Filme sobre trajetória de Sarkozy ao poder incomoda presidência francesa

Líder francês, que adora falar sobre filmes a que assistiu, deve ficar longe de 'La Conquete', que será lançado em Cannes

The New York Times |

Como se a vida de Nicolas Sarkozy não tivesse melodrama o suficiente – especialmente com os boatos de que sua terceira esposa, Carla Bruni-Sarkozy, pode estar grávida – alguns cineastas franceses fizeram um drama semi-ficcional, chamado La Conquete (ou A Conquista), que pretende nos contar sobre os bastidores de sua ascensão ao poder.

"A história de um homem que ganha poder e perde sua esposa" é o slogan do filme, uma síntese da campanha implacável que Sarkozy empreendeu em 2007 para suceder Jacques Chirac, enquanto sua segunda esposa, Cecilia, se apaixonava por outro homem, mas retornava para fingir que a vida do casal estava normal até que o último voto fosse computado – e depois desaparecia.

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Sarkozy e a primeira-dama Carla Bruni em viagem ao Cairo, Egito (foto de arquivo)
O conto é quase shakespeareano, um drama de homens falhos e ambiciosos, mulheres românticas e calculistas – um vislumbre daquilo que existe por trás das cortinas da armação política, traição, intrigas, perda pessoal e o preço do poder. Mas também é a história de um presidente no poder, uma ruptura com a tradição de reverência dos franceses.

Os modelos para o filme, segundo o produtor Eric Altmayer, foram os filmes O Candidato, Bob Roberts, Todos os Homens do Presidente e, claro, A Rainha, o relato da luta pessoal da monarca britânica diante da morte de Diana, princesa de Gales. O diretor, Xavier Durringer, buscou verossimilhança, insiste ele, e não caricatura ou sátira.

"Não é um filme político, mas é sobre política", disse Durringer. "Não é um filme sobre o próprio Sarkozy, mas sobre a conquista do poder”. 

Altmayer disse: "Nós tentamos nos manter o mais objetivos o possível. Tentamos chegar perto dele, sua vulnerabilidade e contradições, seu lado bom e ruim”. 

Lançamento

E, quem diria? La Conquete pode ser realmente um bom filme. Mas ninguém saberá até o seu lançamento no Festival de Cannes, no dia 18 de maio – a produção será lançada nacionalmente no mesmo dia. Até então, existe apenas um trailer. Nenhuma cópia foi distribuída com antecedência para os críticos, jornalistas ou até mesmo para Sarkozy e sua equipe, explicam os produtores.

Filmes são importantes para Sarkozy, que gosta de contar a seus visitantes sobre os filmes clássicos que assistiu, assim como os livros que leu. Essa fascinação com os clássicos vêm de Carla Bruni, que fez seu marido passar por uma espécie de tutorial, incluindo almoços com escritores e artistas. Ele disse a um grupo que ele e a mulher assistem a cerca de 150 filmes por ano.

Ele é particularmente apaixonado por filmes americanos e admira a franqueza e simplicidade de Clint Eastwood, a quem consagrou pessoalmente com a “Legião de Honra”, em contraste com a complexidade burguesa dos filmes franceses tradicionais.

Eleições

No entanto, Sarkozy, que está em baixa nas pesquisas de opinião um ano antes das eleições, pode não gostar deste filme. O ator que o interpreta, Denis Podalydes, conhecido por seu trabalho no teatro, usa uma peruca encaracolada, mas representa Sarkozy melhor através de seu tiques, manias e gestos. Podalydes e Durringer dizem ter estudado milhares de fotografias e horas de filmagens, lido centenas de artigos e conversado com jornalistas políticos. O ator teve uma breve reunião com o presidente, que lhe disse: "Eu não gosto do poder, mas eu gosto de exercê-lo”.

Mas o filme claramente inclui momentos de ficção, especialmente de conversas íntimas, conforme Sarkozy tenta convencer Cecília, sua segunda esposa, a não deixá-lo. O trailer mostra uma cena de Sarkozy abandonando uma reunião política dizendo: "Eu sou uma Ferrari. Você abre o capô vestindo luvas brancas". Em outro momento no trailer, ele grita: "Eu estou cercado por idiotas". Em geral, no filme ele fala, em privado, usando gírias e um palavreado vulgar. Outro personagem o chama de louco e o ator que representa Chirac finge atirar em Sarkozy com um fuzil imaginário.

Pierre Charon, um ex-assessor de imprensa de Sarkozy, disse: "Do que vimos até agora, não gostamos”. E outros assessores são citados anonimamente na imprensa francesa descrevendo o filme, que não viram, como "um caricatura ridícula". Podalydes escreveu uma carta à mão a Sarkozy explicando o seu papel.

Mesmo Dominique de Villepin, o favorito de Chirac e rival de Sarkozy na indicação à eleição de 2007, rejeita o filme como ficção. Claro, o próprio Villepin é usado como base para zombaria em um livro de quadrinhos muito popular no país, o “Quai d'Orsay”, sobre seu tempo como ministro do exterior compositor de poesia e apaixonado por Napoleão durante o governo de Chirac.

Projeto

Os cineastas trabalharam no projeto durante muitos anos, com o roteiro do historiador político Patrick Rotman, mas não conseguiram financiamento das fontes tradicionais. O estúdio Gaumont, que deu seu aval e rede de distribuição, contribuiu com apenas uma pequena quantidade de dinheiro, e os canais de televisão franceses, que normalmente ajudam a financiar os filmes locais, se recusaram a tocar em La Conquete, todos, exceto o canal a cabo Canal Plus, disse Altmayer.

"Não é uma grande surpresa dos canais privados – estamos na França, não se esqueça – e eles estão muito perto do poder", disse ele. "Eu fiquei um pouco mais desiludido com canais públicos de televisão, como o France Television, que nunca explicaram o porquê. Há uma espécie de autocensura que é muito francesa”.

Durringer disse que "em torno de determinados assuntos não pode ser um tipo de medo – quando você é o diretor de um canal, você pensa que se algo for mal recebido pelo governo você vai ser despedido".

Então, os cineastas fizeram uso de um abrigo fiscal francês chamado Sofica, criado há 25 anos para atrair financiamento privado para ajudar a apoiar a produção de filmes franceses. Mas o Gaumont se recusou a revelar o orçamento do filme, mesmo quando perguntado diretamente.

Outros presidentes

Houve outros filmes franceses sobre os presidentes do pós-guerra – um filme de 2005, feita após a sua morte, mostrou François Mitterrand tentando escrever suas memórias. Outros foram feitos para a televisão sobre Charles de Gaulle e outros governantes.

Mas esse filme é sobre um presidente em exercício em uma nova era da política e da mídia, que Durringer descreve como de celebridades e informalidade, quando Sarkozy "está mais na mídia do que qualquer astro do rock ou ator, mais exposto na mídia do que Johnny Hallyday”.

Ainda assim, Sarkozy foi criticado por alguns por não manter uma distância suficientemente régia da vida cotidiana na política. E o próprio Festival de Cannes já se mostrou um dilema para Sarkozy e sua esposa. Ela tem um pequeno papel no filme de Woody Allen que abre o festival, o Midnight in Paris. Mas ela decidiu na terça-feira não participar, alegando razões pessoais, dando a Cannes, famosa por sua ostentação, por seu tapete vermelho e festas suntuosas, uma ausência lamentável.

Quanto a si mesmo, Sarkozy disse em entrevista na quarta-feira à emissora Telerama que não irá assistir ao filme, em parte por respeito à sua atual esposa, e em parte "para proteger a minha saúde mental", disse. Ele acrescentou, aparentemente sem ironia, que "narcisismo demais pode enlouquecer”.

O filme foi vendido para os europeus, mas Altmayer espera encontrar um distribuidor americano. Para isso é, afinal, que o Festival de Cannes realmente existe.

*Por Steven Erlanger

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