Funções ficam obsoletas em novo mercado de trabalho

Recessão acelera rejeição de trabalhadores cujos conhecimentos são substituídos por avanços tecnológicos e comércio internacional

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Cynthia Norton, assistente administrativa desempregada, é fotografada em Jacksonville, Flórida
Muitos dos postos de trabalho perdidos durante a recessão não voltarão. Ponto final. Nos dois últimos anos, o enfraquecimento da economia proporcionou uma oportunidade para que os empregadores fizessem o que teriam feito inevitavelmente de qualquer maneira: despedir milhares de pessoas - como arquivistas, bilheteiros e telefonistas - que foram substituídas pelos avanços tecnológicos e comércio internacional.

A eventual eliminação progressiva dessas posições poderia ter acontecido de maneira menos dolorosa como aposentadoria ou demissões voluntárias. Mas, por causa da recessão, o inverno chegou mais cedo.

O ambiente mais duro foi especialmente desorientador para os trabalhadores mais velhos e mais experientes como Cíntia Norton, de 52 anos, uma assistente administrativa desempregada de Jacksonville.

Trabalho administrativo sempre foi a "vocação" de Cíntia, ela conta, desde que começou a atuar como assistente de sua tia aos 16 anos, na época em que o uniforme era um conjunto azul claro de poliéster e um lenço no pescoço.

Nas décadas seguintes ela classificou arquivos, datilografou e atendeu telefones em inúmeras empresas, de um escritório de advocacia a um clube noturno. Como secretária da Rand Corporation, ela chegou a ter a honra de escoltar Henry Kissinger pelo edifício.

Mas, desde que foi demitida de uma companhia de seguros há dois anos, ninguém parece precisar de seu conhecimento e experiência.

Cíntia está entre os 1,7 milhão de americanos que eram empregados em cargos administrativos e burocráticos quando a recessão começou, mas já não trabalhavam nessa profissão no final do ano passado. Também houve reduções em outras áreas de ocupação que provavelmente não serão recriadas com a recuperação da economia.

Cíntia enviou centenas de currículos sem sorte. Duas vezes, as vagas para as quais ele foi entrevistada foram eliminadas pelas empresas que decidiram, após uma reflexão mais profunda, que redistribuir as funções administrativas entre os funcionários atuais fazia mais sentido do que contratar uma secretária.

Ela passou a maior parte dos últimos dois anos trabalhando como caixa de supermercado, trazendo para casa um terço do que ganhava como assistente administrativa. Mas, por causa de seu emprego no Walmart, ela não pode receber auxílio-desemprego, assistência médica governamental ou descontos em alimentos.

Cíntia pode relutar em reconhecer que muitas de suas habilidades tradicionais como assistente administrativa se tornaram obsoletas e diz que tentou se reciclar - ou, como explica, adaptar seus conhecimentos existentes - para uma nova carreira no setor de assistência à saúde.

Ela fez um curso de oito meses no ano passado, com um empréstimo estudantil de US$ 17 mil, para obter um certificado como assistente médica. A escola que a treinou, no entanto, não informou que os empregadores locais exigem pelo menos um ano de experiência - geralmente feito por meio de voluntariado em clínicas - antes de contratar alguém para um emprego remunerado.

Ela diz que não pode arcar com um ano de voluntariado, especialmente porque tem de pagar seu empréstimo estudantil. Agora ela concorre a uma vaga administrativa de meio período em Los Angeles - onde antes chegou a ter seu próprio negócio de apoio administrativo empresarial -, mas não tem dinheiro para se mudar.

"Às vezes penso que estaria melhor na prisão", diz. "Teria três refeições por dia e estrutura na minha vida. Poderia estudar. Teria mais oportunidades como presidiária do que aqui tentando ser um membro ativo da sociedade."

*Por Catherine Rampell

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