Fugitivo da Bósnia é herói para alguns e açougueiro para outros

BOZINOVICI, Bósnia-Herzegovina - Ratko Mladic, acusado do maior massacre da Europa desde a Segunda Guerra Mundial e hoje o fugitivo mais procurado por suas atrocidades na guerra dos Bálcãs, cresceu num pobre e remoto vilarejo nas montanhas cobertas por corvos. Aqui, como em muitos lugares que os sérvios habitam, seu inegável sofrimento e a escala imponderável dos crimes dos quais é acusado o transformaram em um mito nacional.

The New York Times |

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Foto de 1999 mostra Mladic com trajes militares
Ele é um sobrevivente calejado, seu caráter foi forjado pela pobreza, pelo assassinato de seu pai e pelo suicídio de sua filha ¿ com sua pistola favorita.   

Sua mãe não tinha emprego, pensão nem marido, então, desde muito cedo Ratko precisava lutar para viver, disse seu primo Stretko Mladic. Mas ele era forte. Ele nadava mais rápido que qualquer um, mergulhava fundo, corria rápido, atirava pedras sobre os ombros do pai como ninguém.

Agora que os sérvios extraditaram o líder-sérvio Radovan Karadzic para o tribunal de crimes de guerra em Haia , Holanda, aumentou a pressão na Sérvia para prender Mladic, o general severo e jogador de xadrez de Karadzic, que comandou o cerco em Sarajevo e é acusado de arquitetar o massacre em Srebrenica.

De herói a vilão

Investigadores e analistas sérvios e bósnios dizem que capturar Mladic é ainda mais difícil. A Sérvia pode estar relutante em prender um homem que muitos sérvios têm como herói genuíno. Como uma pessoa que tinha acesso direto ao topo da cadeia de comando, ele tem conhecimento detalhado do envolvimento da Sérvia nas atrocidades dos anos 90, e isto pode protegê-lo Muitos especialistas acreditam que ele tenha se escondido ao longo desses anos em bases militares, escoltado por soldados.

Mas para as famílias dos milhares de muçulmanos sérvios vítimas de atrocidades, advogados do sistema judiciário internacional e políticos europeus que julgam o ingresso da Sérvia na União Européia, o tempo para desculpas já se esgotou: argumentam que a Sérvia não cumpriu seu dever ao prender apenas Karadzic.

Se Karadzic foi o cérebro político por trás da guerra da Bósnia, então Mladic foi o assassino que executou suas ordens, alegou Hatidza Mehmedovic, que estava presente no enclave protegido pela ONU em Srebrenica, em 11 de julho de 1995,  quando ela disse ter presenciado Mladic ordenar a seus soldados reunissem parte dos 8 mil muçulmanos homens e meninos ¿ incluindo seus dois jovens filhos ¿ que foram eventualmente mortos pelas forças paramilitares sob seu comando.

Eu não vou dormir enquanto Mladic não estiver sob custódia, adicionou. Ele é quem mais tem sangue nas mãos.  

Agora com 66 anos, de acordo com amigos, com a saúde debilitada, Mladic esquivou-se de mais de uma dúzia de prisões depois de ser indiciado, como Karadzic, pelo genocídio conectado com o massacre em Srebrenica e pelo assassinato de civis durante o bombardeio de Sarajevo, que deixou mais de 10 mil pessoas mortas.


Discrição

Kradzic, formado em psiquiatria, foi finalmente capturado em 21 de julho vivendo em Belgrado, Sérvia, disfarçado como um guru da nova era. Mas pessoas que conhecem Mladic dizem que ele é muito menos exibicionista que Karadzic, é bem treinado na inteligência militar e é favorável em se fazer invisível.

Seu primo disse que os conhecimentos de sobrevivência de Mladic foram moldados desde muito cedo e o assassinato do pai de Mladic durante a Segunda Guerra Mundial por nazistas croatas o forçou a se tornar auto-suficiente.   

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Na foto de 1995, Karadzic e Mladic
aparecem juntos

Ljiljana Bulatovic, que escreveu diversos livros sobre Mladic disse: Radovan é um exibicionista, um poeta-intelectual que gosta de aparecer, mas Ratko é mais discreto e extremamente disciplinado. Ele tem muitos amigos militares que são muito fiéis a ele. Eu acredito que ele se mataria antes de se entregar. Ele tem dignidade demais para ser capturado.  

Oficiais da inteligência e analistas de segurança acreditam que Mladic vive em algum lugar da Sérvia ou de  Srpska, a parte bósnia dominada pela Sérvia e uma pretensa república. No passado ele foi protegido por ex-companheiros militares

Ajuda militar

Em dois de maio de 1992, um mês depois que a República da Bósnia declarou independência, as forças de Mladic bloquearam Sarajevo. Eles bombardearam a cidade e destruíram mesquitas. Os moradores viviam com medo constante de francos atiradores.

Mais de 10 mil pessoas morreram em Sarajevo durante o bombardeio, incluindo 1.500 crianças. Milhares de sérvios também morreram nos conflitos bósnios.

Em julho de 1995na véspera do massacre de Srebrenica, um desafiante de Mladic fez um discurso pela televisão bósnia-sérvia, durante o qual ele chegou o tempo de vingar séculos de conquista pelos muçulmanos otomanos.

Mehmedovic, a testemunha, sustenta que viu Mladic em Srebrenica, sorrindo e distribuindo balas para as crianças muçulmanas enquanto uma equipe filmava. Quando a câmeras pararam, disse, seu rosto subitamente ficou sem expressão e ordenou que seus soldados recolhessem os meninos e homens e os colocassem dentro de um ônibus para levá-los às suas mortes.

Depois do fim da guerra da Bósnia, ele mudou-se para Belgreado e viveu numa grande casa de pedra no endereço 117A Blagoja Parovica, no subúrbio, onde estava protegido por Milosevic. Testemunhas disseram que o identificaram comendo num caro restaurante italiano e assistindo a um jogo de futebol, cercado de seguranças

Depois que Misolevic foi preso em 2001, investigadores acreditam que Mladic se refugiou em seu banker militar dos tempos da guerra em Han Pijesak, no leste da Bósnia. Alguns moradores alegaram que o identificaram trabalhando como cultivador de abelha. A Otan realizou várias buscas na região, sem sucesso. 

No início de 2006, um militar sérvio reportou, e vazou para a imprensa, que Mladic estava escondido em dependências militares em Srpska e na Sérvia, protegido por uma rede de 50 oficiais da inteligência e do exército, até 1º de julho de 2002, quando a Sérvia aprovou uma lei acordando em cooperar com o Tribunal de Haia.  Depois disso, ele desapareceu.

No mesmo ano, a polícia prendeu dois soldados suspeitos de ajudar a esconder Mladic. Durante o julgamento que se seguiu, foi relatado que ele foi levado do quartel do exército para uma série de apartamentos particulares em Belgrado. Promotores disseram que ele recebeu uma empregada, mantimentos e cartões telefônicos, além de terem lhe oferecido uma cirurgia plástica e um passaporte falso para ajudá-lo a fugir do país.

Por DAN BILEFSKY

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