Festa da posse de Obama recebe um toque jovem

WASHINGTON ¿ Primeiro alguém atira um envelope contendo notas de US$500 na soleira da porta da escola e sai correndo. Era um presente para a banda.

The New York Times |

Depois, uma mulher em seu leito de morte pede que a família e os amigos mandem dinheiro para a banda ao invés de flores. Ainda outra pessoa oferece como doação metade dos fundos de seu casamento. 

Tudo isso foi feito para ajudar a Blue Eagles, uma banda de 95 membros da South Cobb High School em Austell, Geórgia, a realizar seu sonho: desfilar na Avenida Pensilvânia em 20 de janeiro na parada pelo presidente eleito Barack Obama.

A Blue Eagles foi o único grupo da Geórgia selecionado para estar na parada, entre cerca de 90 bandas escolhidas das mais de 1.300 inscrições. Mas a alegria dos estudantes logo deu lugar à apreensão.

Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, disse Megan Lightcap, capitão de uma das alas da banda, recordando a noite em que a Blue Eagles recebeu a notícia. Eu virei para minha melhor amiga e disse, Marissa, como vamos conseguir o dinheiro?


Blue Eagles: US$85 mil para participar da cerimônia de posse de Obama / NYT

Juntar US$85 mil para transportar os membros da banda, responsáveis e equipamentos até Washington foi um quesito difícil para a South Cobb, aonde mais da metade dos estudantes recebem o almoço de graça ou desfrutam de preços reduzidos e aonde cerca de 90% vêm de lares de pais solteiros.

Ainda assim, após 48 horas do convite, a Blue Eagles recebeu a primeira ajuda financeira.

A chance de mandar uma banda predominantemente negra como embaixadora da Geórgia em um momento histórico mexeu com a imaginação da comunidade, disse o diretor da banda, Zachary Cogdill. Em uma carta de 11 de novembro endereçada ao Comitê de Posse Presidencial, Cogdill falou em uma retumbante alegria que tomou conta da escola com a eleição do nosso primeiro presidente afro-americano.

Em meio a um espetáculo definido pelo multiculturalismo, a aparência física da banda sem dúvida ajudou na seleção, mas também sua história contou pontos.

Trajetória

A moral estava em baixa quando Cogdill, uma rapaz enérgico de 29 anos de Nova Jersey, assumiu a banda há quatro anos. Antes com 300 membros, o grupo tinha definhado para apenas 30, e o rico histórico de vitória nos campeonatos nacionais havia desaparecido. A Blue Eagles não se apresentava fora da Geórgia há anos, e poucos estudantes haviam viajado para o norte da Virgínia.

Alunos mais velhos como Lightcap se lembram quando a banda foi vaiada em seu próprio estádio.

Foi de partir o coração, disse Lightcap. Nós dizíamos a eles: Não deixem que o público compre comida. Porque era assim que nos sentíamos em nosso primeiro ano. Todos saíam para comprar comida a cada intervalo.

Nas últimas semanas, Cogdill agendou dias com 12 horas de treinamento e fez os alunos praticarem horas extras.

Eu fiz com que eles trabalhassem duro todos os dias, disse Cogdill, que decidiu que seria diretor de banda na oitava série. Quando eles pensavam que estava difícil, ficava mais difícil ainda.


Membros da Blue Eagles ensaiam para o desfile em Washington / NYT

Dentro e fora de campo, os alunos estão acostumados a se sacrificarem para fazer parte da banda. Muitos trabalham depois da escola para ajudar suas famílias com as despesas gerais e com os gastos da banda.

A banda é uma vida, e se você se ajusta a isso você nunca fica exausto, disse Lightcap, que trabalha cerca de 20 horas semanais como caixa da Chick-fil-A.

Nos últimos quatro anos, Cogdill reduziu para US$150 as taxas anuais; antes era preciso pagar US$850 todo ano. Ele re-estruturou o orçamento de US$35 mil da banda, organizou os doadores e convenceu os comerciantes locais a subsidiar a comida, o uniforme e os equipamentos.

Agora, os calouros desejam entrar para a banda e os jogadores de futebol parabenizam a Blue Eagles depois dos jogos ao invés de brigar com eles pelos corredores da escola. Ninguém mais compra comida durante os intervalos.

Solidariedade

O convite do comitê da posse chegou em 6 de dezembro, deixando apenas algumas semanas para a South Cobb se unir e arrecadar o dinheiro necessário. Mas a história da Blue Eagles se espalhou, chegando até a uma popular rádio de Atlanta, e as doações vieram como avalanche. Georgianos que nunca haviam ouvido falar da banda doaram para se sentirem parte de uma posse notável.

Obama foi o primeiro presidente em que votei e que fiquei tão empolgada, disse Susan Cooper de Lawrenceville que antes tinha votado em George Bush e Ronald Reagan e doou US$240 para a Blue Eagles.

Para você estar ouvindo isso de uma mulher branca de 50 anos, nascida e criada na Geórgia, disse Cooper, eu acho que significa alguma coisa.


História da South Cobb sensibilozou a Geórgia / NYT

Agora, de acordo com a os registros da escola, os cofres da escola aumentaram US$130 mil. Só por meio do site da escola, mais de 16 mil doações totalizando mais de US$71 mil vieram de lugares distantes como Arizona e Califórnia, segundo os registros.

Oitenta e seis companhias ofereceram doações em espécie, disse Cogdill. A Atlanta Peach Moving doou e forneceu um trailer com o logo da banda para transportar os equipamentos. A RaceTrac Petroleum, uma rede de postos de gasolina e lojas de conveniência sediada em Atlanta, irá pagar o combustível da viagem e doar ao menos 1.800 refeições para os membros da banda comerem durante seus longos ensaios. A empreiteira Lockheed Martin, doou US$20 mil.

Um empresário da Marietta forneceu um carro especial para que o tocador de tom-tom da banda, Devin Robinson, um calouro que tem uma doença neuromuscular rara, possa acompanhar a parada.

A parada vai coroar um dos anos de mais sucesso da banda em décadas, incluindo a vitórias em diversas competições locais.

Esse foi o melhor anos de todos, disse Kevon Radford, aluno veterano que toca trombone. Finalmente podemos fazer algo tão grande. Estou nervoso desde já. É muito, muito assustador. Mal posso esperar.

Por JANIE LORBER

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