Forças militares toleram abusos sexuais, diz ação judicial

Veteranos e militares americanos na ativa acusam, em processo, Departamento de Defesa de permitir cultura de estupros e agressões

The New York Times |

Uma ação federal apresentada na terça-feira acusa o Departamento de Defesa de permitir uma cultura militar que não consegue evitar o estupro e a agressão sexual e de lidar de maneira incorreta com casos que foram levados ao seu conhecimento, violando assim os direitos constitucionais das vítimas.

A ação – movida por dois homens e 15 mulheres, tanto veteranos quanto membros na ativa – afirma especificamente que o secretário de Defesa, Robert Gates, e seu predecessor, Donald Rumsfeld, "dirigiram instituições em que os autores dessas ações foram promovidos e nas quais o pessoal militar abertamente ridiculariza e desrespeita as modestas reformas institucionais ordenadas pelo Congresso”. O texto do processo afirma ainda que os dois secretários de defesa falharam "em tomar medidas necessárias para impedir que as vítimas fossem estupradas, violentadas e assediadas sexualmente por militares federais".

AP
Kori Cioca, 25 anos, chora ao falar sobre o período em que foi estuprada enquanto servia na Guarda Costeira americana
Myla Haider, uma ex-sargento e requerente no processo, disse que foi estuprada em 2002, quando atuava na Coreia no Comando de Investigação Criminal das forças militares. "Existe uma atmosfera de zero prestação de contas por parte da liderança e ponto", disse ela.

Haider, que apareceu com outros requerentes da ação em uma coletiva de imprensa na manhã de terça-feira, disse: "As políticas que são postas em prática são extremamente ineficazes. Houve graves maus-tratos nesses casos e não houve qualquer prestação de contas. E, em geral, os soldados que fazem qualquer tipo de queixa estão sujeitos a represálias e não têm meios para se defender".

Na denúncia, Haider disse que não relatou o estupro porque "não acreditava que seria capaz de obter justiça". Mas ela disse que decidiu participar da ação porque queria "resolver a punição sistemática dos soldados que fazem qualquer tipo de queixa" envolvendo violência sexual ou transtorno de estresse pós-traumático decorrente.

Relatos

As histórias relatadas pelas vítimas na denúncia incluem o relato de um soldado que foi obrigado a ficar nu e dançar sobre uma mesa durante uma pausa em uma aula sobre prevenção à violência sexual e física, e o estupro de uma mulher por dois homens que filmaram os ataques e mostraram o vídeo para os colegas dela.

Geoff Morrell, porta-voz do Pentágono, disse em um comunicado que "a violência sexual é um problema mais amplo da sociedade" e que Gates está trabalhando para garantir que os militares "façam tudo o possível para prevenir e responder a ele".

"Isso significa investir mais dinheiro, recursos humanos, formação e especialização, incluindo pedir ajuda a outras grandes instituições, como universidades, para aprender práticas melhores", disse Morrell. "Essa é uma prioridade do comando agora, mas claramente ainda temos muito trabalho a fazer para garantir que todos os nossos membros do serviço estejam a salvo de abusos".

Embora a ação, que foi aberta no Tribunal Distrital dos Estados Unidos na Virgínia, busque indenização monetária, aqueles envolvidos com o caso disseram que o objetivo deles é obter uma revisão do sistema judicial militar em relação à agressão sexual e ao assédio sexual.

“Você não deveria ter de se sujeitar a ser violada ou sexualmente agredida porque se ofereceu a servir esta nação", disse Susan Burke, a advogada responsável pela ação.

Na coletiva de imprensa terça-feira, Anuradha Bhagwati, ex-capitã da Infantaria e diretora-executiva do grupo Rede de Ação para as Mulheres do Serviço Militar, apelou para um novo sistema para melhorar a prestação de contas e criar outros caminhos para fazer denúncias.

"Há veteranos que, após o serviço, estão literalmente sofrendo com estresse pós-traumático" como resultado de estupro e agressão sexual, disse ela. "Pode ser um processo permanente. Ficamos sabendo de veteranos que estão em seus 50 e 60 anos ainda lidando com o trauma de terem sido torturados física e psicologicamente durante o serviço".

*Por Ashley Parker

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