Norte do país é marcado por calvário entre guerra de cartéis e promesssas de maior segurança das autoridades mexicanas

A última vez que alguém ouviu falar de Josué Roman Garcia foi em agosto, depois que ele e seu irmão mais velho pararam para almoçar em uma pequena cidade a 150 quilômetros da fronteira com o Texas. Suas últimas palavras, até onde se sabe, foram enviadas em uma mensagem de texto de dentro do porta-malas de um carro.


"Eles nos sequestraram em San Fernando", escreveu Roman, de 21 anos, a um amigo. Ele também alertou para o risco de telefonarem e acrescentou: "Se algo acontecer, diga aos meus pais: ‘Obrigado e eu te amo'".

Mexicanos esperam em frente a necrotério de Matamoros por notícias de parentes desaparecidos
AP
Mexicanos esperam em frente a necrotério de Matamoros por notícias de parentes desaparecidos
Seu pai, Arturo Medina Román, atendendo a ligações no aparelho que trás armazenada a breve mensagem, chegou ao necrotério da cidade mexicana de Matamoros com a esperança e o medo de encontrar os filhos. Durante duas semanas, as autoridades levaram os corpos encontrados em valas comuns nas proximidades de San Fernando – 145 com base na última contagem – para o necrotério. Com cada sepultura nova descoberta, um grupo novo de parentes aparece em busca de notícias de entes queridos, segurando fotografias, estendendo os braços para doar sangue para uma amostra de DNA.

Eles estão procurando um fim para seu calvário, mas à medida que as filas aumentam é reforçada a percepção que oficiais do governo têm lutado desesperadamente para dissipar: partes do norte do México, incluindo a maioria do Estado de Tamaulipas, foram perdidas para as gangues criminosas há algum tempo atrás.

Mesmo depois das promessas do governo de uma maior segurança após a descoberta de uma vala comum contendo os restos mortais de 72 imigrantes da América Central e do Sul no verão passado, também em San Fernando, Tamaulipas continua a ser um Estado que os especialistas descrevem como sem governo ou simplesmente abandonado.

A guerra entre o Cartel do Golfo e seus antigos aliados, Los Zetas, significa que as estradas locais estão repletas de membros de gangues em motociclistas, que apoiam abertamente os líderes do cartel.

Atiradores supostamente dos Zetas assassinaram o principal candidato ao governo no ano passado e posteriormente forçaram um exôdo em massa de uma pequena cidade na fronteira com o Texas. O pagamento de extorsões se tornou mais comum do que os impostos, segundo analistas de segurança, enquanto as autoridades estão aterrorizadas demais ou foram compradas: 16 policiais foram presos até agora por participação em sequestros e execuções.

“Este é um lugar onde as autoridades estaduais, federais e locais claramente não estão no controle”, disse Eric Olson, especialista em segurança no Centro Internacional Woodrow Wilson, em Washington. “É trágico, mas é verdade”.

EUA

Para o governo mexicano, nada é tão delicado quanto uma americana afirmar que o território está perdido.Quando a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton comparou o tráfico de drogas no México no ano passado com uma insurgência, “onde os traficantes controlam algumas partes do país", legisladores mexicanos responderam com uma forte convicção.

A tensão só piorou depois que Carlos Pascual, Embaixador dos Estados Unidos, questionou a capacidade do México para combater o crime em dossiês diplomáticos, citando as palavras de um alto oficial do governo mexicano que "expressou preocupação real em perder ‘algumas regiões do país para os cartéis’”. O presidente mexicano, Felipe Calderón, ficou tão furioso com esse dossiê e outros que insistiu em expulsar Pascual, que renunciou no mês passado.

Mesmo assim, apesar das promessas de ajuda, famílias e moradores da região dizem ter visto pouco progresso em Tamaulipas. Pelo contrário, elas têm testemunhado brigas entre altos oficiais – Tamaulipas é regido por rivais políticos do partido do presidente – e uma execução medíocre das leis em suas terras.

Funcionários do necrotério de Matamoros, no norte do México, transportam corpo encontrado em vala
AP
Funcionários do necrotério de Matamoros, no norte do México, transportam corpo encontrado em vala
Roman, pai de dois filhos desaparecidos, reclamou que os postos de fiscallização do governo são sempre no mesmo lugar e que os criminosos conseguem evitá-los facilmente. Alfonso Ortega, cujo irmão Martin desapareceu há um ano a caminho para Matamoros, descreveu uma enlouquecedora falta de urgência. "O governo não está se movendo", disse Ortega. "Não está fazendo nada".

As autoridades acreditam que os Zetas estão por trás dos assassinatos de San Fernando, mas só tem teorias sobre o porquê: sequestros em busca de resgate, talvez, ou tentativas de recrutamento forçado.

Independentemente disso, os peritos dizem que o problema enraizado em Tamaulipas existe em parte por causa da história dos Zetas. Seus dirigentes começaram como seguranças, portanto quando eles se separam de seus antigos empregadores do Cartel do Golfo, há alguns anos, os Zetas não podiam contar com laços históricos com os fornecedores de droga ou traficantes. A fim de crescer e expandir, eles diversificaram para outros crimes, incluindo o contrabando, extorsão e desvio de oleodutos e gasodutos da região.

Intimidação

Muitos antigos líderes do grupo serviram às Forças Armadas do México e têm usado sua experiência para criar um nível de intimidação maior que o da maioria de seus rivais. Nenhum jornal local se atreve a publicar as fotografias que o governo emitiu dos 17 suspeitos de recentes assassinatos em San Fernando.

Roman, um homem corpulento que vestia sandálias, foi e voltou inúmeras vezes até aqui de sua casa na Cidade do México para estimular as autoridades a agir, e é apenas um dos muitos que se encontram na fila com histórias terríveis sobre perda e burocracia.

Ele disse que qualquer atenção oficial atualmente em foco na identificação dos mortos tornou-se ainda mais dolorosa a perda de seus filhos. "Eles não ajudar você a encontrar os seus filhos quando eles estão vivos", disse ele.

Na verdade, o necrotério e o Ministério Público são os próximos grandes negócios na área. Esta semana, havia dezenas de pessoas sentadas desconfortavelmente nas cadeiras dispostas em corredores de azulejos, silenciadas pela tristeza, enquanto aguardavam para dar declarações.

Em seguida, os corpos vêm e vão. A certa altura, um caminhão refrigerado com dezenas de corpos, envoltos em plástico preto, seguia para a Cidade do México, onde mais investigação vai continuar com o processo.

As pessoas esperando pareciam exausta além da mágoa ou raiva. "Eu só peço a Deus para trazê-lo de volta, mesmo que ele esteja morto", disse Ana Maria Lopez, cujo marido desapareceu na cidade fronteiriça de Reynosa, em 11 de março.

*Por Elisabeth Malkin e Damien Cave

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