja e o secretário de Defesa Robert M. Gates pediu a Jones pessoalmente que não o fizesse. O presidente Barack Obama apelou a ele através das ondas do rádio.

Dessa vez foi diferente – e não apenas porque o evento foi realizado em relativa obscuridade, diante apenas de um pequeno grupo de simpatizantes. Desta vez, disse Jones, houve um julgamento, fato que ele disse acrescentar peso à decisão. Ele se associou com a The Truth TV, um canal via satélite da Califórnia que é liderado por Ahmed Abaza, um ex-muçulmano que se converteu ao cristianismo e que, segundo Jones, simpatiza com a mensagem da sua igreja.

O pastor disse que a emissora entrou em contato com ele no ano passado depois dele ter cancelado o seu plano de queimar o Alcorão e assim nasceu uma espécie de parceria. Abaza ajudou a fornecer a maioria das testemunhas e advogados para o julgamento simulado, disse Jones. "Eu não fui o juiz", disse Jones, que disse também que leu apenas partes do Alcorão e não todo o texto. Havia um promotor e um advogado de defesa para o Alcorão, um imã do Texas. Houve testemunhas – embora a defesa não tenha ouvido ninguém – e um júri.

Sim, ele disse saber que alguns dos jurados só vieram para o evento depois de saberem sobre ele através da página do seu grupo no Facebook. "As pessoas estavam com medo, portanto muitos não se voluntariaram”, disse. E sim, talvez, os seus seguidores no Facebook tenham composto a maioria que condenou o Alcorão a ser queimado em uma enquete online.

Ainda assim, ele disse: "Foi o julgamento mais justo que pudemos ter”. A Truth TV transmitiu o julgamento simulado ao vivo e em árabe, mas optou por não mostrar o momento da queima do Alcorão. O vídeo do julgamento pode ser encontrado no site da igreja.

A missão de Jones não é popular por estas bandas. A adesão da Dove World Outreach Center evaporou depois que sua pregação começou a se concentrar no que Jones chama de "os perigos do islamismo". "Nós não temos muitos membros", disse ele. “O que fazemos não é algo que as pessoas comuns querem fazer”.

"As pessoas querem ouvir a boa notícia. Mas a igreja tem a responsabilidade de falar sobre a palavra de Deus. Mas também tem que falar sobre o que é certo – seja contra o aborto ou o Islã. As igrejas e os pastores têm medo”.

Receptividade

Ele disse que já não é bem-vindo em Gainesville – que considera muito pequena e ignorante para compreender a sua mensagem – e está pensando em se mudar. Uma cidade grande como Los Angeles pode ser mais aberta à sua mensagem, ele disse.

Primeiro, porém, ele precisa vender a propriedade da igreja, algo que não é fácil na Flórida, uma das capitais da desapropriação no país. E conforme seu interesse pessoal em sua missão aumenta, sua conta bancária seca. (Uma de suas fontes de renda é a venda de antiguidades no eBay, algumas das quais ele guarda na igreja.)

"As coisas não estão fáceis nesse momento específico”, disse Jones, um nativo do Missouri cuja primeira carreira foi como gerente de hotel. "Este não é um empreendimento lucrativo”.

Os moradores de Gainesville, que abriga a Universidade da Flórida, também estão pouco entusiasmados. Na frente da igreja, um cartaz que diz O Islã é do Diabo foi editado pelas pessoas para dizer "Ame Todos os Homens". Em um conjunto habitacional do outro lado da rua, alguns dos moradores disseram que mal podem esperar para que Jones vá embora. "Por que eles estão tentando incitar o ódio e a raiva?" perguntou Shawnna Kochman. "Eles são ruins. Deus deve amar a todos. Isso é um culto”.

*Por Lizette Alvarez

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