Fanáticos por aparelhos eletrônicos pagam preço mental

Segundo cientistas, habilidade humana de se concentrar é prejudicada por avalanche de informação do email e de outros meios

The New York Times |

Quando um dos emails mais importantes de sua vida chegou na caixa de entrada há alguns anos, Kord Campbell não percebeu imediatamente. Tampouco em um ou dois dias, mas apenas 12 dias depois. Ele finalmente viu a mensagem ao correr os olhos por mensagens antigas: uma grande companhia queria comprar seu pequeno empreendimento na internet.

A mensagem passou despercebida em meio a uma enchente eletrônica: duas telas de computador ativas com email, mensagens instantâneas, salas de bate-papo, um navegador da web e o código de computador que ele vinha desenvolvendo.

Ainda que tenha conseguido resgatar o acordo de US$1,3 milhão depois de pedir desculpas à empresa, Campbell ainda luta contra os efeitos da sobrecarga de informação.

Mesmo depois que se desconecta, ele sente falta do estímulo obtido por meio de aparelhos eletrônicos. Ele esquece coisas como compromissos de jantar e tem dificuldade de se concentrar na família. Sua mulher, Brenda, reclama: “Parece que ele não consegue estar no momento presente."

É assim que o seu cérebro funciona quando depende de computadores. Cientistas dizem que o uso simultâneo de emails, telefone e outro veículos de informação pode mudar como as pessoas pensam e se comportam. Eles dizem que nossa capacidade de concentração está sendo prejudicada por explosões de informação.

Essas descargas agem como um impulso primitivo que responde a oportunidades e ameaças imediatas. O estímulo provoca excitação - um lampejo de dopamina - que os pesquisadores dizem ser viciante. Na sua ausência, as pessoas se sentem entediadas.

Ainda que muitos digam que a execução de várias tarefas as torna mais produtivas, pesquisas mostram o contrário. Pessoas que executam muitas tarefas simultaneamente têm mais dificuldade de concentração e de deixar de lado informações irrelevantes, dizem os cientistas, além de sofrer mais estresse. E os cientistas descobriram que mesmo depois que a prática termina, o pensamento fragmentado e a falta de foco persistem. Em outras palavras, seu cérebro continua a agir como quando usa computadores.

Por outro lado, a tecnologia pode beneficiar o cérebro de muitas maneiras, segundo os pesquisadores. Estudos de exames de imagem mostram que os cérebros de usuários da internet se tornam mais eficientes em encontrar informações. E jogadores de alguns videogames desenvolvem melhor perspicácia visual.

Mais amplamente, celulares e computadores transformaram a vida. Eles permitem que as pessoas escapem de seus cubículos e trabalhem de qualquer lugar. Eles encolhem distâncias e lidam com inúmeras tarefas mundanas, liberando tempo para que as pessoas façam algo mais interessante.

Para melhor ou pior, o consumo de mídia, tão variada quanto email e TV, explodiu. Em 2008, as pessoas consumiam três vezes mais informação do que em 1960. E elas mudam sua atenção constantemente. Usuários de computadores no trabalho mudam de janela ou verificam email ou outros programas 37 vezes em uma hora, mostra uma nova pesquisa.

A interatividade ininterrupta é uma das mudanças mais significativas no ambiente humano, disse Adam Gazzaley, neurocientista da Universidade da Califórnia, São Francisco.

Campbell, de 43 anos, cresceu com um computador pessoal e é um usuário mais peso pesado de tecnologia do que a maioria. Mas pesquisadores dizem que os hábitos e dificuldades de Campbell e sua família tipificam o que muitos experienciam – e o que muitos outros passarão se a tendência continuar. Para ele, as tensões são cada vez mais agudas e os efeitos difíceis de abandonar.

A família Campbell recentemente se mudou de Oklahoma para a Califórnia para começar uma empresa de software. A vida de Campbell gira em torno de computadores.

Ele vai dormir com o laptop ou iPhone no peito e, quando acorda, entra online imediatamente. Ele e Brenda Campbell, de 39 anos, seguem para a arrumada cozinha da casa de quatro quartos que alugam no subúrbio de Orinda, um bairro afluente de São Francisco, onde ela faz café da manhã e assiste à TV enquanto ele navega na internet para verificar seu email.

Brigas familiares já aconteceram quando Campbell optou usar os videogames como uma fuga durante fases de dificuldades emocionais. Durante as férias, ele teve problemas em deixar os aparelhos eletrônicos de lado. Quando pega o metrô em São Francisco, sabe que ficará sem poder se conectar por 221 segundos ao passar por um túnel.

Seu filho de 16 anos, Connor, alto e educado como o pai, recebeu sua primeira nota C recentemente, algo que a família diz ser consequência das distrações de seus aparelhos eletrônicos. Sua filha de 8 anos, Lily, brinca como a mãe dizendo que o pai prefere a tecnologia à família.

“Gostaria que ele se desligasse completamente e participasse", diz Brenda, que acrescenta que ele se torna "agitado até que receba sua dose de tecnologia". Mas não tentaria forçar uma mudança. “Ele ama isso. A tecnologia é parte de quem ele é", disse. "Se eu odiasse tecnologia, odiaria quem ele é e parte do que meu filho é também."

* Por Matt Richtel

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