Fora das passarelas, beleza brasileira vai além do loiro

Apesar de o padrão de beleza ter começado a mudar no Brasil, caça-talentos ainda só buscam a próxima Gisele Bündchen

The New York Times |

Antes de partir em um veículo utilitário rosa para procurar em pátios de escola e shopping centers de Restinga Sêca, no sul do Brasil, Alisson Chornak estuda livros, mapas e websites para entender como as cidades foram colonizadas e quão europeus seus moradores atuais podem parecer.

O objetivo, segundo ele e outros caça-talentos, é encontrar o coquetel genético certo entre ascendência alemã e italiana, talvez com pitadas de sangue russo ou eslavo. Tal mistura, explicam, ajuda a produzir meninas altas, magras, de cabelos lisos, pele e olhos claros que o Brasil exporta para passarelas de Nova York, Milão e Paris com enorme sucesso.

Mas o Brasil já não é o mesmo país de 1994, quando Gisele Bundchen, a modelo mais bem paga do mundo, foi descoberta em uma pequena cidade não longe daqui. Mulheres de pele mais escura se tornaram proeminentes na sociedade brasileira, desafiando as noções de beleza brasileira e o sucesso que Bundchen representa no país e no exterior.

Taís Araújo acabou de concluir sua atuação como primeira mulher negra protagonista na cobiçada novela das 20h. Marina Silva, ex-ministra do governo nascida na Amazônia, concorre à presidência. E, ao longo da última década, a renda dos negros brasileiros aumentou 40%, mais do que o dobro do índice dos brancos, à medida que o crescimento da economia ajudou a diminuir a desigualdade e criar uma classe consumista negra mais poderosa, disse Marcelo Neri, economista do Rio de Janeiro.

Até mesmo promotores entraram no debate sobre como deve ser a aparência da sociedade brasileira – e como ela deve ser representada. A São Paulo Fashion Week, o mais importante evento de moda do país, foi forçada por promotores locais a garantir que pelo menos 10% de suas modelos sejam de origem africana ou indígena.

Apesar dessas mudanças, mais da metade das modelos do Brasil continua sendo encontrada em minúsculas fazendas do Rio Grande do Sul, um Estado que possui apenas um vigésimo da população do País e foi habitado predominantemente por alemães e italianos.

Na verdade, os caça-talentos dizem que mais de 70% das modelos do país vêm de três Estados do Sul que dificilmente refletem a mistura étnica que é o Brasil, onde mais da metade da população não é branca.

Nas páginas de suas revistas, o espectro da beleza do Brasil é mais claro. Mulheres não brancas, incluindo celebridades com diversos tipos de corpos, dividem o espaço com modelos brancas. Mas, nas passarelas, o campo de testes para modelos que desejam trabalhar no exterior, a diversidade despenca vertiginosamente. Os promotores que investigaram as queixas de discriminação contra a São Paulo Fashion Week descobriram que apenas 28 das 1.128 modelos do evento eram negras em meados de 2008.

O padrão cria um abismo entre o que muitos brasileiros consideram bonito e a beleza que o país exporta para o exterior. Enquanto atrizes de pele mais escura como Juliana Paes e Camila Pitanga são colocadas entre as mais sensuais do Brasil, é Gisele Bündchen e suas conterrâneas sulistas que ganham fama no exterior.

“Sempre fico perplexa com o fato de o Brasil nunca ter exportado uma Naomi Campbell, e certamente não é por falta de mulheres bonitas”, disse Erika Palomino, consultora de moda em São Paulo. “É uma vergonha.”

Alguns caça-talentos começaram incursões mornas em regiões menos brancas do país. Walter Rodrigues, um estilista brasileiro, abriu recentemente a Rio Fashion Week com 25 modelos, todas negras.

Mas, no sul do país, os caça-talentos ainda passam grande parte de seu tempo à caça da próxima Gisele, e não se desculpam pelo que dizem que vende. Clóvis Pessoa estuda as os traços faciais que são mais bem-sucedidos nas passarelas internacionais e procura por cidades no sul que espelhem esses genes.

“Se uma modelo famosa parece alemã com um nariz russo, farei um estudo científico e procurarei por cidades que foram colonizadas por alemães e russos no sul do Brasil, em busca de conseguir um rosto parecido aqui”, disse Pessoa.

Dilson Stein, que descobriu Gisele Bündchen quando ela tinha 13 anos, qualifica o Rio Grande do Sul como uma arca do tesouro de garotas com potencial para ser modelos. Um ano antes de descobrir Gisele, cujos pais são descendentes de alemães, ele encontrou Alessandra Ambrosio aos 12 anos, que atualmente é famosa por suas fotos para a marca Victoria’s Secret.

Hoje, caça-talentos mais jovens como Chornak assumiram a tarefa. Com agilidade felina, ele saltou de sua cadeira e caminhou atrás de uma garota alta vestindo um casaco de moletom com capuz. “Você já pensou em ser modelo?” perguntou para uma garota de 13 anos com olhos azuis e espinhas. A garota sorriu, com seu aparelho dental reluzindo.

Posteriormente, Chornak visitou uma escola onde a diretora, Liliane Abrão Silva, mostrou álbuns de concursos de beleza da escola. Ela permite a visita dos caça-talentos no intervalo das aulas. “Desde que cheguei a essa escola, cinco já partiram para São Paulo para serem modelos”, disse. “As garotas que não têm dinheiro para ir para a universidade permanecerão aqui para trabalhar no campo.”

Na manhã seguinte, Chornak estudava as meninas que voltavam do recreio com pirulitos vermelhos. “Não há nada de especial aqui”, declarou. Mas, em outra parada, Chornak inspecionou uma escola em Paraíso do Sul, com 8 mil habitantes, com as ferramentas do ofício: cartões de visita, câmera, fita métrica e um notebook.

O sinal tocou e os estudantes saíram. Chornak parou uma garota loira, magra e alta. Em questão de segundos ele estava ajeitando seu cabelo, tirando medidas e a orientando para posar contra uma parede. Chornak também dirigiu até Venâncio Aires, onde um outdoor anunciava “a terra da Garota do Fantástico”, em referência ao programa de televisão que veiculou uma garota local.

Em uma pequena fazenda de tabaco ele visitou Michele Meurer, uma menina de 16 anos de olhos azuis, descoberta enquanto ia de bicicleta para a escola. Tímida e envergonhada, ela chorou muito na primeira vez que foi para São Paulo. Na segunda vez, suportou seis dias antes de Chornak a enviar para casa.

Sua mãe, que cresceu falando alemão, nunca havia saído da cidade até a viagem para São Paulo. A família vive em uma casa de quatro cômodos com galinhas e cachorros. O freezer fica no quarto de Michele por causa da falta de espaço.

Chornak orientou Michele a usar filtro solar quando trabalha no campo e cuidar de sua dieta. Cheio de orgulho, seu pai a matriculou em aulas de inglês caso ela precise viajar ao exterior. “Quero dar uma vida melhor para eles", disse Michele, chorando, sobre seus pais.

Recentemente, ela foi novamente a São Paulo, onde Chornak a colocou em um apartamento de três quarto com outras 11 meninas. Duas semanas antes do São Paulo Fashion Week, Michele fez as malas e partiu. “Estou muito decepcionado que Michele desistiu”, disse Chornak. “Investi muito nela."

* Por Alexei Barrionuevo

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