Filha da extrema direita francesa prepara liderança

Marine Le Pen deve suceder ao pai na Frente Nacional, para defender a 'sagrada' França dos novos inimigos - incluindo o islamismo

The New York Times |

Marine Le Pen tentou ao máximo fugir de seu pai e da política, ela conta, oprimida pela infâmia de sua herança, que a perseguia por todos os cantos.

Mas agora todo o país espera que ela seja a sucessora de Jean-Marie Le Pen como líder da Frente Nacional, o persistente partido de extrema direita que prega a pureza e o excepcionalismo da França contra a imigração e a União Europeia, que ela quer trazer para a era das novas mídias. Cada vez mais, ela é a face do partido em debates televisivos e campanhas nacionais.

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Marine Le Pen com seu pai, Jean-Marie Le Pen, em frente da sede do Partido Frente Nacional em Nanterre, França (17/05/2010)

"É assustador ver como o destino pode zombar de nós mesmos", disse em uma longa entrevista na nova sede do partido, localizada ironicamente em um subúrbio comunista de Paris. "Vejo-me ali, na política, quando na maior parte da minha vida tentei escapar daquilo."

Ela vê a si mesma como cumprindo seu destino agora, ainda que não seja um destino tão proeminente quanto o de Joana D'Arc, maior símbolo do partido por escolha de Le Pen - um símbolo da resistência e santidade francesas. Com seu pai, de 81 anos, determinado a se aposentar no ano que vem, Marine, de 41 anos, pretende carregar a bandeira da Frente Nacional para o século 21, combatendo uma nova série de inimigos - incluindo o islamismo - que supostamente ameaçam a sagrada França.

É difícil ver Marine Le Pen como uma vítima, mas a Frente Nacional vive do sentimento de vítima de todos os seus eleitores, que veem um povo nobre pisoteado por forças supranacionais, empobrecido pela globalização e invadido por imigrantes, muitas deles muçulmanos.

Mas sua própria infância, ela diz, foi uma miséria. A mais jovem de três filhas de um político odiado que favorecia teorias de xenofobia, ansiedade e antissemitismo, Marine geralmente se viu proscrita.

Seus professores de esquerda a desprezavam. Ela queria ser advogada, mas, mais uma vez, ela diz, o ódio dirigido a seu pai interferiu. "Ninguém queria ter como sócia Marine Le Pen - isso era visto como suicídio profissional", escreveu em uma autobiografia de 2006 "A Contre Flots" (Contra a Corrente, em tradução livre). "As coisas nunca foram insignificantes. Nunca fáceis. Permanecemos as filhas de Le Pen e as pessoas nos faziam sentir culpadas o tempo todo."

Mas hoje ela se refere à sua decisão de assumir a carreira de seu pai como uma espécie de destino, ou doença transmissível. "A política é um vírus do qual nunca se recupera", disse. "Pode ser algo dormente, mas no final sempre volta e a única forma de curá-lo é nunca se contaminar."

Ela cresceu com a doença. "Meu pai me passou esse vírus, essa paixão pelos outros. Nasci e cresci na política, comi política, dormi política. Tentei escapar disso porque eu gostaria de ter a minha própria carreira, mas no final era a única coisa que me empolgava."

A política também quase a matou. Em 1976, quando tinha 8 anos, a casa de sua família foi alvo de um atentado. O incidente deixou marcas, ela disse. "Naquela época não recebemos nenhum apoio psicológico. Foi um atentado e, quando isso aconteceu, repentinamente percebi os perigos que  cercavam a mim e à minha família."

Outro choque foi o divórcio de seus pais oito anos depois, quando sua mãe, Pierrette, mudou-se para os Estados Unidos com o biógrafo do marido e exigiu pensão alimentícia. "Ela que limpe casas", disse Le Pen, e então Pierrette posou para a Playboy usando apenas um avental de faxineira. Marine Le Pen descreve as fotografias de sua mãe como tendo "um efeito avassalador sobre mim" e a briga de seus pais como "uma viagem ao inferno".

Mas ela não é a primeira pessoa a transformar uma infância difícil e isolada em força política e fala com uma eloquência marcada, diferente da entonação populista de seu pai. Alta, loira e telegênica, ela é a "vice-presidente executiva de treinamento, comunicação e propaganda" do partido, além de ter sido eleita membro do Parlamento Europeu em 2004. Divorciada duas vezes, tem três filhos: uma menina, de quase 12 anos, e gêmeos de 11 anos - um menino e uma menina. Ainda que esteja em um relacionamento, ela mantém sua vida particular em sigilo.

Ela é respeitosa ao mecionar o pai, chamando-o de "o presidente" ou pelo nome completo. Para Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internationais e Estratégias, seu pai é um obstáculo paras suas tentativas de mudar o partido. "Ele é um fardo do qual ela provavelmente não conseguirá se livrar até que morra", disse Camus.

Ela não compartilha o antissemitismo do pai ou nega o Holocausto, disse Camus. Mas, como Gianfranco Fini da Itália, que se afastou do neofascismo, em algum momento ela "vai ter de fazer um discurso que rompa definitivamente com os neonazistas da Frente Nacional", explicou.

"Ela quer realmente desempenhar um papel na política francesa", disse Camus. "Já foi dito que Marine está feliz em ser uma intrusa com atenção da mídia, mas acho que ela é diferente. Ela quer ser parte de uma coalizão de direita que funcione para chegar ao poder."

*Por Steven Erlanger

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