Felicidade não se compra, mas é um ótimo negócio

SÃO FRANCISCO - O mercado de ações vive uma montanha-russa, os bancos beiram a falência, o desemprego está em alta e os imóveis desapropriados tomam conta da paisagem nacional. Que momento poderia ser melhor para uma conferência sobre a felicidade?

The New York Times |

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Nesta cidade cheia de energia, na qual a busca pelo bem-estar é tratada como uma espécie de arte, uma ampla gama de cientistas, médicos, psicólogos, pesquisadores egocêntricos e budistas tibetanos se reuniram para tratar sobre as últimas descobertas na ciência da felicidade humana (ou eudemonia, termo grego clássico para o florescer da nossa espécie).

Planejada antes da atual crise, a primeira conferência "Felicidade e Suas Causas" teve partes igualmente advindas de Aristóteles e Oprah.
Nela se reuniram nomes de peso como Paul Ekman, o psicólogo conhecido por decifrar as "micro expressões" do rosto que revelam os sentimentos, e Robert Sapolsky, biólogo de Stanford. Eles trataram de temas como "A Compaixão e a Busca Pela Felicidade" e "Porque as Zebras Não Têm Úlceras".

A conferência é a última manifestação do crescimento do setor da felicidade, tema de cada vez mais presente em livros, pesquisas e cursos. O conceito teve início em Sidney, Austrália, em 2006 e expandiu muito desde então, com sua importância aumentando depois da participação do Dalai Lama na conferência australiana de 2007.

O encontro de dois dias em São Francisco que aconteceu nesta semana, custou US$545 e beneficia um grupo sem fins lucrativos que oferece ensinamentos budistas a prisioneiros. A conferência reuniu muitas tendências atuais do éter cultural: psicologia positiva, neuroplasticidade, redução do stress através de uma mente ocupada, o papel do apoio emocional no câncer e o ideal yogi de "viver no presente".

"Nós sabemos mais sobre as dificuldades do que sobre as alegrias", disse Ekman antes de explorar as definições culturais da felicidade, inclusive as nachas, expressão judaica de orgulho pelas conquistas de seus descendentes.

Felizmente, diante dos últimos acontecimentos, cada vez mais estudos realizados na última década sugerem que o dinheiro não equivale felicidade, entre eles um conclui que os esquimós da Groelândia e os nômades do Quênia são tão felizes quanto os membros da lista dos americanos mais ricos da revista Forbes.


Felicidade: tema de livros, pesquisas e conferências / AP

A última novidade sobre a felicidade dos frontes da medicina e ciência foram condensada em pílulas amigáveis de 15 minutos neste encontro.

David Spiegel, professor da Escola de Medicina de Stanford e diretor do Centro de Stress e Saúde, discutiu os efeitos positivos da terapia em grupo sobre pacientes com câncer de mama e sua crença de que as pessoas podem viver mais caso confrontem sua doença com o correto apoio emocional. "Eu nunca perdi um paciente por chorar", disse Spiegel. "Suprimir a tristeza é uma praga".

Sapolsky de Stanford comparou humanos e babuínos. Desordens modernas de stress que contribuem com a hipertensão, doenças do coração e outras resultam de uma separação das condições primatas e das nossas (ou como ele diz "correr para salvar a própria vida na savana versus hipotecas de 30 anos").

O relativamente novo campo de neurogenética comportamental explorou o resultado da análise de inúmeros genes que parecem ter relação com a depressão, ansiedade, personalidade disposta ao vício, a busca por sensações e outras condições. Mas, Sapolsky disse depois que os riscos de uma pessoa não parecem predeterminados mas são resultantes da interação entre estes genes e o ambiente, especialmente fatores estressantes na infância.

O apoio social é vital, não importa quão saudável você seja, ele disse à multidão. "A quantidade de cuidado que você tem com os outros é mais importante do que quem cuidará de você".

Culpa x Felicidade

A plateia, composta principalmente por profissionais da saúde, também incluía a vice-presidente de uma grande financiadora, que preferiu permanecer anônima. Ela disse que teve que demitir mais de 500 pessoas nos últimos seis meses e que estava ali para aprender como melhorar a moral de seus funcionários que trabalham finais de semana e feriados com a perspectiva de corte do bônus anual pela metade.

"O que faz as pessoas felizes é um chamado maior", ela disse, acrescentando que companhias como a dela não têm culpa total pela crise das hipoteca. "A sociedade ocidental se concentra demais na culpa", ela afirmou. "Para que nossos clientes sejam felizes, eles terão que entender que têm responsabilidades também".

'Empresários da felicidade' promoveram a si mesmos durante as pausas para café que terminavam com o toque de um sino de rezas tibetano.
Aymee Coget, que quer ser a Suze Orman da felicidade, entregou panfletos de sua "Transformação para a Felicidade" uma rota de três meses a caminho da "eudemonia sustentável". Coget, vestida de rosa,
disse: "Eu garanto a felicidade em três meses".

Na região, o negócio da felicidade está em alta. James Baraz, reverenciado professor de meditação, tem um curso de 10 meses em Berkeley sobre como "Despertar a Alegria". Entre os exercícios e meditações estão sugestões sobre como melhorar sua vida como: cantar todos os dias, fazer listas de coisas que o deixam feliz e conseguir um "companheiro alegre".

Efeito Oprah

O curso é um fenômeno desde que um artigo sobre ele foi publicado na revista O, de Oprah Winfrey, com cerca de 300 participantes em Berkeley e 2.500 online.

"A neurociência e a espiritualidade estão se unindo", disse Baraz.
"Não se trata de misticismo".

Ainda assim, poucos renegados na conferência sugeriram que a felicidade é algo a que damos importância demais. "A infelicidade por não termos felicidade é uma condição moderna", disse Darrin M.
McMahon, professor de história da Universidade Estadual da Flórida.
"Nós não podemos nos sentir bem o tempo todo e nem devemos".

Ainda assim a ideologia "Yes We Can" (Sim Nós Podemos, em tradução
livre) está no ar. "Nós passamos por um período de pedir dinheiro emprestado, de gratificação pessoal, consumo e egocentrismo", disse Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, Berkeley, e diretor do Centro de Ciência Greater Good. "Agora teremos um presidente que fala sobre sacrifício".

"Os seres humanos precisam amar e cuidar", acrescentou Keltner, "esse é provavelmente o melhor caminho para a felicidade".

Por PATRICIA LEIGH BROWN

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