Feira da Califórnia evoca memórias do México

Mercado ao ar livre na cidade de Madera é meca para mexicanos e reúne cerca de 6 mil pessoas em busca de iguarias e identidade

The New York Times |

Todos os domingos, Juan Enriquez, um antigo camponês do México, mostra sua arte culinária ao esculpir a polpa do coco com uma faca e polvilhar rapidamente sobre ela sal e limão.

"É melhor do que trabalhar nos campos", disse Enriquez sobre seu novo trabalho como vendedor na Feira de Madera. "Aqui pelo menos tem sombra."

Nas comunidades latinas ao longo da estrada 99, a artéria principal do Vale de San Joaquin, na Califórnia, a grande tradição das feiras de domingo – com suas antiguidades, bugigangas e tudo o mais – foi transformada no famoso bazar ao ar livre ou tiangui, que pertence à vida cotidiana em todo o México.

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Feira de Madera, na Califórnia, vende grãos, temperos e frutas
A cidade de Madera é uma meca para os cerca de 120 mil indígenas mexicanos e trabalhadores rurais, muitos dos quais são de Oaxaca e falam uma língua pré-colombiana chamada mixtec.

A feira de domingo se transformou em um colorido mundo latino, uma recriação dos encontros de domingo em torno de centenas de praças de aldeias mexicanas. Mais de 6 mil pessoas conversam enquanto comem pepino temperado com pico de galo, compram CDs de bandas que cantam em mixtec e procuram os melhores preços para comprar o papalo, uma verdura aromática que cresce nas montanhas do México.

A música dá o tom e muda de barraca para barraca, indo de Beatles a Chilenas com ViolinoXX, tocando sons mais tradicionais. Tudo isso é pano de fundo para os inúmeros sombreros, tomatillosXX, incensos e botas de avestruz.

Identidade

Para uma população linguística e socialmente marginalizada no último degrau da escada de trabalho, "é um lugar para você se lembrar de quem é", disse Gaspar Rivera-Salgado, diretor de projetos no Centro de Pesquisa de Trabalho e Educação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

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Prato de pepino com pico de galo no mercado livre de Madera
Os trabalhadores rurais mixtec são recém-chegados, tendo migrado primeiro dentro do México, onde colhiam algodão ou cana cortada. Muitos são oriundos de aldeias que são manchas no mapa, como San Martin Peras, uma comunidade pobre de menos de 1,5 mil pessoas batizada em homenagem a seu santo padroeiro.

Chegando no ValeCentral, eles chegam a ganhar US$ 8 a hora, se tiverem sorte, e muitas vezes US$ 3 por hora em uma taxa fixa.

Na Califórnia, segundo o estudo dos Agricultores Indígenas de 2007-2009, feito em conjunto com a Califórnia Rural Legal Assistance Inc., eles são os mais pobres dos pobres, com renda familiar média de US$ 13.750 em relação aos US$ 22,5 mil de seus colegas mestiços – o termo espanhol para pessoas de origem europeia e indígena.

A linguagem é uma questão angustiante: eles falam 16 línguas indígenas de Oaxaca, mas não sabem espanhol nem inglês, o que dificulta que consigam ler uma receita médica ou responder a uma acusação criminal.

Isso também torna os imigrantes indígenas vulneráveis à exploração e ao pagamento incorreto de seus salários, disse Irma Luna, uma trabalhadora comunitária da Assistência Jurídica Rural da Califórnia.

Hugo Morales, ex-pesquisador da MacArthur Institute e fundador da Rádio Bilingue, a maior do país de língua espanhola, disse: "Nós mixtecos queremos voltar para nossas aldeias, mas não temos a documentação legal ou o dinheiro para voltar. Assim, a Feira de Madera é um espaço de conforto – apesar do calor ".”

*Por Patricia Leigh Brown

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