Famílias de desaparecidos encontram esperança em programa de TV

Em programa semanal, parentes de iraquianos sequestrados e presos desabafam em episódios que criticam governo liderado por xiitas

The New York Times |

Durante uma hora todos os sábados, com um breve intervalo para a oração, uma mulher aparece na televisão para receber telefonemas de iraquianos cujos parentes desapareceram.

O programa, totalmente iraquiano, é uma tentativa semanal de localizar algumas das milhares de pessoas que desapareceram, como vítimas de sequestros sectários ou como prisioneiros perdidos no impenetrável sistema de justiça, muitas vezes brutal, do Iraque. Os telefonemas revelam caminhos diferentes para o mesmo beco sem saída, descrevendo como as buscas em presídios e delegacias, hospitais e necrotérios os deixaram sem pistas.

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Produtores do programa Patrono do Oprimido, exibido pela TV Bagdá
"Nós não sabemos nada", disse Salwa pelo telefone ao descrever o desaparecimento do irmão em um bairro sunita de Bagdá no ano passado. "O que aconteceu?"

Mídia partidária

O programa, chamado Patrono do Oprimido, faz parte de uma cultura de mídia estridente e partidária. Ele é veiculado pela TV Bagdá, um canal de propriedade do sunita Partido Islâmico Iraquiano. Embora não seja abertamente político, cada episódio é uma crítica implícita ao governo liderado pelos xiitas.

"Ninguém está tomando conta dos presos", afirma a anfitriã, Suhair Azawi, cujo último trabalho foi em um reality show que ajudava famílias carentes.

Algumas vozes ficam embargadas de emoção. Várias outras contam suas histórias com a familiaridade cansada de pessoas que apresentaram o seu caso a incontáveis advogados, carcereiros e oficiais de Justiça, sem sucesso. Às vezes, crianças gritam ao fundo quando um pai ausente é descrito.

No ar, Azawi solicita nomes completos, datas de nascimento, descrições físicas e último paradeiro conhecido. Foi ele – e, invariavelmente, os desaparecidos são homens – enviado para uma prisão especial? Onde ele vivia?

Ela entrevista especialistas em política de detenção e passa reportagens curtas sobre a vida nas prisões do Iraque. Ela mostra as fotos dos desaparecidos e informa as pessoas que telefonam que irá procurar nas listas de detidos e chegar ao Ministério da Justiça para obter informações. Ela deseja sorte a quem liga e, em seguida, cumprimenta a próxima pessoa na linha: "Aleikum Salam".

"É raro encontrar alguém", disse Azawi, parecendo esgotada após uma transmissão ao vivo. "Quase todos eles estão em prisões secretas ou foram mortos".

Desaparecimento

É quase impossível criar uma lista dos desaparecidos no Iraque, do que lhes aconteceu ou de onde possam estar. Alguns estão em prisões do governo e outros, mortos há muito tempo por esquadrões da morte xiitas, militantes sunitas ou grupos criminosos.

A Anistia Internacional estima que cerca de 30 mil pessoas estão detidas sem julgamento no país e o governo iraquiano e grupos sem fins lucrativos dizem que até 15 mil pessoas foram dadas como desaparecidas entre 2005 e 2006, dois dos piores anos da guerra sectária.

Ainda assim as pessoas ligam – dezenas em apenas uma hora – e sobrecarregam as duas linhas telefônicas do estúdio, discando desde o terreno montanhoso do Curdistão até cidades que são santuários xiitas no sul do Iraque. Quando analisados em conjunto, os telefonemas criam um retrato oral dos últimos oito anos de guerra.

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Subhiyah Fadel Khalaf sonha com em encontrar seu filho Abbas
Aziz Hasoon, cujo irmão foi detido mais de três anos atrás, disse que sabia que as chances eram insignificantes e que ninguém iria responder ao seu apelo por informações. Mas Hasoon disse que informaram que seu irmão, um soldado do exército, foi visto na cadeia no sul do Iraque e passou a acreditar que ele ainda está vivo.

Houve um telefonema de Faras, de Mosul, no volátil norte de Bagdá, cujo primo desapareceu no labirinto de prisões geridas por diferentes braços do governo depois de ser preso em 2005. E um de Salman, de Hitt, cujo irmão foi sequestrado há três anos. "Eu posso entender seu sofrimento", disse Riad Al-Barzanji, criador e produtor do programa.

Homenagem

Al-Barzanji começou o programa a cerca de um ano como uma espécie de homenagem a seu irmão mais velho, que foi sequestrado em 2005 no bairro de Dora, em Bagdá, um dos piores campos de batalha da capital. Al-Barzanji disse que seu irmão foi levado para abrigos por milícias leais ao clérigo radical xiita Muqtada Al-Sadr e desapareceu.

Al-Barzanji, disse que seu irmão, que trabalhava como motorista para a Bagdá TV, provavelmente foi enterrado em uma cova sem marcação. Então, agora, todo sábado, ele se senta em uma sala de controle apertada e encaminha chamadas para Azawi. "As pessoas ficam pedindo e implorando para obter informações sobre suas famílias", disse Azawi. "É um grande peso".

Já se passaram quatro anos desde que Subhiyah Fadel Khalaf, 62 anos, beijou o filho Abbas pela última vez quando ele partiu para Samarra, no norte de Bagdá. Desde então, ela e seus outros filhos foram à sua procura. Eles já visitaram presídios em todo o país e pagaram milhares de dólares para figuras sombrias que prometem soltar seu filho, só para fugir com o dinheiro.

Ela pensou ter vislumbrado seu rosto em uma reportagem sobre os detentos na televisão, aumentando sua esperança. Toda semana nos últimos quatro meses, Khalaf liga para o programa para falar sobre Abbas, na esperança de que alguém vá reconhecer o seu nome ou oferecer um sinal de que está tudo bem. "Eu continuo sonhando com ele voltando para casa", disse Khalaf. "É por isso que eu ligo. Esta é talvez a única esperança que resta para mim agora, continuar esperando toda semana".

*Por Jack Healy, com reportagem de Yasser Ghazi

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