Filme sobre Lula pode influenciar eleição presidencial

SANTO ANTÔNIO de JESUS, Brasil ¿ Nas cenas de abertura de um novo filme brasileiro, um menino de sete anos vaga descalço pela cidade de Caetés, pisando no chão de terra batida em meio a cactus ao pegar água em um riacho onde uma vaca bebe, enquanto sua mãe espera na casa de um quarto que ele compartilha com sete irmãos e irmãs.

The New York Times |

O menino, Luiz Inácio Lula da Silva, mais tarde se tornaria o presidente do Brasil e um dos líderes mais populares do mundo, apesar de sua educação até a quarta série e infância pobre.


"Lula, o filho do Brasil", é exibido no interior do país / NYT

O filme, "Lula, o Filho de Brasil", que estreou nos cinemas brasileiros no primeiro dia do ano, traça sua inspiradora biografia da infância difícil com uma mãe envelhecida e um pai agressivo e bêbado à elevação heróica como líder sindical que foi brevemente detido pela ditadura militar.

"O Lula deu aos brasileiros a liberdade de um complexo de inferioridade", disse Fábio Barreto, diretor do filme e um partidário declarado do presidente, que não pede desculpas por lustrar algumas partes mais ásperas de sua história. "Esta sociedade sempre foi tratada como inferior e preguiçosa e menos do que realmente é. Ninguém nunca veio aqui nos dizer que nosso povo é forte."

A história acaba antes da carreira política de Lula começar. Mas isso não impediu que políticos e outros críticos questionassem as intenções dos produtores, que lançaram o filme em ano de eleição presidencial.

"Tudo sobre este filme é político", disse Amaury de Souza, analista político no Rio de Janeiro. "Não é filme sobre um brasileiro comum."

Embora Lula não possa concorrer à reeleição, ele espera transferir sua popularidade à ministra da Casa Civil e sua sucessora escolhida, Dilma Rousseff. Além de ajudar Dilma, que luta pelo reconhecimento de seu nome, analistas políticos vêem o filme como uma forma de recriar o "mito de Lula" de maneira a ajudá-lo a voltar ao poder em 2014.

Durante anos, o antigo líder do sindicato dos metalúrgicos foi retratado como uma história de sucesso do proletariado industrial, um trabalhador de fábrica que foi eleito presidente na sua quarta disputa. Como presidente, seu forte comando econômico, apelo populista e carisma lhe transformaram em um ícone nacional.

Mas depois que um escândalo de compra de votos prejudicou o seu Partido dos Trabalhadores, em 2005, ameaçando gerar um processo de impeachment contra ele, Lula começou a se distanciar do partido e a enfatizar seu passado como "o brasileiro pobre que veio de um casebre para se tornar o presidente do Brasil", afirmou de Souza.

O filme contará a história a milhões de espectadores e, se a reação no cinema local de Santo Antônio de Jesus, Bahia, na noite da última quinta-feira for qualquer indicação, eles irão achar sua mensagem atraente.

"Isto mostra a determinação e a vontade de viver que muitos brasileiros têm, especialmente nas classes mais pobres", disse o promotor público Gulimar Ferreira ao deixar o cinema. "E mostra a perseverança de Lula. Eu não sabia que ele tinha sofrido tanto".

Lula também ficou comovido, chorando abertamente durante uma exibição especial em novembro passado. "Eu comecei a chorar logo no início, quando vi a imagem da minha mãe", ele disse aos repórteres no dia seguinte.

E em uma coletiva de imprensa no mês passado, negou que o filme irá ajudar Rousseff, cuja personagem não aparece na produção. "O filme, na verdade, é a história da minha mãe", ele disse. "Este não é um filme sobre o Lula."

Os produtores dizem que não tiveram a intenção de fazer um filme político, mas que esperam capitalizar a popularidade de Lula, cujos índices de aprovação estão acima de 70% em seu último ano no cargo.

"Eu não acho que um filme tem o poder de afetar uma eleição", disse Paula Barreto, produtora do filme. "O Lula é o Lula e este filme é sobre a família dele".

Os Barreto, uma das famílias mais proeminentes na produção cinematográfica do país, são admiradores abertos de Lula. O patriarca da família, Luiz Carlos Barreto, 81, que já produziu o filme mais bem sucedido do país, "Dona Flor e seus Dois Maridos", quis fazer a obra sobre o presidente depois de comprar os direitos de um livro de Denise Paraná, antiga porta-voz de Lula, em 2003.

O filme foi lançado agora, segundo Barreto, "porque estava pronto."

Mesmo assim, atraiu críticas por suas omissões e aparente tentativa de esterilizar a história de Lula. O filme não menciona, por exemplo, que quando tinha 29 anos ele abandonou sua namorada, Miriam Cordeiro, quando ela estava grávida de seis meses.

Barreto disse que os diretores não usaram a história de Cordeiro depois que a família dela ameaçou tomar medidas legais. A família de Cordeiro se recusou a falar para este artigo.

"Eu não acredito", disse Manuela Almeida, 17, depois de saber da omissão após uma sessão do filme. "Para mim eles deixaram fora do filme porque não seria bom para a imagem do presidente".

O filme também substitui a bebida favorita de Lula, cachaça, por cerveja. Barreto disse que isso aconteceu porque a companhia de cerveja brasileira Ambev pagou pela colocação do produto.

"Tudo o que você vê foi baseado em fatos reais, com uma pitada de ficção", disse Fábio Barreto, o diretor. "Não é um documentário". (Barreto foi entrevistado antes de sofrer um grave acidente de carro no dia 19 de dezembro. Ele permanece em coma induzido)

Paraná, a roteirista, disse que várias cenas do "heroísmo" de Lula também foram cortadas.

Os Barreto também apontam que não usaram incentivos fiscais do governo normalmente disponíveis para companhias que investem em produções brasileiras. Mas o financiamento gera outras dúvidas. Algumas das maiores empresas do Brasil investiram no filme, que por quase US$ 7 milhões já é o mais caro a ser feito no país. Entre elas estão as empresas de construção Odebrecht e Camargo Corrêa, bem como fornecedoras de energia elétrica que dependem de concessões do governo.

Alguns críticos afirmaram que os patrocinadores podem estar buscando favores do governo conforme o país entra em um intenso período de desenvolvimento de infra-estrutura para os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio.

Se o filme terá papel na eleição ainda não se sabe. Apesar de ter uma população de mais de 190 milhões de pessoas, o Brasil tem apenas cerca de 2.300 cinemas; 93% dos municípios não têm cinemas, afirmaram os Barreto.

Não obstante, os Barreto estão fazendo um intenso esforço para que o filme seja visto por muitos, especialmente pelos pobres. Os diretores planejam um segundo lançamento, em março, em cidades isoladas que não têm cinemas, usando caminhões e barracas para exibir o filme, disse Barreto.

Eles estão em negociação com a gigante da mídia brasileira, Globo, que tem os direitos de transmissão do filme, para a produção de uma minissérie.

Aqui em Santo Antônio de Jesus, no interior menos afluente do Brasil, a audiência parece receptiva. Almeida, que irá votar pela primeira vez este ano, disse o filme lhe deu uma apreciação melhor do presidente.

"Eu vou votar na Dilma este ano porque eu quero ver o país continuar do modo que tem ido", ela disse. "Não sei muito sobre ela. Preciso descobrir mais. Mas fiquei sabendo que sua história política é parecida com a de Lula, que ela lutou muito. Como ele".

(Reportagem de Alexei Barrionuevo)

Leia mais sobre "Lula, o filho do Brasil"

    Leia tudo sobre: lulao filho do brasil

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG