Filhos frutos de esperma doado podem ter centenas de meio-irmãos

Especialistas pedem mudança na legislação visando a maior controle sobre clínicas de inseminação artificial

The NewYork Times |

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Ryan Kramer, filho de um doador de esperma, posa para foto em sua casa, localizada em Pasadena
Cynthia Daily e sua parceira usaram um doador de esperma para conceber um bebê há sete anos, e elas esperavam que um dia seu filho pudesse conhecer alguns de seus "meio-irmãos" – uma família diferente dos tempos modernos.

Então, Daily procurou em um banco de dados online outras crianças filhas do mesmo doador e ajudou a criar um grupo online para encontrá-las. Ao longo dos anos, ela viu o número de crianças no grupo de seu filho crescer. E crescer.

Hoje, existem 150 crianças, todas concebidas com o esperma de um doador. "É bizarro quando os vemos todos juntos – eles são todos parecidos", disse Daily, 48 anos, uma assistente social que trabalha na área de Washington e muitas vezes viaja com outras famílias que têm filhos do mesmo doador.

Conforme cada vez mais mulheres optam por ter filhos por conta própria, o número de crianças nascidas por meio de inseminação artificial aumenta e grupos de irmãos ligados apenas pelo mesmo doador de esperma começam a aparecer. Embora o grupo de Daily esteja entre os maiores, muitos outros com 50 ou mais meio-irmãos começam a surgir em sites e em grupos de bate-papo, nos quais os doadores de esperma são reconhecidos apenas por seu número de identificação.

Agora, há uma crescente preocupação entre os pais, os doadores e os especialistas sobre as possíveis consequências negativas de ter tantas crianças geradas pelos mesmos doadores, incluindo a possibilidade de que os genes para doenças raras possam ser distribuídos mais amplamente entre a população. Alguns especialistas estão mesmo chamando a atenção para as chances de aumento de incesto acidental entre meio-irmãs e irmãos, que muitas vezes moram perto uns dos outros.

"Minha filha sabe o número de seu doador por isso mesmo", disse a mãe de uma adolescente concebida por doação de esperma, na Califórnia, que pediu que seu nome fosse omitido para proteger a privacidade da filha. "Ela estuda numa escola com crianças que nasceram por doação de esperma. Ela já se apaixonou por meninos que são filhos de doadores. Isso fez parte da educação sexual dela."

Os críticos dizem que as clínicas de fertilidade e bancos de esperma ganham enormes lucros ao permitir que muitas crianças sejam concebidas com o esperma de doadores populares, e que as famílias devem receber mais informações sobre a saúde dos doadores e das crianças concebidas com seu esperma. Eles também pedem limites legais sobre o número de crianças concebidas com o esperma do mesmo doador em uma análise do processo que mantém oculto muitos doadores.

"Temos mais regras para comprar um carro usado do que para comprar esperma", disse Debora L. Spar, presidente da Barnard College e autora de The Baby Business: How Money, Science and Politics Drive the Commerce of Conception (Negócios de Bebê: Como Ciência, Dinheiro e Política Movem o Comércio da Concepção, em tradução literal). “Está muito claro que o comerciante não pode te enganar e há informações sobre a história de um carro. Não existem tais regras no setor de fertilidade."

Embora outros países, incluindo Reino Unido, França e Suécia, limitem quantos filhos um doador de esperma pode ter, não há esse tipo de limite nos Estados Unidos. Há apenas diretrizes emitidas pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, um grupo profissional que recomenda restringir as concepções por doadores individuais para 25 nascimentos por população de 800 mil pessoas.

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Wendy Kramer, que teve seu filho através de um doador, começou um registro para ajudar famílias a aprender mais sobre os meio-irmãos

Ninguém sabe quantas crianças nascem no país a cada ano por meio de doadores de esperma. Algumas estimativas colocam o número em 30 mil a 60 mil, talvez mais. As mães de crianças de doadores são convidadas a relatar o nascimento de uma criança para o banco de esperma voluntariamente, mas apenas entre 20% e 40% delas o fazem, disse Wendy Kramer, fundadora da Donor Sibling Registry.

Por causa dessa escassez de registros, muitas famílias se voltam para o site donorsiblingregistry.com para obter informações sobre os irmãos de uma criança.

Kramer, que teve seu filho Ryan por meio de um doador de esperma, começou o registro das crianças em 2000 para ajudar a conectar as famílias de doadores. No site, os pais podem registrar o nascimento de uma criança e encontrar seus meio-irmãos, bastando apenas que tenham o número de registro do doador de esperma. Muitos pais, segundo ela, ficam chocados ao saber quantos meio-irmãos seu filho tem.

"Eles acham que sua filha pode ter alguns irmãos", disse Kramer, "mas então entram no site e descobrem que sua filha na verdade tem 18 irmãos e irmãs. Eles entram em choque. Fico espantada que esses grupos continuem crescendo e crescendo".

Kramer disse que alguns bancos de esperma nos Estados Unidos têm tratado as famílias de doadores sem ética e é hora de considerar uma nova legislação.

"Assim como aconteceu em muitos outros países ao redor do mundo", disse Kramer, "precisamos questionar publicamente: o que seria melhor para os interesses da criança? É justo colocar uma criança no mundo que não terá acesso à metade de sua genética, história médica e ancestralidade?"

"Esses bancos de esperma mantêm os doadores anônimos, fazendo bebês e um monte de dinheiro. Mas em nenhum lugar nessa fórmula estão fazendo o que é certo para as famílias."

Muitas dessas questões foram debatidas no Reino Unido logo após o nascimento de Louise Brown, em 1978, o primeiro bebê nascido com fertilização in vitro. Em 1982, o governo britânico indicou uma comissão liderada por Mary Warnock, um conhecido filósofo Inglês, para analisar as questões que envolvem a saúde reprodutiva.

O inovador relatório de Warnock continha uma lista de recomendações, incluindo a regulamentação da venda de esperma e embriões humanos e limites rígidos sobre quantas crianças um doador poderia ter (10 por doador). Os regulamentos têm se tornado um modelo para as práticas da indústria em outros países.

"É muito imprevisível o que o efeito final sobre o conjunto de genes de uma sociedade poderia ser se os doadores forem autorizados a doar quantas vezes quiserem", Warnock escreveu recentemente num email.

Sem limites, Naomi R. Cahn, professora de Direito da Universidade George Washinton, ressalta que o mesmo doador poderia, teoricamente, produzir centenas de crianças parentes e, portanto, é até possível que o incesto acidental possa ocorrer entre centenas de seus meio-irmãos.

Os doadores de esperma também estão preocupados. "Quando perguntei especificamente em quantas crianças isso poderia resultar, me disseram que ninguém sabe ao certo, mas que cinco seria uma estimativa segura", disse um doador de esperma no Texas, que pediu que seu nome não fosse divulgado por preocupações com a sua privacidade. "Eles me disseram que seria muito raro para um doador ter mais de dez crianças."

Mais tarde, ele descobriu no site da Donor Sibling Registry que alguns doadores têm dezenas de crianças. "Eles fazem o que querem", disse sobre o banco de esperma para o qual doou seu esperma. "É injusto e reprovável com as famílias, os doadores e os filhos de doadores."

Kramer, a fundadora do site, disse que um doador de esperma descobriu que ele tinha sido responsável pelo nascimento de 70 crianças. Ele agora mantém o controle de todas em uma planilha do Excel. "De vez em quando, ele sabe de um novo garoto ou gêmeos", disse. "É impressionante, é algo que ele não queria. Prometeram a ele um baixo número de crianças."

A indústria de fertilidade há muito tempo resiste à regulamentação, mas a explosão de meio-irmãos pode mudar isso. Dr. Robert G. Brzyski, presidente do comitê de ética da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, era cético de que poderia haver doadores com mais de 100 crianças. Mas agora, disse ele, é hora de rever a os limites ao doador.

"No passado, quando foram tomadas as decisões sobre quantos filhos deveriam ser atribuídos a um doador, isso foi feito com base em estimativas do risco de consanguinidade indesejada entre irmãos e irmãs que pudessem se encontrar e se casar", disse Brzyski. "Acho que esses modelos eram muito limitados em sua visão, quando foram criados. Agora acho que é preciso haver uma reavaliação dos critérios e das políticas em relação ao número adequado de descendentes."

Como há tanto sigilo em torno das doações de esperma e de óvulos, disse Kramer, tem sido difícil para as famílias de crianças nascidas por meio de doação avançar com as suas preocupações. Alguns casais heterossexuais nunca dizem a uma criança que ele ou ela é o produto da doação de esperma.

Daily afirmou que outros pais no grupo de seu filho tinham sido reservados por temer que seus filhos fossem estigmatizados. Ela e os pais de outros doadores optaram por tomar a dianteira, porque, segundo ela, "alguém precisa pedir novas leis".

Especialistas não sabem ao certo o que significa para uma criança descobrir que ele ou ela é apenas uma dentre 50 crianças – ou mais. "Os especialistas não falam sobre isso quando aconselham as pessoas lidando com a infertilidade", disse Kramer. "Como é que você faz conexões com tantos irmãos? Qual é o significado de família para essas crianças?"

* Por Jacqueline Mroz

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